Para o tema da crise de paradigmas, globalização e cultura

A Globalização Cultural: Desafios e Propostas para a Governabilidade Global

Seria quase impossível, a qualquer um minimamente atento às dinâmicas do mundo durante os últimos dez ou quinze anos, ignorar o advento do fenômeno referido, ainda que de maneira demasiadamente sintética, como Globalização.
06/03/07

Seria quase impossível, a qualquer um minimamente atento às dinâmicas do mundo durante os últimos dez ou quinze anos, ignorar o advento do fenômeno referido, ainda que de maneira demasiadamente sintética, como Globalização. Muito tem se alardeado sobre essa suposta nova lógica de ordenamento das interações econômicas, políticas e sócio-culturais que hoje tendem a serem orientadas por parâmetros apresentados como potencialmente globais. Contudo, dentro de um mundo tido como crescentemente interconectado e, tendencialmente, padronizado, caberia uma reflexão detalhada sobre os impactos centrais do fenômeno da Globalização na interação entre as múltiplas realidades culturais atualmente ainda existentes no globo. É o que este artigo busca empreender, visando compreender, também, como seria possível, dentro desse novo contexto de interações globais, a promoção de padrões mais harmônicos de convivência e interação interculturais, dado que os mais variados grupos humanos se encontram nos dias de hoje, cada vez mais, em acelerado, e potencialmente conflitivo, contato, em uma escala nunca antes vista.

Gostaria de afirmar, desde já, que assumo o fenômeno da globalização como sendo uma dinâmica de natureza multidimensional, de matriz histórica complexa e com um caráter inerentemente contraditório. De modo concreto, postulo, como caracterização geral, que a Globalização seja compreendida como o processo de intensificação dos relacionamentos trans-fronteiriços – sejam esses de cunho econômico, político, social ou cultural, que tendem a se manifestar de maneira bastante desuniforme quanto a sua intensidade e escopo geográfico – dentro de um processo dialético, que estimula simultaneamente dinâmicas de integração e de fragmentação, de diferenciação como de homogeneização. No que se refere às questões culturais, a Globalização apresenta também tendências tanto de universalização como de (re)localização de traços e elementos culturais distintos.

Com uma rápida retrospectiva histórica, constatamos que as interações de base internacional eram definidas por movimentos de comércio e investimento sob a regulação clara dos Estados e das organizações internacionais criadas por esses mesmos Estados. Já no contexto da realidade definida como globalizada a lógica produtiva passa a ser organizada em uma cadeia transfronteiriça que escapa, em grande parte, aos poderes regulatórios nacionais, ou mesmo internacionais, impostos pelos órgãos interestatais. De fato, a produtividade econômica cresceu tanto durante as últimas décadas – como resultado da combinação de revoluções tecnológicas (microeletrônica, robótica, novos materiais, eficiência energética, biotecnologia) e gerenciais (qualidade total e reengenharia) – que as corporações, o capital e a tecnologia desconectaram-se crescentemente de suas origens nacionais.

Impulsionada pela trans-nacionalização da produção e do consumo, pela volatilidade crescente dos fluxos financeiros, pela atribuição de um papel maior para os atores transnacionais, pela aceleração das inovações tecnológicas, e pelo encolhimento do globo (dadas às inovações nos meios de comunicação e transporte), a Globalização aprofunda a lógica de integração das realidades sociais locais, o que, por sua vez, vem conduzindo a desterritorializações das referências culturais tradicionais e à construção de uma percepção da integração cultural do mundo. Ao mesmo tempo, contudo, vem crescendo também a necessidade de manifestação daquilo que é específico a cada um, seja esse um indivíduo ou um grupo cultural específico.

A Globalização, portanto, como fruto do aprofundamento de um processo de interconexão do mundo, apresenta, no que se refere aos seus aspectos culturais, concomitantemente dinâmicas de integração como de fragmentação, de inclusão como de exclusão, de universalização de padrões de comportamentos como de diferenciação de referenciais e valores de vida. Por um lado, percebemos que uma das mais fortes características da contemporaneidade é a disseminação de um repertório de símbolos e objetos esvaziados de seus conteúdos particulares, mas compartilhados em escala global, onde o universo do consumo passa a assumir uma função de integração social como lugar privilegiado de uma diminuída noção de cidadania. Por outro lado, devido aos desafios, medos e reações por parte de grupos culturais específicos quanto à questão da disseminação de padrões e modelos globais de existência, ocorre um processo de auto-afirmação dos modos locais de vida, que, na maioria das vezes, tem conduzido a conflitos ou a isolamentos inter-civilizacionais.

Vemos, assim, que o fenômeno da Globalização, mais do que fruto do destino, resulta de uma série de transformações multidimensionais nas esferas da produção, das finanças, da política e da cultura de vastas camadas da população mundial. Tais transformações, contudo, apresentam dinâmicas, níveis e intensidades variadas, e a intensificação de conflitos entre culturas distintas parece ser o cenário mais provável dessa dinâmica de interações aceleradas dentro de um mundo cada vez mais comprimido sobre si mesmo segundo os atuais parâmetros de uma lógica essencialmente mercadológica.

