Exemplo do estilo narco-polo mexicano: consumo e apropriação cultural nos processos de identificação

Pessoal,
Como disse nas aulas, a reportagem abaixo exemplifica muito bem as formulações de Nestor Garcia Canclini e as considerações de Lucia Santaella sobre as culturas híbridas no contexto contemporâneo. Para esses autores, na cultura tudo é mistura, e o nosso tempo é o dos hibridismos e da convergência de linguagens, modificando incessantemente as identidades e as culturas das pessoas e dos grupos, relativizando e rompendo fronteiras entre visões culturais e identitárias.
Há vários grupos brasileiros e em todo o mundo que fazem práticas culturais de apropriação de significados originais, recriando-os e transformando-os e, portanto, não cabe mais a separação entre cultura de elite, cultura popular, cultura de massas, indústria cultural, com divisões claras entre emissores e receptores de conteúdos, produtores e espectadores. A área interdisciplinar ou anti-disciplinar dos Estudos Culturais apresenta teorias, métodos e objetos de estudo plurais que, desde a década de 1980, tem criticado teorias estruturalistas e clássicas das áreas tradicionais das Humanidades e das Artes. Novos conceitos, teorias e metodologias de pesquisa são utilizados, conforme os objetos de estudo e os interesses dos pesquisadores, decretando o fim da sucessão das escolas de pensamento à moda da ciência moderna e da racionalidade clássica, que infelizmente ainda informam o senso comum das pessoas.
Na universidade contemporânea, pode-se passar conhecendo ou desconhecendo esses estudos, que já estão em circulação no Brasil há pelo menos duas décadas. Pode-se ou não aprender a pensar de outras formas e a fazer suas próprias pesquisas. Pode-se ou não tentar superar o modelo de ensino-aprendizagem tradicionais que força encaixar e simplificar a realidade no que aparece em teorias e metodologias fechadas, com “pré-conceitos”, com os quais facilmente formulamos hipóteses que já contém respostas. Pode-se ou não repetir a tradição ou conhecê-la e tentar reinventá-la…

Os objetivos daqueles que fazem pesquisas e fabricam novas culturas e identidades com pluralidade de teorias, conceitos, métodos e objetos é mapear infinita, provisória e constantemente a complexidade do real, pondo em suspeito seus próprios juízos de valor para, mais do que julgar o outro por suas definições, tentar compreender porque o outro é diferente de si mesmo e quase nunca falará e fará apenas o que consideramos certo para nós mesmos.

A democracia é a base destas práticas e as consequências delas são a presença (e não a negação) de conflitos sociais, com pau no autoritarismo, nas simplificações superficiais, na teoria e no método único que subsidiam visões e políticas de Estado que ignoram as diferenças e reafirmam desigualdades históricas. O que conta, na visão dos pesquisadores contemporâneos, é reconhecer a maior variedade possível de práticas culturais, sejam estas de trabalho, familiares, religiosas, políticas, artísticas, institucionais ou não, pluralizando as experiências compartilhadas, e pautando convívios em termos de multiplicidade de posições, de linguagens e de formas de comunicação.

Fim do pensamento único e da certeza absoluta para uns; acirramento dos conflitos, denúncia e defesa das hierarquias e das visões tracidionais para outros; indiferença para tantos outros mais, enfim, não homogeneidades. Ninguém pensa e pensará igual (ainda bem!) e esse é o nosso tempo imediato plural, que cada um viverá como puder e como quiser, tentando sobreviver sempre construindo paradoxalmente, de forma sofisticada e precária, culturas e identidades que logo serão postas em xeque e em condição de novas construções.

Por isso, é instigante estudar, como Canclini e Santaella, como grupos populares ironizam, zombam, por vezes ridicularizam e criticam, símbolos e signos de poder, riqueza e diferenciação, transformando-os em consumo pupular e barato que, com uma “simples” prática cultural, pode retirar todo poder simbólico original, construindo outras significações, independente da vontade e da intenção de quem fez e quer manter o sentido original como o único e verdadeiro.

Popular entre traficantes, camiseta ‘narco-polo’ vira moda no México

Ao longo de 3 meses, 7 traficantes foram presos vestindo mesmo modelo.
Falsificação de grife americana se tornou popular em bairros de baixa renda.

Um estilo de camiseta popular entre narcotraficantes no México está virando uma moda à parte no país. É o que está sendo chamado de “narco-polo”, traduzido em uma camiseta polo, possivelmente falsificada, estampando a marca da grife americana Ralph Lauren.

Nos últimos três meses, houve o registro de pelo menos sete grandes traficantes de drogas no país usando o modelo de camisa no momento em que foram presos. Camisetas falsificadas do mesmo modelo se tornaram populares no comércio de rua em bairros de baixa renda do México, o que acabou originando o termo “narco-polo” para se referir ao estilo.

Estilo Narco Fashion Mexicano

Os acusados de narcotráfico Marcos Carmona Hernandez (“El Cabrito”), Edgar Valdez Villarreal (“Barbie”) e Jose Jorge Balderas Garza (“J.J.”), presos em 2010 e 2011 no México, todos usando o mesmo modelo de camiseta que se tornou popular no comércio de rua em cidades mexicanas como Cuernavaca, à direita. (Foto: AP)

Fonte: http://g1.globo.com/planeta-bizarro/noticia/2011/06/popular-entre-traficantes-camiseta-narco-polo-vira-moda-no-mexico.html

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