Agosto 2015: auto-avaliação

Atividades de Educação a Distância de 4/8 a 13/8

Elaboração da auto-avaliação e entrega pelo Tidia até dia 16 de agosto! Qualquer dúvida ou debate, somente pela internet ou em atendimento agendado na UFABC.

Roteiro para Auto-Avaliação:

A Auto-avaliação consiste em uma análise pessoal de sua participação na disciplina. Nela, você constrói uma reflexão crítica sobre seu desempenho, avaliando o que aprendeu e o que precisa aprender sobre as temáticas apresentadas. Seguem as instruções e sugestão de roteiro para a auto-avaliação, que também podem ajudar a ver o que está faltando na sua pesquisa e nas práticas do seu grupo para fazer um encerramento.

Os instrumentos e instruções sobre auto-avaliação da disciplina foram criados com o objetivo de responsabilizar cada um por seu próprio processo de aprendizagem e realizar uma auto-avaliação diagnóstica e processual. Isso significa que eles pretendem que cada estudante possa, com sinceridade e responsabilidade, avaliar sua própria trajetória, considerando:

1) quais atividades efetivamente fez;

2) quais noções, conceitos, conteúdos estudou;

3) quais saberes/conhecimentos conseguiu construir e quais são aqueles que gostaria de construir acerca das temáticas estudadas.

Portanto, nossa ideia de saberes/conhecimentos abarca tanto a capacidade de se comprometer com as atividades propostas (item 1); como aqueles referentes ao conteúdo da disciplina, disponíveis em blog/site, biblioteca básica e auxiliar do mesmo (item 2) e em textos/autores comentados nas aulas; ou ainda os relacionados a outros saberes ligados à capacidade de interagir em grupos (item 3).

Para tanto, cada estudante poderá considerar para se auto-avaliar:

1) a realização das seguintes atividades que eventualmente compõem o processo de trabalho na disciplina: – leituras dos textos indicados para debate nas aulas (que textos, que autores; que relações entre estes e o que foi pesquisado individualmente e em grupo) ou outros textos que tenham interesse; – participação nas aulas (veio, ficou, ouviu, debateu, não apareceu, delegou sua participação a outro, quando, por que, o que isso tem a ver ou não com seu processo de trabalho); – realização de pesquisa com produção e/ou seleção e escolha de documentos de vários tipos organizados em forma de blog/site (que documentos/fontes escritas, orais, audiovisuais, foram levantados, com lista e qual é a contribuição individual para o balanço final do que foi reunido pelo grupo); – análise crítica de documentos/fontes pesquisados, que pode compreender: escrita de legendas para imagens e outros documentos; escrita de textos explicativos; organização de roteiros de apresentação do tema com documentos selecionados da pesquisa; apresentação dos resultados da pesquisa analisados e criticados sob forma de exposição escrita ou audiovisual em blog/site ou em artigo; comentários e debates; – ideias de projetos e práticas propostas e/ou desenvolvidas, seus roteiros de ação, registros documentais e análises/balanços do que foi feito individualmente e em grupo; – auto-avaliação (texto escrito sobre sua trajetória individual na disciplina, considerando todos os três itens elencados aqui).

