“Cultura”, Teoria Cultural de A a Z: conceitos-chave para entender o mundo contemporâneo

Cultura

A “cultura não é facilmente definida, sobretudo porque pode ter diferentes significados em diferentes contextos. De qualquer forma, o conceito que está no centro dos estudos culturais, pode-se sugerir, é o conceito encontrado na antropologia cultural. Como tal, ele evita qualquer preocupação exclusiva com a “alta” cultura (ainda encontrada, por exemplo, nos escritos Arnold, Leavis e teorias de elite e sociedade de massa). Ele inclui o reconhecimento de que todos os seres humanos vivem em um mundo criados por eles mesmos, e onde encontram significado. A cultura é o complexo mundo cotidiano que todos encontramos e pelo qual todos nos movimentamos. A cultura começa no ponto em que os superam o que quer que seja dado em sua herança natural. O cultivo do mundo natural, na agricultura e horticultura, é então elemento fundamental de uma cultura. Dessa forma, os dois elementos mais importantes ou gerais da cultura podem ser a habilidade dos seres humanos para construir e a habilidade para usar a linguagem (compreendida mais amplamente, para englobar todas as formas de sistemas de signos).

O uso de Gillian Rose do mito judaico da torre de Babel é ilustrativo nesse contexto. Em Babel, os humanos tentavam alcançar o céu construindo uma torre. Deus não apenas destruiu a torre, mas, para evitar uma tentativa adicional, evitou a comunicação ao impor uma multiplicidade de línguas. Essa história é muitas vezes vista como uma alegoria da linguagem. Rose, de qualquer forma, leva a história adiante como uma alegoria de linguagem e de arquitetura. Ela comenta temas-chave dos estudos culturais, incluindo a comunidade, o conflito de diversas culturas, o poder, a lei, a moral e o conhecimento. Alguns desses temas podem ser destacados. O argumento de Rose é que Babel representa não apenas um projeto arquitetônico, mas também a construção de uma cidade. Cidades são um divisor de águas cultural, pois na cidade diversas culturas (costumes, crenças e valores) unem-se. Numa cidade, as pessoas ficam atentas, talvez pela primeira vez, ao fato de que têm cultura, pois sempre há alguém que discorde do que você sempre aceitou como certo. A nossa auto percepção como seres culturais baseia-se nesse confronto, e, desse modo, no exercício de poder (à medida que lutamos para sustentar nossos valores contra um ataque de outros). O ponto de Babel, e talvez de toda cultura humana, é que no âmbito arquitetônico da cidade-torre os humanos ganharam uma espécie de imortalidade. Enquanto o indivíduo pode morrer, as construções de sua geração viverão eternamente e se tornarão parte do futuro. As culturas permanecem ainda que os indivíduos que as construíram morram. Por conseguinte, pelo menos nossa compreensão de tempo é transformada, e nossa compreensão de história, criada. Ainda que esse “âmbito”, como Rose chama, inclua a perda de uma auto certeza ingênua. A unidade e a universalidade das antigas tribos judaicas isoladas e nômades são confrontadas e questionadas ao encontrarem uma pluralidade de outras culturas e suas afirmações sobre a universalidade. Paradoxalmente, no mesmo momento em que nos tornamos conscientes de nós mesmos como seres culturais, estamos habilitados (podemos fazer coisas novas e, como princípio, fazer qualquer coisa de que gostemos), mas não podemos mais sequer ter certeza sobre o que é a coisa certa a se fazer e, ao fazer qualquer coisa, entramos em conflito com outros.

Portanto os estudos culturais estão necessariamente preocupados com a artificialidade e a luta política para encontrar e defender o significado. [AE]

Fonte: EDGARD, Andrew; SEDGWICK, Peter. Teoria Cultural de A a Z: conceitos-chave para entender o mundo contemporâneo. São Paulo: Ed. Contexto, 2003, pp. 75-76

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