Alice é filme feminista? Estrutura e dinâmica social das complexas e lucrativas faces da mesma rica indústria do cinema, do lazer e do entretenimento


Fui levar o Vitor no cinema, ansioso que estava por ver o novo filme de Tim Burton, Alice no país das maravilhas. Como é uma criança bem muito saturada de informada por revistas, livros, jornais, propagandas, TV via satélite, internet e mais os raios que o partam, coitado!, ele já sabia quase tudo sobre o filme: o diretor, seus personagens, seus atores, os detalhes de produção e pós-produção, as curiosidades, o quanto já tinha rendido em bilheteria nos EUA e no mundo, a data de estréia no Brasil, os jogos para PC, Wii e Nintendo DS, o livro contendo guia visual do filme, best-seller total, a promoção do COPO na pipoca do Cinemark,UFA.

Consegui comprar os últimos ingressos para o cinema lotado de sexta-feira e ainda tive que gastar o último dinheiro do mês, comprando o sonhado e desejado combo (18 reais!), contendo uma pipoca média melecada de manteiga, um copão de suco cor de uva totalmente artificial e doce como a morte, um pacote minúsculo de MMs. O copo do Chapeleiro Maluco já tinha acabado, levamos o de Alice mínuscula no pires da xícara tombada com fundo de fechaduras que pareciam flutuar.

Entramos na sala e foi uma luta para achar duas cadeiras juntas. Do nosso lado, um casal de adolescentes sem nenhum pudor se devorava durante os trailers em beijos cinematográficos. Vitor só via os novos trailers, se enchendo de mais ansiedade maravilhosa por novos jornais, revistas, propagandas, programas de TV, livros, detalhes de produção e pós-produção, e combos de Shrek 3, Toy Story 3, e não sei mais o que 3, certamente!

Começa o filme, todos nós de óculos 3D, como se fôssemos passageiros de uma nave espacial de um planeta estranho, a Terra mesmo. O preço de tudo, risadas escandalosas, assombros exagerados, entusiasmadas torcidas e opiniões sobre o rumo da história nos fazem rir de nós mesmos: somos o espetáculo e não espectadores dele. Alice, assim como a doce e bondosa Rainha Branca sua amiga, é linda, é jovem demais e loira, claro. É feminista pop. Não passa de uma caricatura de uma jovem inglesa do século XIX, como paródia quase utópica explícita dos anseios das supostas garotas emancipadas globalizadas do século XXI. Johnny Depp, lindo, excêntrico, maravilhoso e cool, sempre nas variações do seu mesmo temário de ator, aparece de Chapeleiro Maluco e arranca gemidos, sussurros, promessas e juras de amor e admiração!

Vitor se impressiona com a reação da platéia. Ir no cinema é mais do que ver um filme! É consumir tantas coisas e valores ao mesmo tempo. É checar se o seu repertório está em dia e à altura das demandas dos sujeitos e grupos com quem se relaciona. É fugir por pouco mais de uma hora de todas as obrigações da realidade chata, desde que você possa pagar por esse momento único e necessário…

O filme acaba. ninguém se conforma com o fim do divertimento quase psicodélico, como uma droga que anestesia, inebria e aparentemente não dá ressaca. Mas nos deixa dependentes de muitas coisas e sensações… Alice – filme, personagem e droga – é heroína (nos múltiplos sentidos do termo) que derrota algo como um terrível dragão de uma mais terrível mulher autoritária, poderosa, mal amada, egoísta, feia, cabeçuda, rodeada de pessoas más, e ruiva-para-morena, claro! Ela volta ao mundo real para negá-lo e transformá-lo em nova fantasia de viagens de navio pelo mundo, repleta de descobertas. Diz para o fracassado e nojento candidato a noivo e para uma tia solteirona que não vai casar e que não há príncipe, mas… o que fazia Johnny Depp lá então? Ah… boa pergunta. Um amor subliminar, explícito somente para nós, milhões de fãs de seus avatares esquisitos, tão padronizados em sua esquisitice hollywoodiana.
Bom, na saída Vitor ainda me arrasta para a livraria, lê todo o Guia Visual de Alice no País das MAravilhas e tenta me convencer a comprá-lo, assim como ao jogo para PC. Socorro. Não tenho mais dinheiro, nem paciência, estou cansada. Quero dormir e não acordar fora do país das maravilhas mas não sou ganhadora da megasena, pobre de mim.
Voltamos para casa no trânsito noturno infernal, com medo de acidentes, atropelamentos, assaltos. Chegamos exaustos, comemos, banhamos, dormimos.
Boa noite, querido… Até o próximo lançamento, na semana que vem, mamãe! Qual? Quem? Homem de Ferro 2!
MAS NEM LEMBRO SE VI O UMMMMMMMMMMMM: meu deus, acuda. dai-me forças e um bom dia da mulher, das mães, de aniversário, natal, ano novo etc… :s

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u704222.shtml

Anúncios

5 pensamentos sobre “Alice é filme feminista? Estrutura e dinâmica social das complexas e lucrativas faces da mesma rica indústria do cinema, do lazer e do entretenimento

  1. Sou suuuper fã de Alice, ainda não vi o filme, mas já comprei os dois copos (superfacadamesmo). Não vejo a hora de ir no cinema ver a produção mais moderna desse clássico, mas assim como outros filmes, já foi criado para ser o queridinho sucesso de bilheteria, cheio de novidades e adaptado para nossa atualidade, com a mocinha loira toda poderosa feminista. Concordo!

    Curtir

  2. não sei se é pelo meu espirito de criança mas adoro toy story, acho que por que quando crianças atribuimos ideias e condições sociais apenas pelas aparencias dos brinquedos. QUE VENHA TOY STORY 3 =D

    Curtir

  3. Toy Story é e será sempre um marco e clássico da cultura pop que nos acompanhará por toda a vida. Como me disse Vitor, outro dia: foi o primeiro filme de animação feito totalmente por computador, mamãe! e por acaso eu me lembrava ou sabia disso??? 🙂

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s