2) o conhecimento de noções, conceitos e conteúdos referentes à disciplina tratados pela bibliografia, pelas aulas ou por outras fontes escolhidas: – visão panorâmica de perspectivas teóricas e metodológicas variadas e estudo inicial de noções e construções conceituais (quais achou interessantes, por que, como pode ser útil na sua pesquisa); – questionamento do senso comum (“achismos”, opiniões sem embasamento teórico-metodológico) e relativização da noção de verdade/linguagem única (ou seja, crítica de visão/opinião de que existe uma que é “a certa” e é suficiente para dar conta da discussão), com apresentação da multiplicidade de representações da realidade passada e presente sobre os temas trabalhados na disciplina, com conhecimento de várias perspectivas teórico-metodológicas com multiplicidade de abordagens possíveis de serem trabalhadas na temática escolhida; – presença das subjetividades dos estudantes e dos sujeitos das temáticas pesquisadas na construção do trabalho de pesquisa e da sua apresentação em blog e/ou práticas desenvolvidas; – desenvolvimento de práticas de pesquisa e de produção de documentos sobre a temática escolhida com conceitos/metodologias específicas para análise de cada tipo; – conhecimento interdisciplinar do debate sobre identidade e cultura e da temática de pesquisa escolhida; – elaboração de um balanço do que foi realizado, considerando a ideia inicial e as transformações no planejamento para o desenvolvimento do que foi proposto; – papel do pesquisador/estudante como construtor/criador/organizador de conhecimentos que possibilitem o reconhecimento, o respeito e o aprendizado em torno de diferenças culturais e identitárias como garantia de cidadania, democracia, valorização das diversidades como reflexão e prática crítica; – eventual repercussão do que foi produzido por você a partir da sua pesquisa (quanto, como, por que, quem viu/comentou/aproveitou além de você mesmo, se foi possível detectar, se isso foi importante para o desenvolvimento do seu trabalho).

3) o desenvolvimento de saberes e habilidades humanas, considerados no processo de auto-avaliação quanto à vivência em grupos: – responsabilidade individual quanto às atividades individuais e coletivas da disciplina; – organização e participação em estudos, pesquisas e criações individuais e em grupo (se alguém contribuiu para seu trabalho, de que forma, como, por que…); – respeito/tolerância/aprendizado com as opiniões diferentes das próprias e com as atividades/pesquisas dos outros; – capacidade de elaborar problematizações e de desconstruir verdades únicas, preconceitos e juízos de valor fechados e fixos por meio do estudo, da pesquisa, do diálogo e da apresentação em blog e/ou artigo referentes às atividades de pesquisa propostas; – postura ética orientada pela solidariedade; pelo respeito/tolerância/aprendizado com as diferenças; pela crítica e ação contra desigualdades e injustiças econômicas, políticas, culturais, sociais, tais como aquelas marcadas por preconceitos de gênero, etnia, classe ou outros; pelo questionamento das ideias de políticas públicas em circulação na sociedade e seus impactos na vidas das pessoas; – capacidade de crítica e auto-crítica pautada no respeito/tolerância/aprendizado com o outro e nas várias facetas possíveis de serem consideradas na avaliação de um desempenho, de um problema, de uma tarefa em pauta na disciplina; – capacidade de criação/organização de conhecimento condizente com seus conhecimentos e saberes prévios e em desenvolvimento.

A auto-avaliação pode começar a ser redigida imediatamente, como um diário ou um memorial de cada passo do seu percurso de aprendizado e, no final do quadrimestre, cada estudante poderá entregar um texto sobre sua trajetória na disciplina, tendo como roteiro o cumprimento das atividades propostas no item 1; o desenvolvimento de noções, conceitos e conteúdos da disciplina e do tema de pesquisa que se propôs no item 2; e dos saberes/habilidades de convivência no item 3.

Mais do que objetivar a atribuição de um conceito, a avaliação diagnóstica processual, resultante desse texto escrito pelo próprio estudante como um parecer sobre si mesmo, quer observar até onde o/a estudante caminhou e para onde pode caminhar ao longo de seu processo de formação, com autonomia, criatividade e honestidade. Essa auto-avaliação será individual, por escrito, digital (ser postada na Plataforma do Tidia, pode também ser publicada no blog e/ou em caso de probelam com o Tidia, enviada por e-mail: andrea.santos@ufabc.edu.br) reforçando que cabe ao estudante escolher escrever uma auto-reflexão seguindo o roteiro dos três itens desenvolvidos aqui, isto é, tratar amplamente do SEU próprio desenvolvimento, e não do que pensa ou julga ser o desenvolvimento dos outros.

