Leituras da semana: Fredric Jameson e Nestor Garcia Canclini

A turma das 8 às 10 escolheu Fredric Jameson, e a das 10 às 12 ficou com Nestor Garcia Canclini, disponíveis na Biblioteca Básica.

Seguem coisas interessantes a respeito:

Fredric Jameson fala da “estética da singularidade” na pós-modernidade

O crítico literário e professor de Literatura Comparada da Duke University Fredric Jameson abriu, na noite de 25 de maio, na Sala São Paulo, o ciclo de conferências “Fronteiras do pensamento”, que conta com o apoio da TV Cultura

Fernanda Gehrke e Jaqueline Nikiforos

O crítico literário e professor de Literatura Comparada da Duke University Fredric Jameson abriu, na noite de 25 de maio, na Sala São Paulo, o ciclo de conferências “Fronteiras do pensamento”, que conta com o apoio da TV Cultura. A arte na pós-modernidade foi o principal tema da palestra “A estética da singularidade”, cujas primeiras palavras foram reveladoras do método do teórico marxista: “Pensar é pensar fora das caixas”.

De acordo com Jameson, a transição do modernismo para o pós-modernismo trouxe a prevalência do espaço sobre o tema na arte. Com isso, as concepções de arte e obra-de-arte mudaram completamente. “E essas mudanças vão muito além da reprodutibilidade técnica de Benjamin, culminando no desaparecimento de produtos artísticos antigos, como pinturas a óleo e estátuas”, afirma, referindo-se a artigo de Walter Benjamin (A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica).

As instalações são citadas por Jameson como signo da pós-modernidade na arte. Nelas, o espaço não pode ter um estilo em si, no sentido antigo. “A obra é a ideia, não existe mais um estilo próprio, o que torna a instalação diferente do sistema clássico antigo, das chamadas belas artes”, explica.

Nem mesmo o ícone da pós-modernidade, Andy Warhol, escapou às observações de Jameson. “O que esse tipo de arte busca é uma estratégia de promoção, essas obras marcam a inovação, mas não têm um estilo em si e sim um estilo de produção”, define.

Outra forma de expressão artística abordada por Jameson é a fotografia. “No pós-moderno, as artes se mesclam e se misturam e essa é uma simbiose nova e inesperada. A fotografia, por exemplo, que quando surgiu era o primo pobre da pintura, hoje ocupa posição relevante no mercado de arte”, aponta, definindo a fotografia como abstração visual, tátil e pictórica. “A busca pela densidade única não é mais uma ambição viável”, arremata.

Para Jameson, as artes não têm mais pujança individual e as vanguardas coletivas foram substituídas pela figura individual do curador, gerando o que ele chama de constelações flutuantes da arte. “A efemeridade das instalações e exposições cria essa nova forma de arte que não é um objeto, é um evento”, descreve. “Hoje, o computador e a internet substituíram o consumo artístico e cultural antigo, agora possuímos a forma da comunicação, além do seu conteúdo”, diz.

Para exemplificar sua teoria, Jameson citou alguns artistas, entre eles o autor polonês Stanislaw Lem, que publicou, na imprensa, críticas de livros ainda não publicados. “Ele provou que qualquer um de nós poderia consumir a idéia de um livro com tanta satisfação quanto um livro em si”, conta. Outra experiência citada é a culinária molecular do restaurante El Bulli. “Você consome a imagem junto com a ideia, as invenções e receitas são fotografadas, as novas texturas e cores da comida criada em laboratório são uma nova forma de arte”, descreve.

Primazia do espaço

Para Jameson “a pós-modernidade inaugura o deslocamento da experiência do tempo para o espaço”. Segundo ele, “com a hegemonia do capital financeiro, espaço abole o tempo”. A partir dessa constatação, surge o desafio de pensar como é essa “nova temporalidade em função do espaço”.

Segundo o crítico, a virada do modernismo para o pós-modernismo se dá a partir do momento em que a modernização do espaço, que no período anterior constituiu um processo incompleto, torna-se completa. Para ilustrar esse movimento, Jameson usa como exemplo o “banimento do espaço rural”, cuja grande marca é a presença do grande empresário do agrobusiness em substituição à tradicional imagem do fazendeiro. Em tal conjuntura, marcada ainda pelo advento da globalização, alastra-se a comodificação da terra e dissolução dos últimos remanescentes do feudalismo.

Jameson enxerga essa pós-modernidade como uma “era de padronização”, em que o desenvolvimento irregular é global e cuja dinâmica abrange inclusive a cultura. “A passagem do tempo é virtualmente eliminada. O ‘antes’ e ‘depois’ tendem a desaparecer. Há o desaparecimento do roteiro”, aponta Jameson. Segundo ele, a memória segue esses mesmos passos. “A memória histórica de hoje é a pior de todos os tempos”, constata. Com a primazia do espaço, a subjetividade na pós-modernidade se reduz ao presente. “Resta o corpo resistindo à exaustão da cultura burguesa”.

