Visão sobre como tratar os conflitos do caso Bolsonaro por Marcelo Tas

Oi pessoal, achei essa entrevista com Marcelo Tas, que fala de uma forma muito próxima com a que falei ontem sobre o vídeo à moda Michel Moore sobre os israelenses, sobre como discutir visões polêmicas e tratar conflitos, partindo do caso Bolsonaro, que ganhou grandes proporções.

No entanto, discordo do Tas quando ele afirma que o deputado não deva ser cassado ou punido. Sim, penso que ele deve aprender a respeitar ao menos a legislação, se não é capaz de minimamente respeitar os outros, e isso só ocorre se a pessoa sofrer sanções ou coerções previstas pela sociedade para defender seus próprios membros com um senso de justiça democrática. Se a punição não fizer com que ele aprenda algo, poderá fazer com que algum dos 120 mil eleitores e outros milhares que têm se manifestado a favor dele, pensarem duas vezes antes de cometerem agressões (discurso também é ação! lembrem Foucault…) e isso poderá mudar algumas atitudes de forma benéfica, buscando dialogar e reeducar as pessoas para conviver com as diferenças.

Isso é bem diferente de defender que o que está em questão é eliminá-lo da face da terra ou mandá-lo para uma pena de morte! Trata-se sim de retirar benefícios que a pessoa não deve mais usufruir por ter cometido crimes. Afinal, um cidadão pode possuir o benefício de viver em paz, circular livremente, não pagar nenhuma multa quando exerce sua vida sem agredir, ofender ou fomentar o ódio entre pessoas e grupos. Já aquele que pratica essas lastimáveis ações precisa sim, graças à legislação e às políticas públicas, sofrer coerção para que se veja obrigado a mudar e outras pessoas possam continuar a viver bem como escolheram viver.

Enfim, deixar alguém falar e agredir os outros de forma racista, homofóbica ou qualquer outra maneira preconceituosa sem que haja discussão pública, mediação e alguma forma de justiça é dar licença para que essa atitude se generalize, ampliando, aprofundando e agravando conflitos!

O que vocês acham? Será que um programa com a abordagem como o de Tas ajuda a tratar conflitos ou a ampliá-los? De que outras formas esse conflitos poderia ser tratado? Como o humor e suas várias expressões podem ajudar a dar visibilidade e colocar em discussão temas polêmicos e/ou invisíveis?

Abraços

 

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Publicado em: 31/03/2011 12:43
Marcelo Tas analisa declarações de Bolsonaro: “Há muito pouco debate sobre isso”Por Ana Ignacio/Da Redação

