Acreditar: um dos milhares de projetos liderados por jovens mundo afora que tornam o mundo um pouco melhor

Segue abaixo uma matéria sobre um grupo de jovens nordestinos que lideram o que poderíamos chamar de pequeno banco, projeto que beneficia muitas pessoas, além deles mesmos, claro…

Um bom exemplo de como podem ser propostos e desenvolvidos bons projetos por jovens, que tem reconhecimento nacional e internacional.

ONG criada por jovens usa crédito para evitar êxodo

Gestores com idade média de 21 anos liberaram R$ 1,2 milhão para a criação de 3,5 mil negócios na Zona da Mata de Pernambuco

Alexa Salomão, do Recife | 03/05/2010 06:04

Na tradição do mamulengo, o teatro de bonecos que marca a cultura popular nordestina, Maroca e Miroca formam um casal de retirantes parados na estrada a espera do pau de arara que os levará à promessa de vida melhor no Sul do País. Há algumas versões para o desfecho. Numa delas, embarcam juntos. Noutra, apenas ele parte. Mas há aquela em que ambos desistem quando o caminhão, abarrotado de gente, esperança e suor, finalmente chega.

A história do casal de retirantes é uma das preferida de Lilian Prado, jovem filha de pequenos agricultores, nascida e criada em Glória do Goitá, município pernambucano da Zona da Mata que preserva a tradição do teatro de bonecos. Desde criança, ela vê a história de Maroca e Miroca se repetir não apenas entre marionetes, mas principalmente em sua comunidade. Há 10 anos, no entanto, o trabalho dela é dar um único desfecho ao dilema dos migrantes de carne e osso: criar oportunidade de trabalho na região para que jamais partam em direção à cidade ao Sul do País.

Foto: Jorge Luiz Bezerra

Lilian, diretora da Acreditar: “Não é verdade que a melhor opção de um jovem do Nordeste é fazer a vida em São Paulo. Essa é apenas uma entre muitas alternativas.”

Lilian Prado é diretora da Acreditar, uma entidades especializada em microcrédito, segmento das finanças que libera pequenas quantias para financiar pequenos negócios capazes de gerar trabalho e renda. Detalhe: a Acreditar é liderada por jovens e especializada na concessão de microcrédito para jovens, com a meta de evitar o êxodo juvenil. Aos 26 anos, Lilian é a mais velha da equipe. Convive com o microcrédito desde a implantação da iniciativa, quando tinha 16 anos. Fez até curso superior em administração para aprimorar a atuação na entidade. Tem ao seu lado, para compartilhar decisões, Deise Oliveira e Manásseis Braz, ambos com 24 anos. Os outros quatro integrantes da equipe de campo são mais jovens ainda.

Desde que começaram a trabalhar na área há dez anos, a garotada da Acreditar liberou cerca de R$ 1,2 milhão em empréstimos que variam de R$ 500,00 a R$ 2.000,00. São quantias pequenas, mas com enorme potencial multiplicador. Financiaram a formação de mais de 3.500 novos negócios em quatro municípios localizados a cerca de xx quilômetros da capital do estado – Glória do Goiá, Chã de Alegria, Feira Nova e Pombos. Não apenas deram perspectivas de trabalho para quem não tinha emprego. Acima de tudo movimentaram a economia local.

A idade, que deveria ser um entrave, tornou-se o trunfo do grupo. Primeiro porque esses jovens, ainda que vivam no interior, fazem parte de uma geração conectada que reconhece a importância de saber o que ocorre no mundo. Essa visão fez com quem valorizassem a conquista de conexões internacionais. Lilian, a diretora, faz parte da criteriosa Ashoka, entidade global de empreendedores sociais com sede nos Estados Unidos e representantes em 60 países. A Acreditar também tem parceria com a AIESEC, rede internacional que reúne 1,7 mil universidades em 107 países para promover o intercâmbio de estagiários e jovens profissionais. Já recebeu estagiários de El Salvador e da Venezuela.

O fato de serem jovens também garantiu foco ao trabalho. O grupo sabe por experiência própria as vantagens e limitações da pouca idade. Sabem acima de tudo o quanto é difícil iniciar uma carreira ou abrir uma empresa. “Ninguém dá dinheiro para gente jovem abrir um negócio”, diz Lilian. “Mas é o jovem quem tem dificuldade de conseguir um emprego e mais precisa de apoio para se tornar um empreendedor.” Segundo diz Denise Gibran Nogueira, atualmente gerente de sustentabilidade do Itaú Unibanco que acompanhou o processo de estrutura da Acreditar. “O pessoal da Acreditar sabe exatamente o que quer, qual é o seu papel e seu público”, diz Denise Gibran Nogueira, atualmente gerente de sustentabilidade do Itaú Unibanco que acompanhou o processo de estrutura da Acreditar. “Muitas entidades de microcrédito têm problemas porque não desenvolveram esse discernimento claro sobre como atuar e qual é o seu mercado.”

