Ajudinha para a leitura de " As três ecologias " de Felix Guattari

Para auxiliar a Leitura do Livro ” As três ecologias ” de Felix Guattari, estou postando um resumo sobre sua obra, e uma resenha da mesma.

Resumo
Tomando como ponto inicial as profundas mudanças ocorridas na sociedade moderna nos últimos 50 anos, Felix Guattari expõe em sua obra “As três ecologias” a preocupação pelos aspectos mais humanos que influenciam direta ou indiretamente na deterioração da sociedade e do meio ambiente.
Os “aspectos mais humanos” referem-se às características psicológicas inerentes ao homo sapiens que se encontram na raiz dos problemas ecológicos e sociais do nosso planeta. Como exemplos desses arquétipos da psique humana, temos: o instinto de violência, a vontade de dominação e todo padrão psicológico que nos afaste da afeição à vida.
A partir de meditações sobre como o lado “obscuro” da subjetividade do homem encontra-se no cerne de toda a devastação social e ambiental que cada dia nos é mais presente, o autor estabelece, que a Ecologia Ambiental não é a única que deve ser considerada, senão que outras duas, naturalmente interligadas entre si, mostram-se tão importantes quanto a primeira, essas são: a Ecologia Social e a Ecologia Mental.
O conceito de ecologia é assim ampliado, abrangendo as questões que dizem respeito à autodestruição humana de forma mais completa, ressaltando pontos como a necessidade de rever a estrutura das classes sociais, o estabelecimento e cumprimento de regras universais dos direitos humanos, o reconhecimento da interdependência entre os seres e da complexa teia de relações entre eles.
Assim, Guattari manifesta que para buscar a convivência em harmonia com a nossa fonte de recursos limitados (a natureza, o planeta, o universo), primeiramente, devemos canalizar a mente para uma busca de objetivos mais elevados, logo, podendo trabalhar na reconstrução das relações humanas, desde os níveis mais esquecidos até os mais comentados, como o próprio autor diz, “Não haverá verdadeira resposta à crise ecológica a não ser em escala planetária e com a condição de que se opere uma autêntica revolução política, social e cultural, reorientando os objetivos da produção de bens materiais e imateriais. Esta revolução deverá concernir, portanto, não só às relações de forças visíveis em grande escala, mas também aos domínios moleculares de sensibilidade, de inteligência e de desejo”.
Pelo exposto no livro, pode-se dizer que as medidas políticas necessárias para a recuperação do nosso planeta e cada uma das relevâncias para a liberação do homem de sua profética “implosão”, estão condicionadas às atitudes mentais individuais, e logo, sociais dos cidadãos da “cidade” Terra.
Resenha feita Juliana Veiga
O autor inicia o livro narrando sobre as intensas transformações técnico-científicas do Planeta Terra que acabam por engendrar fenômenos de desequilíbrios ecológicos. Ao mesmo tempo os modos de vida individuais e coletivos se encaminham para uma padronização dos comportamentos, como ele cita. Além de que “a vida doméstica vem sendo gangrenada pelo consumo da mídia”.
Para a mudança desse quadro, Guattari propõe a articulação ético-política, que ele chama de ecosofia, entre o que seriam os “três registros ecológicos”: o do meio ambiente, o das relações sociais e o da subjetividade humana. Para ele, o que está em questão é a maneira de se viver no planeta daqui em diante.
A resposta a essa crise ecológica viria da revolução política, social e cultural. “Essa revolução deverá concernir, portanto, não só às relações de forças visíveis em grande escala mas também aos domínios moleculares de sensibilidade, de inteligência e de desejo”, ou seja, de subjetividade.
Porém, os Estados se impõem cada vez menos como instâncias mediadoras, se colocando a serviço do “mercado mundial e dos complexos militar-industriais”.
Dessa maneira, o paradoxo está instalado: de um lado, o desenvolvimento de meios técnico-científicos com potencial de resolver e reequilibrar as problemáticas ecológicas dominantes, e de outro, a incapacidade das forças sociais e, portanto, subjetivas de se apropriar desses meios para torná-los positivos, funcionais, ou operativos como coloca o autor.
