Sugestão de leitura: A norma oculta – língua e poder na sociedade brasileira

Pessoal, aí vai uma sugestão de leitura muito interessante e que se relaciona com temas de grupos e com os debates exaltados das aulas sobre o livro de língua portuguesa para educação de jovens e adultos e sobre o uso de palavrões na linguagem cotidiana:

‘A norma oculta’ aprofunda o estudo das relações entre língua e poder no Brasil e avança para a afirmação de que o preconceito lingüístico na sociedade brasileira é, na verdade, um entranhado preconceito social. Bagno lança um olhar inquiridor sobre a história da constituição das línguas para desvendar nossa realidade sociolingüística. Seu recurso à história se funde com a pesquisa sociolingüística e a crítica corajosa do rótulo de ‘erro’, aplicado sempre com inquisitorial rigor, mas segundo critérios bem relativos, por aqueles que se consideram a casta letrada, incumbida de defender a pureza estática da língua. Exemplo disso são as reações de expoentes da imprensa nacional ao modo de se expressar do primeiro operário nordestino eleito para a presidência da República.

Aproveito para colocar aqui uns poemas que são considerados parte da “alta cultura” literária e que se não fossem do jeito que são, não seriam julgados como bons… Tudo para relativizar certezas e formas de comunicação tão formais e aparentemente cultas, que podem ocultar grandes conversar sobre nada relevante, como costuma-se fazer com frequência na universidade.

Objeto de Amar

De tal ordem é e tão precioso
o que devo dizer-lhes
que não posso guardá-lo
sem que me oprima a sensação de um roubo:
cu é lindo!

Fazei o que puderdes com esta dádiva.
Quanto a mim dou graças
pelo que agora sei
e, mais que perdôo, eu amo.

(Adélia Prado)

—–

A bunda, que engraçada!

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica
Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.
A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.
A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.
Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.
A bunda é a bunda,
redunda.

(Carlos Drummond de Andrade)

A puta

Quero conhecer a puta.
A puta da cidade. A única.
A fornecedora.
Na rua de Baixo
Onde é proibido passar.
Onde o ar é vidro ardendo
E labaredas torram a língua
De quem disser: Eu quero
A puta
Quero a puta quero a puta.

Ela arreganha dentes largos
De longe. Na mata do cabelo
Se abre toda, chupante
Boca de mina amanteigada
Quente. A puta quente.

É preciso crescer esta noite inteira sem parar
De crescer e querer
A puta que não sabe
O gosto do desejo do menino
O gosto menino
Que nem o menino
Sabe, e quer saber, querendo a puta.

(Carlos Drummond de Andrade)

Queria por um poema meu aqui, cheio de palavrões para dentro da norma culta, criticar sua hipocrisia e sua indisposição para ouvir o outro, mesmo discordando. Mas fiquei com vergonha, então transcrevo uma crônica de um grande poeta e músico contemporâneo, que sabe usar palavras e palavrões em qualquer ocasião: Zeca Baleiro. 🙂 aqui ele fala de uma lei contra palavrão em estádios de futebol na Paraíba: será verdade?! Pouco importa. A crônica é ótima peça da cultura plural…

Palavrões e poesia
(Zeca Baleiro)

O palavrão é um recurso dadivoso da língua, um presente da natureza, tem efeito libertador, depurativo

A lei “Pimenta na Boca” entrou em vigor no início de março. Proíbe palavrões, atos violentos e gestos obscenos nos estádios da Paraíba. Preventiva, não há punições previstas por enquanto, mas, a depender da falta de decoro, a coisa pode virar caso de polícia.

Concordo que atos violentos e gestos obscenos devam ser punidos (e bem punidos), afinal não sou um bárbaro, embora vez ou outra pareça. Mas proibir o palavrão? E logo num estádio? Que p… é essa, minha gente? O palavrão é um recurso dadivoso da língua, um presente da natureza, tem efeito libertador, depurativo. Posso afirmar que alguns torcedores vão ao estádio especialmente para, naquela terra de ninguém, naquela arena dionisíaca, xingar e berrar e insultar sem amarras, sem medo da censura, sem pudor nem cerimônia.

Falo de cátedra, até porque, quando vou a estádios, gasto todo meu repertório laico em vitupérios e infâmias anônimas. Também já testemunhei velhinhas com ares de vovós mandando o juiz àquele lugar sem nome; crianças de 10 anos espinafrando o zagueiro por ter falhado no gol com vocabulário “requintado” para a pouca idade; casais maduros e empertigados caluniando a progenitora do bandeirinha e coisas tantas que até Deus duvida.

O palavrão é um patrimônio cultural brasileiro. E não só. Lembro de ter presenciado certa vez, para minha enorme surpresa, num vilarejo no interior de Portugal, duas velhas senhoras, personagens como que saídas de um conto medieval, numa prosa improvável, aqui reproduzida na íntegra (afinal jamais esqueci de tal acontecimento):
– Mas aquele fornicador do teu genro, hein? Achei
que tinha tomado jeito, ora pois!
– Qual o quê, caralho! Aquela porra não serve nem para morrer.
– Que caralho!
Ouso dizer, com a autoridade de um psicólogo de botequim, que o palavrão tem função terapêutica. Mas, claro, há que ter poesia também, se é que me entendem. E não estou falando isso para parecer politicamente correto (até porque jamais o seria), mas para preservar o lirismo mesmo que por vezes está lá, embutido num chulo palavrão.

A absurda lei “Pimenta na Boca” pode até emplacar, mas vai roubar um tanto da graça das torcidas e do calor das contendas. É, para as autoridades paraibanas, pimenta no c… do torcedor é mero refresco.
***
Não por acaso, lembro do imenso poeta José Paulo Paes. Paulista de Taquaritinga, nasceu em 1926 e morreu em 1998, aos 72 anos. Esteve próximo da poesia concreta no seu início e publicou vários livros, desde ensaios literários até poesia infantil. Uma de suas principais obras é a antologia “Poesia Erótica”, em que traduziu poetas que penetraram fundo (com o perdão da expressão!) na lírica erótica, desde os primórdios até a modernidade. Aqui reproduzo “Epigrama”, poema saído da pena do francês La Fontaine, aquele mesmo, autor das célebres fábulas que todo pai um dia por certo contou ao filho na hora de dormir.

Amar, foder: uma união
De prazeres que não separo
A volúpia e os desejos são
O que a alma possui de mais raro.
Caralho, cona e corações
Juntam-se em doces efusões
Que os crentes censuram, os loucos
Reflete nisto, oh minha amada:
Amar sem foder é bem pouco,
Foder sem amar não é nada.

Fonte: istoÉ Independente
http://www.istoe.com.br/colunas-e-blogs/coluna/60218_PALAVROES+E+POESIA

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Um pensamento sobre “Sugestão de leitura: A norma oculta – língua e poder na sociedade brasileira

  1. Hahahaha, muito bom!
    E sobre a lei: “Pimenta na Boca”, acho errado. Certas ocasiões pedem uma menor liberdade de se expressar, apesar da vontade ser completamente o oposto. No entanto, a maioria dos lugares e isso incluí os estádios não podem ter essas restrições, pois se o palavrão é “libertador” não seria nada saudável segurá-lo.

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