O pensador salienta ainda que, nesse contexto, as instalações são um sintoma de um sentido de temporalidade que segue a “lógica do efêmero”, algo que é emblema da arte pós-moderna. “Com essa onipresença do presente, não podemos mais imaginar o futuro”, conclui.

Fonte:

http://cmais.com.br/fredric-jameson-fala-da-estetica-da-singularidade-na-pos-modernidade

 

Entrevista: Nestor Garcia Canclini

Cultura sem fronteiras
Reynaldo Damazio
participou Diana Araujo Pereira

CADERNO DE LEITURA: Em uma recente entrevista (2005) à Revista de Occidente, de Madrid, você propõe o termo interculturalidade para definir as relações entre imaginários e identidades na América Latina. Em que ele se diferencia do conceito de hibridação?
NÉSTOR GARCÍA CANCLINI: Hibridação designa um conjunto de processos de intercâmbios e mesclas de culturas, ou entre formas culturais. Pode incluir a mestiçagem – racial ou étnica –, o sincretismo religioso e outras formas de fusão de culturas, como a fusão musical. Historicamente, sempre ocorreu hibridação, na medida em que há contato entre culturas e uma toma emprestados elementos das outras. No mundo contemporâneo, o incremento de viagens, de relações entre as culturas e as indústrias audiovisuais, as migrações e outros processos fomentam o maior acesso de certas culturas aos repertórios de outras. Em muitos casos essa relação não é só de enriquecimento, ou de apropriação pacífica, mas conflitiva. Fala-se muito, nos último anos, de “choque” entre as culturas. Em todo esse contexto vemos que os processos de hibridação são uma das modalidades de interculturalidade, mas a noção de interculturalidade é mais abrangente, inclui outras relações entre as culturas, intercâmbios às vezes conflitivos.

CL: Como diferenciar o consumo de cultura, no mundo globalizado, dos interesses de mercado? Há como distinguir o objeto artístico da noção de marca, com suas características mercadológicas estritas?
CANCLINI: O consumo de qualquer produto, e também o de bens culturais, é o momento final do ciclo econômico, que inclui a produção e a circulação. No campo da cultura falamos de consumo, mas também de apropriação, para nos referirmos ao caráter ativo e a possíveis reapropriações e modificações que o consumidor pode fazer ao receber um programa de televisão, ler um romance, ou relacionar-se com uma mensagem na Internet. Nesse ciclo, sabemos que a maior parte dos bens culturais funciona como mercadoria, portanto são objetos de operações de venda, compra e trocas mercantis. O consumo costuma referir- se às necessidades dos consumidores, mas igualmente aos desejos, outros tipos de disposições dos sujeitos que não são simplesmente necessidades. Quando nos referimos aos objetos artísticos, falamos de um tipo de bem, ou de mensagem, que tem uma longa história de definições ou de redefinições. Em certa etapa da modernidade, consideravase arte o tipo de experiência, ou de objetos, em que a forma prevalecia sobre a função. Na atualidade, há muitas outras, que reafirmam o prazer, o caráter transcendente da experiência, a intensidade do que sentimos ao nos relacionarmos com o ideal artístico. A noção de marca pode se opor, num certo sentido, a esse tipo de experiência singular, porque tende a agrupar os objetos artísticos ou literários em séries, onde se perde a especificidade de cada um. Por exemplo, no mercado literário costuma-se agrupar os romances em tendências, como o realismo mágico, ou romances históricos, mas entre cada um deles há diferenças que têm a ver com os autores e com a especificidade de cada busca artística.

Caderno de Leitura: Em que medida o consumismo desenfreado de bens culturais ainda pode ser investido de um conteúdo político e antropológico, como o de cidadania, tema de seu livro Consumidores e cidadãos?
CANCLINI: Não gosto da noção de consumismo, porque costuma ser utilizada para desqualificar a proliferação dos bens de consumo e os comportamentos que tratam de incrementar o consumo. Em princípio o consumo não é mal, o mal é não poder consumir. Na sociedade contemporânea, em que se implementou a universalidade de bens, resultam insatisfatórias as opções que em outras épocas tiveram certo êxito, como a do consumo como um lugar de simples satisfação de necessidades utilitárias. Em quase todo tipo de consumo estão claramente presentes um conjunto de dimensões estéticas, de sentidos sociais, antropológicos, que às vezes são ocultados pela publicidade e pela redução da diversidade de significados a uma função única. Quanto à cidadania, efetivamente, muitas vezes ela se opõe ao consumo, como se ser cidadão não fosse uma atividade mais nobre que a satisfação proporcionada pelo consumo. Ambas atividades, consumir e ser cidadão, são indispensáveis para a sociedade, sobretudo as democráticas. Se não tivermos consumo, não se completaria o ciclo de produção e não poderíamos sobreviver. Vejo a função dos cidadãos nesses processos de consumo como um conjunto de atos de responsabilidade social através dos quais tratamos de participar dos desenhos da produção e da circulação do consumo.