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Sobre Aulas de 14 a 30 de julho e início de agosto, final de quadrimestre

14/7 – Aula 14

Nesta aula, propomos um debate e uma prática interessante sobre o que ocorreu em Identidade e Cultura em 2014:

A Universidade e o debate e as reflexões “sobre o uso de fita adesiva”

 

Prezado Ricardo, conheço as normas, entendo os argumentos e justificativas impostas por um grupo na universidade, porém não concordo com as mesmas e defendo que sejam colados cartazes,avisos, trabalhos e expressões artísticas dos estudantes em qualquer lugar da universidade, a exemplo do que acontece em outras universidades como uma das maiores do mundo onde estudei, a USP, onde existe tudo isso – e talvez exatamente por existirem coisas assim –  saem pessoas formadas como bons profissionais que se preocupam em ver e ler a estética do que está escrito, desenhado, pintado, colado e fotografado, e não na estética da parede sem nada a expressar a não ser um sentido de disciplina e ordem furada que não tem nada a ver com a educação plural e democrática do século XXI que está no nosso projeto pedagógico.

Como educadora, escritora, professora e pesquisara, entendo que trabalhamos com arte, cultura e educação e num local público, não numa empresa ou indústria qualquer ou hospital ou prisão. A estética de uma universidade no Brasil e mundo afora é muito diferente desse padrão imposto por uma visão de um grupo que administra esse local como se fosse uma das indústrias, hospitais ou prisões do ABC paulista. Fiquei surpresa com a falta de visão do que é educação quando retiraram nossos trabalhos argumentando sobre a visita do MEC. São exatamente nossos trabalhos que dão cara de universidade para esse espaço e ninguém fica retirando esse tipo de trabalho das paredes da USP, da Unicamp, da Unifesp, etc!
Todo ano, esse espaço é pintado independente de estar danificado ou não, com recursos públicos que são descontados também direto do meu salário, pois isso já é previsto pela administração. E houve ano que vi ser pintado sem nem precisar fazê-lo apenas para gastar a tinta e justificar esses argumentos burocráticos e essa visão equivocada e unilateral do que não tem mais nada a ver com o que aqueles boa parte daqueles que estudam, ensinam e pesquisam acham que deve ser um espaço educativo e cultural. Eu, os estudantes e outros professores e funcionários da UFABC preferimos que esse espaço educativo tenha os cartazes e as expressões culturais e as marcas de uso e vivência do que deixá-lo com cara de recepção de dentista ou do Poupatempo. esses displays que é a maior burocracia e demora para conseguir usar para uma atividade prática do dia a dia são, além disso, horríveis, péssimos para o tipo de trabalho que fazemos, e ninguém nos perguntou quando foram comprá-los com o nosso dinheiro público se eram adequados e interessantes para nossas atividades. Entendo qual é o trabalho de vocês e espero que entendam também qual é o meu trabalho e o meu ponto de vista, respeitando nossas práticas educativas e utilizando de fato os recursos da educação pública para ocupar os espaços públicos e não deixá-los vazios e inúteis, sem cor ou significado, servindo mais como local de passagem do que de convivência. Se as paredes ficaram assim é porque o que estava nela foi retirado. Se ficassem lá, as pessoas olhariam as estéticas das mensagens educativas, culturais e artísticas e não se a tinta descolou ou não da parede feita muitas vezes com material de péssima qualidade superfaturado para beneficiar as construtoras e outras empresas terceirizadas que exploram o trabalho de pessoas subcontratadas por baixos salários e que poderiam, não fosse essa visão administrativa herdeira do escravismo colonial, serem funcionários públicos da educação e entenderem que a Universidade sempre teve e terá outra cara em seus espaços de vivência, porque nós que trabalhamos e habitamos esse espaço todos os dias pensamos e criamos sobre ele, não apenas passamos por ele e aceitamos as normas que não correspondem com o ambiente cultural e educativo que queremos viver e contruir no dia-a-dia.
Mais uma vez, muito obrigada pela atenção, e qualquer esclarecimento, estou à disposição!
Para maior entendimento das nossas práticas e de nossa perspectiva de trabalho educativo, disponibilizamos o blog da nossa disciplina justifica na teoria e na prática nossas atividades educacionais e culturais e mostra os estudantes estudando e fazendo bons trabalhos aí, ao invés de estarem roubando, (se) matando, (se) destruindo ou fazendo coisas consideradas bem piores: https://identidadesculturas.wordpress.com/
Atenciosamente,
Andrea Paula

