Corpos e tecnologias ciberativistas: breve artigo em andamento para convidar para Iniciação Científica e Grupo de Pesquisa

Então, pessoal. Sei que está todo mundo ferrado com o fim do quadrimestre, mas… como temos prazos para inscrição de interessados em Iniciação Científica, aqui vai um convite, contendo um texto em primeira versão, cuja escritura está em andamento para apresentação numa reunião científica. Quem se interessar pela temática, por favor, entre em contato!

Corpos e tecnologias ciberativistas: pesquisa estética em estudos de performances no universo cibercultural entre arte, ciência e política

Andrea Paula dos Santo – UFABC
Rodrigo Garcez – UNICAMP

O objetivo deste artigo é apresentar reflexões advindas de pesquisas e estudos sobre corpos e tecnologias que constituem performances ciberativistas no âmbito do universo cibercultural, a partir de um cruzamento de referenciais metodológicos vindos tanto do campo dos estudos de performance quanto da performance art. Com isso busca-se ampliar a compreensão do ciberativismo como prática política em que corpos e tecnologias propõem, em termos ciberculturais, velhos e novos comportamentos expressivos, artísticos ou não. Investigamos até que ponto algumas práticas ciberativistas problematizam ou endossam o estado de passividade, conflito e crise do corpo contemporâneo, em sua experiência cotidiana com uma profusão de tecnologias que, sem dúvida, afetam sua construção histórica. Como se constroem possíveis relações em rede entre corpos e tecnologias em performances ciberativistas abrangendo, por exemplo, criações e usos artísticos ou não da internet? Essas práticas questionam e/ou inventam percepções e rotinas que podem reconfigurar efetivamente processos de produção e consumo de informações e de lazer, bem como relações de poder subjacentes, políticas públicas e estratégias de controle de corpos e tecnologias vigentes na sociedade contemporânea?

Partimos do pressuposto de que as artes são produzidas em interface direta com as ciências, e em ligação estreita com novas tecnologias, sobretudo as de informação e comunicação. Conhecer como arte, ciência e tecnologia aportam tais processos pode ser uma das principais tarefas inter e/ou transdisciplinares de sujeitos e grupos na contemporaneidade, sobretudo de pesquisadores da cibercultura e de ciberativistas. O campo das artes propôs, desde meados do século XX, formas de expressar que só foram possíveis de se desenvolverem e se ampliarem com o desenvolvimento da convergência de tecnologias de informação e comunicação que constituíram a chamada cibercultura, como campo de relações sociais e culturais que existe a partir da aproximação e convivência de sujeitos e grupos por essas mediações tecnológicas pela internet, que possibilitou o surgimento de novas interações e espaços virtuais, que prescindem da noção consagrada de materialidade física de sujeitos e grupos. A chamada arte eletrônica foi reconhecida como aberta e interativa, trazendo, usando e criando linguagens – tais como música eletrônica, e-mail art, body art, webart, entre outras expressões artísticas e estéticas tecnológicas – que rompem fronteiras tradicionais entre autores-artistas e públicos-espectadores. Todos, em princípio, podem interagir por meio dessas linguagens das artes com criação, recombinação, colagem, plágio, citação, crítica de informações visuais, audiovisuais, musicais, escritas, em formas hipertextuais, com ou sem linearidades discursivas, em complexos processos fragmentários e múltiplos, que se conectam e coexistem em rede, paralelos e/ou entrecruzados. Estar em rede, navegar, interagir, simular, hibridizar linguagens, percepções e informações configuram-se como formas artísticas de expressão, reposicionando em novos termos a realidade da comunicação e da informação cotidiana, e seus comportamentos expressivos mediados por tecnologias ligadas ao campo da micro-eletrônica.

Foram postas em cheque concepções tradicionais de relações entre arte, ciência e tecnologia no contexto contemporâneo que subestimaram ligações entre estética e política, principalmente quando tratamos das novas tecnologias de informação e comunicação. Ciberativistas ou não, somos sujeitos de novas culturas políticas virtuais, musicais, visuais e audiovisuais, em que se apresentam convergências de linguagens numa cultura digital, repleta de hibridismos, com novas percepções sobre realidades mistas. Não se distinguem separações nítidas entre práticas políticas, éticas e estéticas tecnológicas. Simulacros, simulações, mídias e políticas confundem e relacionam realidades multifacetadas. Os estudos de performance e política colocam corpo, política, arte, ciência e tecnologias no mesmo patamar, analisando transformações cognitivas, relações de poder, estratégias de controle e políticas publicas que extrapolam ciberculturas e ciberativismos e reconfiguram o panorama da vida em sociedade no século XXI.

Dentro ou fora do universo cibercultural, os registros de memórias implicam em atos de lembrar em contextos de criação de diálogos entre sujeitos e grupos que se dispõe a falar, com seus corpos, sobre suas lembranças, que se estendem para além dos limites corporais, abrangendo objetos, imagens, paisagens, tecnologias, que são apropriados e se tornam documentos e vestígios de subjetividades e de experiências sociais em determinadas comunidades em nossa sociedade. A partir de algumas noções clássicas de memória, corpo, tecnologia, subjetividade, documento – e do panorama crítico-analítico em torno delas na contemporaneidade – a pesquisa, em andamento, objetiva registrar e analisar experiências e relações entre grupos ciberativistas, diante do próprio impacto de reconstrução constante do universo cibercultural. As práticas ciberativistas e os registros de suas memórias são feitos de forma colaborativa pelos sujeitos desses grupos? Como sujeitos e grupos ciberativistas utilizam várias tecnologias de comunicação e informação (vídeo, scanner, banco de dados, câmeras fotográficas, webcams, sites, blogs…) relacionadas ao uso do computador e da internet para construírem comportamentos expressivos? Tais práticas políticas dialogam com as artes e as ciências? Proporcionam ou não problematizar usos dessas tecnologias para esses grupos e para outros? Consideram as formas como seus corpos e subjetividades se reconfiguram em processos de criação de memórias e corporeidades em espaços presenciais e virtuais? Ressignificam sujeitos, grupos, antigas e novas comunidades e paisagens na rede?