Apesar disso, alguns fatos nos levam a pensar que transformações estão em curso. Guattari dá o exemplo da designação de mulheres para cargos de chefia e reivindicação de paridade homem-mulher nas instâncias representativas.
“A nova referência ecosófica indica linhas de recomposição das práxis humanas nos mais variados domínios (…) Trata-se, a cada vez, de se debruçar sobre o que poderiam ser os dispositivos de produção de subjetividade, indo no sentido de uma re-singularização individual e/ou coletiva, ao invés de ir no sentido de uma usinagem pela mídia, sinônimo de desolação e desespero”.
Isso significa dizer que a ecosofia social se constitui a partir do desenvolvimento de práticas específicas que modifiquem e reinventem maneiras de ser no que diz respeito à família, ao casal, ao contexto urbano, ao trabalho, etc. Um casal não é mais necessariamente composto por homem e mulher, uma família não é necessariamente composta por filhos biológicos.
Ou seja, é inconcebível querer aplicar as mesmas fórmulas do passado numa sociedade que, ao contrário, deve se reinventar conforme as demandas e subjetividades de sua época.
Nesse domínio, o autor comenta: “Não nos ateríamos às recomendações gerais mas faríamos funcionar práticas efetivas de experimentação tanto nos níveis microssociais quanto em escalas institucionais maiores.” Entendo níveis microssociais como “locais de atuação” dos grupos sociais, como a família, a escola, a igreja, os espaços culturais. Escalas institucionais maiores seria basicamente o Estado e suas formas de poder.
Aqui entendo que o autor propõe agir nas brechas, partindo de uma micropolítica (escola, família, espaços culturais, etc) para reinventar a macropolítica e suas formas de engendrar o poder.
O autor sugere falar em componentes de subjetivação ao invés de sujeito, para reexaminar a interioridade do indivíduo que se dá no “cruzamento de múltiplos componentes relativamente autônomos uns em relação aos outros e, se for o caso, francamente discordantes”. Ou seja, essa interioridade é composta por antagonismos que não são necessariamente complementares.
Sobre a psicanálise, Guattari fala da importância de seus “fantasmas” serem desmascarados no sentido de uma não sustentação das nossas maneiras de pensar a sexualidade, a infância, a neurose. A questão colocada por ele é de re-orientar esses conceitos e práticas para dar-lhes outro uso, desenraizando-os de suas fórmulas prontas, deterministas, enfim, dos estereótipos e repetições “congeladas”.
E para isso, ele cita a “lógica das intensidades ou a eco-lógica”, em oposição à lógica dos conjuntos discursivos, que leva em conta o processo de “se pôr a ser”, o movimento; rompendo com o que é totalizante, pondo-se a trabalha
r por conta própria. É algo que se coloca atravessado à ordem “normal” das coisas.
O que o autor chama de Capitalismo Mundial Integrado (CMI) tende, cada vez mais, em tirar seu foco de poder das estruturas de produção de bens e serviços para as estruturas que produzem signos; subjetividade. É a produção de subjetividade por intermédio da mídia, da publicidade.
A questão que se coloca para o futuro é a de cultivar a produção singular da existência, ou o que ele chama de dissenso. Ou seja, o cultivo da diferença como algo positivo e possível. É a partir daí que devem surgir frentes heterogêneas para articular as novas práticas ecológicas, ou seja, micropolíticas e microssociais.
O que Guattari propõe é fazer com que a singularidade, a exceção, a raridade funcionem junto com uma ordem estatal o menos pesada possível. A eco-lógica não se propõe resolver os contrários, mas os coloca em luta.
“Essa nova lógica ecosófica, volto a sublinhar, se aparenta à do artista que pode ser levado a remanejar sua obra a partir da intrusão de um detalhe acidental, de um acontecimento-incidente que repentinamente faz bifurcar seu projeto inicial, para fazê-lo derivar longe das perspectivas anteriores mais seguras.
”É a possibilidade da mudança, do fazer diferente, do re-significar, que permite o não-engessamento das práticas culturais.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s