Caderno de Leitura: Você afirma que o sujeito latinoamericano deve aprender a entrar e a sair da modernidade. Será que conseguimos avançar nesta mobilidade identitária tão fundamentalmente temporal?
CANCLINI: A formação da América Latina e das nações modernas, em nosso continente, está ligada ao caráter mundial da modernidade. O que vimos nos anos 80 e 90 do século passado é que a modernidade não é um processo linear, mas um estágio de desenvolvimento humano no qual se ingressa de uma vez para sempre, excluindo outras formas de desenvolvimento. Talvez na América Latina seja mais evidente que em outros continentes que a modernidade se instalou com seu projeto de emancipação humana, especialmente na apropriação da natureza, no desenvolvimento científico, na educação generalizada, coexistindo com formas tradicionais de origem étnica e, em muitos casos, derivadas da pobreza e do lento desenvolvimento da sociedade. Com o tempo, vamos concebendo a modernidade não como um estágio homogêneo e estático, mas como um desenvolvimento que inclui diversas modalidades de crescimento econômico, de pluralidade cultural e com ampla diversidade. Em meu livro Diferentes, desiguais e desconectados (Editora da UFRJ) avancei na discussão sobre a modernidade, expondo que as diferenças na modernidade existem às vezes como desenvolvimentos culturais distintos, outras vezes como resultado da desigualdade das classes, entre as nações, entre os grupos sociais, e mais recentemente em relação com as possibilidades de conexão e desconexão das comunicações, ou das redes de informação, entretenimento e participação social. A mobilidade identitária tem muito a ver com essas diferenças, desigualdades, conexões e desconexões, com uma combinação dessas modalidades.

Caderno de Leitura: Em palestra no Instituto Cervantes, de São Paulo, você disse que a criação artística e literária é um local de resistência. Qual o teor dessa resistência e contra o quê a literatura e a arte podem resistir?
CANCLINI: Naquele encontro, falamos das tendências dos mercados culturais a reduzir a complexidade e a diversidade sociocultural às modulações, ou modelos, mais exitosos de vendas e de clientelas. Este é um problema em todos os campos da produção. Em arte e literatura este empobrecimento dos significados e das referências é ainda mais grave. Muitos artistas e escritores contemporâneos aceitam estas exigências dos mercados e das editoras, ou dos grandes produtores de bens de entretenimento, com o propósito de vender mais e ter mais público. Mas também encontramos artistas e escritores que se interessam mais por uma experiência criativa, por comunicá-la e fazer partícipes dela públicos diversos. Isso tem a ver com a polissemia dos bens estéticos e com a oportunidade que as obras literárias oferecem de conectar-se de modo diferente com leitores diversos. Neste sentido, a criação artística e literária seria uma resistência em relação àquelas tendências à homogeneização e ao achatamento das experiências sociais e culturais.

Caderno de Leitura: Ao analisar questões complexas como multiculturalismo, globalização e construção de identidades, você utiliza muito o conceito de fronteiras. Poderia explicar em que sentido esse termo nos ajudaria a compreender a exclusão da grande maioria de cidadãos, nos países em desenvolvimento, dos projetos neoliberais aplicados em escala planetária? Existem situações paradoxais, em que o desemprego acaba gerando novas formas de trabalho.
CANCLINI: Historicamente, as fronteiras são identificadas com os territórios étnicos ou nacionais, tomando forma de barreiras físicas, aduanas, controles de trânsito das pessoas ou produtos. No século XX, tudo isso se tornou muito mais complexo, pelo aumento da circulação de pessoas, das migrações, das viagens de turismo, pelo crescimento da circulação de produtos, que passam de uma nação a outra, e por vezes nem se sabe onde são produzidos, ou são produzidos em vários lugares e se montam em outro. Também as mensagens circulam mais livremente desde que existem satélites, computadores, Internet, e podemos passar com facilidade mensagens de uma nação a outra, de uma língua a muitas outras, tornando inúteis muitas fronteiras. O que chamamos de globalização, um conjunto complexo de processos de interdependência que supera o econômico, o tecnológico e o cultural, cria muito mais que um multiculturalismo, porque a multiculturalidade tendia a designar a coexistência de grupos diferentes em uma mesma sociedade, às vezes numa mesma cidade. Em escala internacional, vemos nas guerras atuais que a multiculturalidade não é respeitada pela invasão de uma nação por outra, que em parte implicam na derrubada de fronteiras ou na construção de outras. Como as que existem entre México e Estados Unidos, entre Israel e Palestina etc. Essa proliferação de fronteiras nas sociedades contemporâneas nem sempre é resultado de uma atitude defensiva e hostil ao estrangeiro. Implica às vezes na dificuldade de assumir a interculturalidade. Quer dizer, aceitar que a sociedade em que vivemos se modifica pela presença de outros modos de vida, outras religiões, outras línguas.

 

Fonte:

http://www.edusp.com.br/cadleitura/cadleitura_0802_8.asp

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