Na última segunda-feira (28), o deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) gerou polêmica ao participar do quadro “O Povo Quer Saber” do programa “CQC”, da rede Bandeirantes. Ao responder perguntas feita pela população, o deputado expôs opiniões preconceituosas e racistas contra homossexualismo e negros, entre outros temas.
Agência Brasil
Jair Bolsonaro
Um dos trechos que gerou muita polêmica foi a resposta dado pelo deputado à pergunta feita pela cantora Preta Gil sobre o que faria “se seu filho se apaixonasse por uma mulher negra?”. A resposta que foi ao ar era: “Ô Preta, não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco. Meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambiente como, lamentavelmente, é o teu”.
O caso continua gerando polêmica na mídia – chegou até a alcançar o noticiário internacional. IMPRENSA conversou com o jornalista Marcelo Tas, âncora do programa. Ele fala sobre a polêmica, o posicionamento do “CQC” sobre o caso e a importância de debater as opiniões de Bolsonaro. “Temos que nos acostumar a temas controversos”, diz o jornalista. Acompanhe a conversa:
IMPRENSA – Como você avalia a repercussão que as declarações do deputado geraram?
Macelo Tas – A minha avaliação é que há muito pouco debate sobre isso. Talvez por isso a repercussão tenha sido tão grande. Eu diria que nós, no Brasil, não estamos acostumados a controvérsia, a temas contraditórios. Acho que o “CQC” cumpre esse papel apesar de se um programa de humor, trazemos temas que estão adormecidos, que a sociedade brasileira não se deixa falar abertamente sobre eles e vem a tona esse tsunami de gente, às vezes até se agredindo, uma tonalidade lamentável. Mas que acho necessário para a gente se acostumar mais com a controvérsia.
IMPRENSA – Quando ele foi escolhido para participar do caso, imaginou que fosse ocorrer uma repercussão como essa?
Tas – Não imaginei, honestamente não. Eu sou acusado por algumas pessoas de explorar o assunto, do assunto ser usado pra dar audiência pro programa. Se você reparar, essa matéria não foi sequer anunciada como uma atração, como a gente faz diversas vezes, anunciando que vai passar. Essa matéria não foi sequer anunciada porque não era nossa intenção vendê-la para chamar audiência. Eu tenho uma posição bastante madura sobre o assunto. Minha filha é homossexual. Esse tema pra mim é muito tranquilo, já amadurecido. Levo um susto quando vejo que as pessoas se chocam, mas se elas se chocam, é porque tem que debater ainda.
IMPRENSA – Por que o Bolsonaro? Como vocês selecionam as pessoas que vão responder às perguntas do “O povo quer saber”?
Tas – O Bolsonaro foi escolhido por causa das posições dele. Nossa intenção foi justamente essa, a gente coloca na cadeira pessoas que tem posições que possam provocar um questionamento popular, pessoas que têm posições passíveis de debate. Nossa intenção é questionar e estimular o debate.
IMPRENSA – Sabemos que no Brasil muita gente não lembra em quem votou e nem conhece as pessoas que foram eleitas. Todos sabem o que perguntar? Como funciona esse processo?
Tas – O cara que está perguntando não precisa conhecer o entrevistado. Às vezes tem turista que pergunta para artistas brasileiros. A gente fala para as pessoas o tema, contextualizamos, falamos das áreas em que a pessoa atua e etc. Em cima desses temas, as pessoas fazem as perguntas e gravamos muitas, muitas perguntas para selecionar depois. Procuramos também colocar gente que concorda e que discorda do entrevistado. A posição dele sobre homossexualismo é conhecida por muita gente, assim como a posição dele sobre outros assuntos. A Preta Gil, por exemplo, foi convidada a fazer uma pergunta e ela escolheu o que queria perguntar.
IMPRENSA – Muitas pessoas criticaram o “CQC” por ter dado espaço a uma pessoa que tem posições preconceituosas. O que acha dessas críticas?
Tas – Acho que aí está o equívoco absoluto das criticas. Não é o “CQC” que deu espaço. Esse cara tem 120 mil votos. É um representante legítimo de um pensamento. Não acho que a cassação do Bolsonaro, por exemplo, resolva alguma coisa. É claro que se ele feriu algum código de ética da Câmara etc., ele pode ser punido ou cassado, mas isso é um problema da Câmara. Não acredito que uma pessoa que representa uma visão retrógrada tenha que ser cassada. Se for assim, teríamos que cassar os eleitores também. Acho importante que ele esteja lá represando a visão retrógrada para debater essa visão. É assim que as coisas mudam, não cassando ou criticando por dar espaço a uma pessoa com visão retrógrada.
A gente dá espaço não porque concordamos com isso, damos espaço porque acredito que a sociedade brasileira tem que debater. É por isso também que entrevisto e dou espaço pro [Paulo] Maluf. Por que a gente vota em gente assim para nos representar? Quando o “CQC” põe o Bolsonaro no ar, está pondo milhares de pessoas que pensam como ele. Tanto que no meu blog tenho centenas de comentários sobre o caso e tem muita gente favorável a ele. Tem gente que tá falando em “Bolsonaro para presidente”. E discordo de algumas pessoas do movimento gay, que estão agindo com uma intolerância tão grande quanto a do Bolsonaro. Não adianta querer acabar com ele, riscá-lo do mapa ou mesmo da vida pública. Não é assim que a gente avança. A gente evolui lendo sobre os assunto, explicando os pontos de vista, debatendo.

http://portalimprensa.uol.com.br/portal/ultimas_noticias/2011/03/31/imprensa41270.shtml

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