Há três anos a entidade também passou a conceder financiamentos para mulheres porque incorporou um conceito global das microfinanças: valorizar o papel da mãe, que, consciente tomadora de crédito, estende os benefícios do financiamento a toda família, principalmente aos filhos.

Orgulho de ser nordestino

A opção de Lilian e de seus colegas retrata muito bem o espírito da nova geração de nordestinos que prefere trabalhar pelo desenvolvimento de sua própria região a migrar para estados mais ricos. “Não é verdade que a melhor opção de um jovem do Nordeste é fazer a vida em São Paulo. Essa é apenas uma entre muitas alternativas”, diz Lilian. “As pessoas também têm direito ficar aqui, ter um bom negócio e fazer a vida de nossa cidade ser melhor – o trabalho da Acreditar e contribuir para que isso aconteça.”

Foto: Jorge Luiz Bezerra Ampliar

Jeruza e as camisetas pintadas a mão: negócio bancado pelo microcrédito gera renda e promove o Marcatu

Marilandia de Santana e Jeruza de Souza Silva compartilham essa opinião. Há cinco anos, quando tinham 17 e 18 anos, elas procuraram a Acreditar porque queriam vender camisetas pintadas a mão com motivos típicos da região, em especial o maracatu, dança folclórica de origem africana preservada na Zona da Mata. Ocorre que não tinham dinheiro para o básico: as camisetas. Com um empréstimo
de R$ 300 reais liberado pela Acreditar, compraram 19 peças, abriram o ateliê FassArt e pagaram o empréstimo em cinco meses. “A última coisa que a gente queria era se mudar para conseguir emprego em outra cidade”, diz Jeruza. “Queríamos ficar aqui.”

Hoje Marilandia e Jeruza têm um negócio estabelecido na região. Pintam e vendem cerca de 150 camisetas por mês, o que dá uma renda média mensal de um a dois salários mínimos (já descontado os custo de manutenção e os investimentos regulares). No Carnaval e em períodos de festas regionais, as encomendas triplicam. “A gente acreditava que poderia ter um bom negócio divulgando a cultura local e deu certo”, diz Jeruza. “Nosso desafio agora é ampliar a comercialização e chegar a cidades maiores, como Recife.” As sócias estão montando um site, preparando um catálogo e montando um novo plano de negócio para se candidatarem a um segundo empréstimo na Acreditar.

Crédito orientado

A Acreditar escolheu atuar em um segmento específico: o chamado microcrédito produtivo orientado. Só libera dinheiro para negócios que gerem emprego e renda. Não dá recursos para aquisições de bens, como aparelhos de TV e celulares, que não dão retorno econômico. Também não financia aquisições de empresas. Nas palavras de Lilian, o trabalho da entidade “não é dar dinheiro”, diz ela. “É organizar boas deias para que se transformem em pequenos negócios saudáveis.” E organizar nos mínimos detalhes.

Dentro desse princípio, a proposta da equipe e ser parceira do tomador do empréstimo. Ensina a elaborar o projeto de criação da empresa, formata o plano de negócios, ajuda na organização das estratégias e da estrutura de cargos e salários de cada. Depois que o negócio começa a progredir, ainda acompanha destino do dinheiro. “Um das nossas preocupações é fazer o empreendedor entender que não pode se empolgar quando o dinheiro começar a entrar e gastar com qualquer coisa, como um celular novo”, diz Lilian. “Como estamos próximos das pessoas, fica mais fácil mostrar que o negócio é um ente independente, que precisa de capital de giro e reinvestimentos para se estabelecer.”

O grupo também cultiva o princípio da parceria mútua e exige esforço da outra ponta. Na fase de análise de crédito, por exemplo, o empreendedor precisar demonstrar não apenas que é capaz de pagar o empréstimo, mas que também está disposto a oferecer uma contrapartida. “Não importa se ele vai dar uma quantia em dinheiro, parte do material ou um lugar para o negócio ser instalado”, diz Lilian. “A contrapartida faz com que a pessoa valorize seu próprio esforço naquela iniciativa e reconheça o esforço de quem viabilizou o empréstimo.” É o comprometimento, explica a jovem, que perpetua não só o negócio de quem precisa do dinheiro, mas também a própria Acreditar.

http://economia.ig.com.br/ong+criada+por+jovens+usa+credito+para+evitar+exodo/n1237602802431.html

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