Transamerica e Priscilla… filmes sobre pós-identidades ou transidentidades

Trailer legendado

Título original: (Transamerica), Lançamento: 2005 (EUA), Direção: Duncan Tucker

Atores: Felicity Huffman, Kevin Zegers, Fionnula Flanagan, Elisabeth Peña. Duração: 103 min

Gênero: Drama

Bree Osbourne (Felicity Huffman) é uma orgulhosa transexual de Los Angeles, que economiza o quanto pode para fazer a última operação que a transformará definitivamente numa mulher. Um dia ela recebe um telefonema de Toby (Kevin Zegers), um jovem preso em Nova York que está à procura do pai. Bree se dá conta de que ele deve ter sido fruto de um relacionamento seu, quando ainda era homem. Ela, então, vai até Nova York e o tira da prisão. Toby, a princípio, imagina que ela seja uma missionária cristã tentando convertê-lo. Bree não desfaz o mal-entendido, mas o convence a acompanhá-la de volta para Los Angeles.

Filme na íntegra no youtube (dublado)

Título no Brasil:  Priscilla – A Rainha do Deserto, Título Original:  The Adventures of Priscilla, Queen of the Desert
País de Origem:  Austrália, Gênero:  Comédia, Tempo de Duração: 103 minutos, Ano de Lançamento:  1994

Um dos filmes de maior sucesso em Hollywood, que inspirou até um musical, é o irreverente e apaixonante ‘Priscilla, a Rainha do deserto”, um filme australiano de 1994, com um super elenco e vencedor do premio de melhor figurino do Oscar.
O filme Priscilla, conta a trajetória de 3 Drags Queens, Tick, Felicia e Bernadette, que cruzam o deserto australiano rumo a um trabalho, e nesse período, acabam descobrindo segredos uma das outras, aprendendo a conviver com suas diferenças, e tratando do preconceito de uma forma irreverente.

Estrelado por Terence Stamp, Hugo Weaving, Guy Pearce e Bill Hunter, Priscilla a Rainha do Deserto, é uma comédia emocionante, com os números de drags queen regados com muita musica, como é o caso do clássico I Will Survive. Além de tudo isso, a viagem a bordo do trailer “Priscilla” é o ponto mais emocionante e engraçado do longa.

Segue trecho do artigo de Guacira Lopes Louro, “Cinema e sexualidade”, Revista Educação & Realidade, 2008 (pp.92-94). Disponível em:

http://www.google.com/url?sa=t&source=web&cd=2&ved=0CB0QFjAB&url=http%3A%2F%2Fseer.ufrgs.br%2Feducacaoerealidade%2Farticle%2Fdownload%2F6688%2F4001&rct=j&q=transamerica%20filme%20viajantes%20p%C3%B3s-modernos%20guacira&ei=z9QkToqKCum30AHhocHHCg&usg=AFQjCNESmF5ytohzsSEfocJCUhgximil1w&sig2=4cteIKeRawNdt64Ral43tA&cad=rja