Contudo, uma realidade sociopolítica que em nível global pudesse ser assumida como minimamente ordenada e estável envolveria, mais do que padrões de consumo apresentados como de valor global, a observância, por parte de todos os atores políticos relevantes, de uma série de normas e códigos de conduta para a interação mútua nos processos deliberativos das políticas públicas globais. Arranjos institucionais capazes de estabelecer maiores níveis de cooperação dentro do sistema global requerem, por sua vez, a existência de normas e princípios definidores dos comportamentos aceitáveis. Cabe afirmar, ainda, que tais arranjos tendem a ser mais duradouros quando tomam em consideração as múltiplas agendas das várias partes envolvidas. Em outras palavras, a permanência dos arranjos e acordos de cooperação multilaterais dependerá de que esses sejam fruto de uma negociação equilibrada entre as partes. Na realidade atual, definida por crescentes níveis de interação em escala global entre os mais variados grupos sociais humanos, a democracia somente poderá se efetivar como resultado da complexa interação entre instituições sociais, econômicas e políticas, dentro de interações em diversos níveis de poder e interesse. O Estado é ainda um personagem central dessas estruturas e interações, mas não mais o único.

A presente multiplicação de atores políticos (seja em escala local, nacional ou transnacional), aliada à crescente percepção dos limites institucionais das estruturas formais da democracia liberal, exige a formulação de novos arranjos político-institucionais que atendam às diferentes demandas e interesses, por parte de distintos grupos socioculturais, dentro das múltiplas esferas de interação política de um mundo cada vez mais interconectado. De modo efetivo, a promoção de interações intersocietárias que possam ser definidas como harmônicas dentro do atual contexto da globalização passa cada vez mais pela reformulação das estruturas de coordenação das dinâmicas sociopolítica globais, de modo a serem capazes de demonstrar, aos múltiplos agentes envolvidos nos processos de tomada de decisão, que seus interesses, valores e demandas sociais s
o tidos como relevantes e serão, possivelmente, atendidos.

Uma estrutura de governabilidade global que seja viável – devendo, portanto, ser de matriz democrática – teria que se centrar na negociação política como alternativa à guerra, portanto, em formas alternativas de prevenção de conflito, na tolerância e na não-discriminação de grupos sociais por razões de alteridade. Tais arranjos e lógica teriam, também, que ser capazes de garantir a manutenção da diversidade cultural dos diferentes grupos humanos, operando por meio de agências de coordenação política em múltiplos níveis políticos: subnacional, nacional, regional, supranacional ou transnacional. Somente uma lógica de governança global percebida como resultando de contínuos processos de acomodação de interesses sociais distintos, e envolvendo instituições formais e informais (construção de valores comuns via promoção do diálogo intercultural) de atuação poderá vir a ser viável, efetiva e duradoura.

Por sua vez, uma convivência multicultural que possibilite maiores níveis de tolerância e respeito à identidade constitutiva de cada indivíduo ou grupo – sem acarretar em isolamento cultural, uma vez que, no ambiente da globalização, o contato inter-cultural tende a se intensificar – requer a expansão e a reformulação das estruturas da democracia em uma verdadeira escala global. Nesse sentido, cabe lembrar que princípios de governo somente podem ser ditos universalmente válidos se forem frutos de uma negociação livre entre todos as partes envolvidas em uma negociação ampla estrutura em termos equivalentes. Para tanto, seriam necessários espaços institucionais que, de uma maneira minimamente democrática (do ponto de vista da manutenção da autonomia da identidade dos participantes) permitam que diferentes grupos socioculturais estabeleçam projetos e ações conjuntas.

De fato, melhores níveis de entendimento das motivações de cada parte envolvida em projetos de natureza global poderiam reduzir o temor que diversos grupos sociais manifestam com respeito a várias dinâmicas constitutivas do fenômeno da Globalização. E são exatamente maiores níveis de entendimento mútuo das motivações de cada grupo cultural que poderiam ser vislumbradas, pelo menos em tese, como resultado da ampliação das esferas de coordenação e deliberação política em escala global, assim como do fortalecimento dos canais de comunicação intercultural por meio dos quais diversos atores sociais manifestam seus projetos e valores de vida. A existência de interações pacíficas entre grupos culturais distintos numa escala ampla é, pois, possível e desejável como projeto político.

Esse projeto, contudo, deve ser visto como parte de uma ampla série de esforços que buscam o estabelecimento de, não somente padrões de coexistência entre grupos sociais de origem cultural distinta, mas também de mecanismos capazes de fazer com que cada grupo se identifique como parte integrante de um todo que partilha um destino comum. Dentro do ambiente criado por um mundo cada vez mais integrado, mas que até o momento manifesta uma lógica motivadora da ação política de inspiração economicista (competitiva e de mercado), a formulação de um projeto comum parece inviável. Porém, esse mundo que se integra e apresenta tantas dúvidas e ameaças é a mesma realidade que oferece, provavelmente pela primeira vez na história humana, a possibilidade de estabelecimento de contato e comunicação entre virtualmente todos os membros da espécie humana. A tecnologia de comunicação global se encontra já disponível. Caberia, ainda, contudo, que cada grupo cultural, assim como cada indivíduo, assumisse seu futuro como parte de um destino comum que apresenta (assim como os riscos e custos da não execução de tal cenário) as potencialidades da construção de um destino mais pacífico e recompensador do que jamais antes visto.

Rafael Rossotto Ioris é Doutorando em História Latino-Americana pela Emory University (EUA), mestre em Relações Internacionais pela UnB, e professor da UniLaSalle-RJ e da Metodista do Rio de Janeiro.

Extraído de:
http://www.cenariointernacional.com.br/artigos2.asp?id=13

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