No campo dos estudos da performance, como pesquisa ética e estética de comportamentos expressivos, fratura-se e expõe-se o corpo, mostrando como se agenciam, se constroem e se descontroem diversas linhas de força de rituais cotidianos que todos participamos, sejam políticos, religiosos, científicos, econômicos… Os comportamentos expressivos dos sujeitos e seus grupos são criticados e desmontados para possibilitar novas visões, que os desnaturalizarem, e assim permitam desmistificar noções de corporeidade “pura”, de sujeitos e comunidades em esquemas binários, entre o bem e o mal, cujos corpos são representados como distantes ou sem tecnologias que, ao contrário, ativamente nos constituem e nos tornam performers e sujeitos da política. Por meio dessa pesquisa, analisamos como muitas perspectivas e práticas ciberativistas que se colocam como revolucionárias acabam por reiterar velhas práticas e visões políticas, ignorando processos de transformações científicas, tecnológicas e artísticas que atualmente têm poderoso impacto nas percepções de sujeitos e grupos sociais.

Ainda perguntamos: o ciberativismo pode ir além de reproduzir visões conservadoras de como nos tornamos sujeitos da política? Passeatas virtuais, abaixo-assinados, cartas e manifestos de protesto em caixas de entrada de e-mails, jornalismo alternativo e comentários em sites e/ou macro/
micro blogs, levam ou não a repetir performances rotineiras e relações passivas de controle de corpos e tecnologias, que reafirmam papéis distintos de produtores e receptores de informações – e de políticas – no universo cibercultural? Há grupos ciberativistas que questionam as estruturas dessas formas de comunicação no universo cibercultural e fazem novas proposições em torno delas? Qual é o espaço da arte nas práticas e performances ciberativistas? Corpos e tecnologias de sujeitos ciberativistas apresentam ou não estados pós-traumáticos de fragmentação e mutilação pelo choque com tecnologias usadas como opressão? Ou os corpos ciberativistas aparecem em versões conservadoras, intocadas, de pureza idealizada, a serem conquistados e/ou preservados nas visões utópicas das representações de espaços futuros da política, tal como eram os paraísos realistas socialistas ou nazi-fascistas, construídos por grupos políticos autoritários para legitimar práticas políticas tão criticadas no século XX? Os ciberativismos naturalizam ou desnaturalizam as mediações tecnológicas dos corpos na cibercultura, pautada pelas noções de presença, mobilidade, ubiquidade e virtualidade?

Pensar os corpos ciberativistas para além de sua materialidade física é um dos focos principais dessa pesquisa, já que nos debruçamos sobre a questão complexa da memória social em função de práticas de descarte e reciclagem de memórias, usos e tecnologias. Nesse sentido, ao problematizar as noções de corpo e tecnologia nas práticas ciberativistas, consideramos a memória como uma das noções mais mobilizadoras da diversidade de sujeitos e grupos em rede, já que traz possibilidades de legitimação simbólica ao reivindicar o ato de lembrar e a evocação de lembranças como fontes para a construção e/ou apropriação de fontes históricas e de versões da história em disputa na contemporaneidade. Estudamos processos de legitimação de idéias e práticas em torno de corpos, subjetividades e ambientes por meio de construções e/ou interpretações por grupos ciberativistas de velhos e novos documentos, arquivos, centros de memória, museus, entre outras formas e instituições que se propõem a fazer guarda e/ou divulgação dos vestígios produzidos pelos sujeitos e grupos. Como decidir o que deve ser lembrado ou esquecido pelas sociedades, para que o esquecimento não seja a tônica da dinâmica social imediata e futura?

Propomos, portanto, a partir de olhares que emergem dos campos de performance art e dos estudos de performance, reflexões sobre disputas em torno das noções de corpo e tecnologia em circulação nos ciberativismos e no universo cibercultural, bem como sobre outras noções, como a de memória, que informam e dão sustentação a essas disputas, e que se encontram igualmente em linha de fogo. Adoções e usos de certas tecnologias trazem possibilidades de novos corpos ou usos dos corpos ciberativistas, e também novas criações documentais e análises críticas de como sujeitos e grupos lidam com corporeidade por meio de múltiplos sentidos do conceito de memória, de cibercultura, de ciberativismo. Investigamos performances que coloquem em debate muitas das visões teóricas e práticas cotidianas, quase naturalizadas e legadas ao senso-comum, de grupos ciberativistas ou não, que têm materializado e desmaterializado corpos, tecnologias, documentos em rede, refletindo sobre o que é feito e o que podemos fazer diante dos excessos e dissoluções de corpos, tecnologias, arquivos, vistos como pontos privilegiados das práticas políticas e sociabilidades humanas, fontes de vestígios a serem legados ou não às futuras gerações.

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