Travessias
A idéia de travessia entre os territórios dos gêneros e das sexualidades incita curiosidade, medo, inquietude, aversão, fascínio… Muitos filmes já lidaram com esta temática. Comédias, em especial, têm usado o travestimento de homens ou de mulheres para criar situações insólitas e engraçadas. O riso revela-se fácil,
especialmente, quando são enfatizadas dificuldades ou trapalhadas de alguém que se esforça por realizar uma performance de gênero oposta à sua “natureza”.
Filmes de grande sucesso de bilheteria como Quanto Mais Quente Melhor (Some Like it Hot, 1959), Vitor ou Vitória (Victor/Victoria, 1982), Tootsie (Tootsie, 1982), Uma Babá Quase Perfeita (Mrs. Doubtfire, 1993) são exemplos disso. A platéia, em tais casos, é colocada na posição de cúmplice do personagem e “sabe” que ele ou ela não é o que está fingindo ser; em outras palavras, a platéia “sabe” que o personagem não transgrediu ou não atravessou “pra valer” as fronteiras de gênero e, ao final, irá retornar à “normalidade”. Há, portanto, um
caráter provisório nesse (suposto) atravessamento e, provavelmente por isso, a situação não parece ser, efetivamente, subversiva.
Alguns filmes tratam de outras formas a questão. Em Traídos pelo Desejo (The Crying Game, 1992), por exemplo, o enfoque é dramático. Aqui, um militante do IRA percebe-se apaixonado pela namorada de um soldado que havia sido morto sob sua responsabilidade. A visão de um pênis no corpo que, de resto,
traz as marcas da mulher desejada provoca no protagonista choque e repúdio. A cena é inusitada e tensa. A platéia não é “avisada” e, junto com ele, é tomada de surpresa. O nu frontal da personagem transexual provoca e perturba.
Talvez perturbe especialmente porque ela se assume tal como é: “Não posso deixar de ser o que sou” (“I can ́t help what I am”), declara Dill (Jaye Davidson). Seu “estranho” corpo parece um obstáculo para o amor do militante Fergus (Stephen Rea) ou, pelo menos, para a expressão do amor por que Dill anseia. A impossibilidade de definir esse corpo em um dos dois gêneros torna-o ininteligível. Dill habita uma espécie de entre-lugar.
As personagens centrais de Priscilla, a Rainha do Deserto (The Adventures of Priscilla, Queen of the Desert, 1994) vivem, também, nesse espaço de fronteira, assumindo riscos e prazeres de desafiar as normas sociais. Em vez do drama, este road-movie (filme de estrada) narra a aventura de três drag queens numa longa viagem de ônibus através da Austrália. Suas figuras exuberantes, roupas bizarras, maquiagem exagerada, acessórios, sapatos e perucas extravagantes parodiam a feminilidade. Em suas performances, aproximam-se e, simultaneamente, subvertem o gênero. Expõem, espetacularmente, seu caráter construído. Como
outros road-movies, Priscilla também faz da viagem o eixo da narrativa. A estrada nunca é meramente cenário, e sim integra a trama. Associam-se a ela noções de passagem, trânsito, deslocamento, mudança. São viagens sempre pontuadas por obstáculos, provas, encontros, transtornos que, conseqüentemente, devem
transformar ou afetar os/as viajantes. Nesse caso, ao longo do trajeto, as três drag queens cruzam com outros personagens, sacodem pequenos vilarejos, perturbam ingênuos nativos, sofrem agressões, ganham amigos, cantam, dançam e seduzem. É possível pensar que perambulam não apenas através do deserto
australiano, mas também pelos territórios dos gêneros, ocupando um lugar usualmente inabitável, confundindo e tumultuando. Como viajantes pós-modernos, encarnam a transitoriedade; como drags, são propositalmente ambíguas e excessivas em seus gestos e em sua sexualidade (Louro, 2004).
Outro road-movie, Transamérica (Transamerica, 2005), também permite pensar o trânsito nos territórios dos gêneros e das sexualidades. Em tal filme, a personagem central é uma transexual que, às vésperas da cirurgia que irá completar sua mudança de sexo, descobre que tem um filho adolescente, resultado da única relação heterossexual que tivera nos tempos de faculdade, quando ainda era homem. Bree (Felicity Huffman), ansiosa por livrar-se do pênis, precisa lidar com o passado para conseguir a autorização de sua terapeuta e efetivar a
tão desejada cirurgia. Encontra, então, o filho Toby (Kevin Zegers), um garoto “problemático”, encrencado por uso de drogas e prostituição, que sonha conhecer o pai. Sem revelar sua identidade, Bree se lança junto com o garoto numa viagem através dos Estados Unidos, de Nova York a Los Angeles. Ambos seguem em
busca de seus sonhos e experimentam, durante o percurso, situações e emoções inesperadas, confrontam-se com seus passados e com eventuais futuros, descobrem-se, separam-se e reencontram-se.
Um dos principais eixos do filme é, precisamente, o intenso desejo de Bree de se tornar uma “verdadeira” mulher, conforme sua representação ideal do feminino. Para dar conta de cruzar a fronteira de gênero, Bree se constrói como uma mulher conservadora e recatada. Seus gestos, roupas, comportamento e idéias sugerem a feminilidade “clássica” dos anos 1950. Trajes cor-de-rosa bem-comportados, delicadeza e recato são suas marcas. Uma cena exemplar é seu encontro à noite com o caubói índio que dá uma carona para ela e Toby.
O homem toca violão e canta para Bree, que, enlevada, ouve atentamente e movimenta com suavidade a cabeça para demonstrar apreciação. Todo o seu corpo expressa sua imersão no território feminino – Bree é praticamente um estereótipo de mulher! Como alguém que se encontra em terra estrangeira, como
se fosse uma espécie de forasteiro ou exilado que teme ser expulso de um território que não é o seu, Bree segue à risca as normas do “novo” lugar. Sua “travessia” é cercada de minuciosos cuidados. Para ser legitimada como mulher, entende que precisa encontrar uma voz “feminina”, controlar movimentos e gestos acentuar a docilidade e aceitar a posição secundária diante do homem.
Quando, junto com Toby, a platéia vê Bree urinando, na estrada, seu “estranho” corpo fica exposto: o pênis se mostra incoerente com a figura feminina que ela reitera continuamente. Um corpo queer10, considerando a ambigüidade que tais marcas sugerem. Contudo, afora essa estranheza, Bree mostra-se muito pouco (ou nada) queer. Ela não tem qualquer disposição para a ambigüidade e para o estranho. Ela não se recusa à normatividade e à integração. Muito pelo contrário, empenha-se, fortemente, para se adaptar e se ajustar ao território feminino. Se é possível associar os sujeitos queer à figura do nômade, ou seja, à figura
daqueles que se caracterizam “pela renúncia e desconstrução de qualquer senso de identidade fixa”, como diz Rose Braidotti (2002), então Bree não é queer. Ela aspira a uma identidade estável. Ela pretende atravessar, efetivamente, a fronteira dos gêneros; quer adotar o novo território e ser por ele adotada. Sua maior ambição é ser tomada por uma mulher “autêntica”. “Eu não sou uma travesti, eu sou uma transexual”, proclama,
rejeitando o traje extravagante e exagerado que sua irmã lhe sugere em determinado momento. Bree deseja alcançar toda a legitimidade possível em sua travessia. Não quer, de modo algum, ser considerada “esquisita”; não quer ficar errando à toa entre os territórios masculino e feminino e sim estabilizar-se, tornar-se uma mulher “normal” e “respeitável”. E ela consegue, afinal, seu intento, bem como Toby, que “descobre” seu
pai/mãe e, após o choque, acaba indo para Hollywood para realizar o sonho de ser artista de cinema pornô. Na última cena, o filme mostra o reencontro dos dois. Gestos cautelosos, frases interrompidas, pequenas concessões podem ser vistos como indícios de que os personagens irão se entender e se aceitar mutuamente, em suas “novas” assumidas identidades. Ou não será assim? A história permanece aberta. Como acontece
em muitos filmes contemporâneos, em vez do happy end ou do final conclusivo, a platéia se vê diante de interrogações e possibilidades.
O “final” deste artigo talvez deva ser semelhante. Antes de construir um argumento decisivo ou buscar algum tipo de “arremate” para estas notas sobre cinema e sexualidade, parece mais promissor assumir a impossibilidade de concluir. Na contemporaneidade, o cinema, como tantas outras instâncias, pluraliza suas
representações sobre a sexualidade e os gêneros. Por toda parte (e também nos filmes) proliferam possibilidades de sujeitos, de práticas, de arranjos e, como seria de se esperar, proliferam questões.

Guacira escreveu um artigo somente sobre o filme Transmerica que se chama Viajantes Pós-Modernos e foi publicado num livro organizado por professores/pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais. Seguem as referências:

LOURO, Guacira Lopes. “Viajantes Pós-Modernos II”. In: MOITA LOPES, Luiz Paulo da. & BASTOS, Lilian Cabral (Orgs.) Para além da identidade: fluxos, movimentos e trânsitos. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2010. p.p 203-214.

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