Aula do dia 2 e estudos e descanso acertados para o dia 7 de julho

2/7 – Aula 12

Nesta aula, fizemos um balanço e compartilhamento das nossas experiências no contexto vivido pelos estudantes na época das avaliações, considerando questões relacionadas à necessidade de práticas educativas e culturais inter e transdisciplinares que considerem as identidades e as culturas dos sujeitos da educação.

Ao compartilhar nossas experiências e fazermos as trocas de alimentos, objetos e saberes no Clube de Trocas, humanizamos o que se costuma definir como o espaço da sala de aula e transformamos na prática os próprios sentidos da educação superior e da formação humana que se espera dela, não permitindo que Identidade e Cultura seja mais um lugar em que se fala da crítica cultural do ponto de vista teórico sem ser consequente com o que se faz de fato nos processos de ensino e aprendizagem.

Ao falar de nossas experiências, ligamos com outros conceitos já discutidos em aulas anteriores, tais como subjetividade, performance, interculturalidade, cultura e identidade e comentamos os autores já apresentados (Félix Guattari, Gilles Deleuze, Michel Foucault, sempre presentes) e outros autores como Nestor Canclini, Beatriz Sarlo, entre outros. Segue o link do livro “Identidade”, de Zygmunt Bauman, entre outros que mencionamos do mesmo autor como, por exemplo, “Modernidade Líquida”, “Amor Líquido”, “Comunidade”:

Identidade

A identidade, como sentido de pertencimento e de localização no tempo e no espaço, pode parecer que é algo muito palpável, fixo e objetivo. Porém, o famoso sociólogo nos alerta que no contexto atual do capitalismo tardio, vivemos o que ele denomina de modernidade líquida, na qual qualquer busca por uma identidade estável dentro de uma comunidade segura é impossível. Isso ocorre por conta da velocidade das transformações, dos excessos de deslocamentos, das fragilidades dos laços humanos, da descartabilidade das relações sociais e dos estilos de vida que são vendidos e consumidos vorazmente.

Nesse sentido, Bauman faz uma crítica de uma visão ingênua de que a contrução de identidades é algo sempre bom, porque ele enfatiza que a busca por um sentido de pertencimento num grupo pode favorecer mais a demarcação de diferenças que sejam transformadas em desigualdades, gerando conflitos e intolerâncias nacionalistas, religiosas, políticas, étnicas, culturais etc.

Leia este e outros livros de Bauman (“Comunidade”, “Modernidade Líquida”, “Medo Líquido”, “Amor Líquido”, “Tempos Líquidos”, “Ensaios sobre o conceito de cultura”…) e faça ligações dessas questões com os temas do seu blog individual e do seu grupo, destacando quando as identidades e as comunidades construídas interferem na definição do que são os sujeitos e os grupos sociais na contemporaneidade.

concreta moderno

Fonte: http://deacordocom.blogspot.com.br/2011/05/o-pensamento-no-brasil.html

7/7 – Aula 13

Nesta aula, foi liberado o tempo para estudos e sistematização de experiências nos diários de campo, pois todos estavam cansados e sobrecarregados com as provas de outras disciplinas, além da proximidade com o feriado prolongado. Participei de um Encontro Internacional com educadores, pesquisadores e artistas, dando sequencia ao diário de campo que sempre faço das minhas atividades para dialogar com vocês. Lembrei também que a plataforma do Tidia já está aberta com a orientação para as atividades que precisam ser feitas até o final de Identidade e Cultura, com os prazos que precisam ser entregues por lá. Deixamos aqui também o link de um dos textos que costumamos comentar com cada grupo ao longo da oferta de Identidade e Cultura para auxiliar nos estudos e nas práticas que estão em andamento e nas reflexões para a sistematização final, de reunião dos diários de campo como um memorial e auto-avaliação:

Algumas noções básicas sobre gênero–  Gênero Plural: resumo de conceitos sobre identidade de gênero e diversidade sexual

As questões de gênero e diversidade sexual estão diretamente ligadas às temáticas de direitos humanos, identidade e cultura e dialogam com todos os temas apresentados em blogs individuais e de grupos. Portanto, ao conversar com cada grupo, destacamos a importância de que a produção nos blogs e nos murais, exposições e intervenções que estão sendo apresentados no Espaço de Vivência promovam essa ligação com conceitos e questões que envolvem o combate aos preconceitos e a valorização da diversidade humana.

Traga as suas experiências e reflexões sobre o seu trabalho e o do seu grupo para fazer e apresentar no Espaço de Vivência! Participe do nosso Clube de Trocas! Faltam apenas três semanas para que seja iniciado o processo de auto-avaliação individual e contamos com o desenvolvimento dos processos de trabalho nesse mês de julho para que ocorra o desfecho das criações coletivas em Identidade e Cultura no início de agosto: bom trabalho nessa reta final!

25/6 e 30/6 – Aula 10 e 11: Cultura Visual, cultura digital, inter/transdisciplinaridades

cultura digital

Cultura visual e cultura digital

O que se denomina como cultura visual? Por que alguns estudiosos, educadores, artistas, cientistas consideram a cultura visual como típica do nosso tempo? Por que boa parte das pesquisas sobre cultura visual é desenvolvida no campo dos Estudos Culturais, da Semiótica, da Artemídia?

Seguem algumas definições de cultura visual que interessam para se debater fundamentos e temas em Ciência, Tecnologia e Sociedade; Arte, Ciência e Tecnologia e Arte/Educação. Uma definição é mais abrangente: ressalta a diversidade do mundo de imagens, processos de visualização e de modelos de visualidade. Destaca a importância dos modos de ver e da experiência visual como paradigma da nossa época e aborda as representações como práticas de significação. São imagens e mediações que tornam a sociedade possível.

Outra definição é mais restrita: enfatiza a cultura de tempos recentes marcados pela imagem digital e virtual sob domínio da tecnologia. Marca a centralidade do olhar na cultura ocidental e revela o ocularcentrismo como base do pensamento científico ocidental. A visualidade é tratada como ponte entre representação e poder cultural na era da globalização.

Cultura visual, Estudos Visuais, História Visual… destacam que os sentidos/significados não estão investidos nos objetos, mas sim nas relações humanas. A cultura visual é uma produção social e o olhar uma construção cultural. Há interesse nos processos e práticas cotidianas de olhar, de exposição, de significação para além do estudo das imagens (produção, circulação, apropriação). E compreende-se que a experiência visual não se realiza de modo isolado, e a representação visual é parte de um conjunto entrelaçado de práticas e discursos que envolvem outros sentidos da percepção.

Por tudo isso, como podemos notar, seria muito difícil tratar de fundamentos e temáticas em Ciência, Tecnologia e Sociedade sem estudarmos e reconhecermos características básicas do que se denomina de cultura visual.

Por outro lado, hoje vivemos o tempo da cultura digital, que transforma percepções, cognições, representações do real, sociabilidade, modos de vida, culturas, práticas e expressões artísticas e culturais. Mas o que é isso? A cultura digital constituiu-se numa ampla e complexa rede de representações e formas de sociabilidade produzidas em linguagens múltiplas (visual, audiovisual, oral, musical, escrita) que convergem, se misturam, se entrelaçam em redes digitais por meio de tecnologias de informação e comunicação. A expressão mais visível da cultura digital em nosso cotidiano é a internet, porém ela vai muito além, para alguns estudiosos, configurando uma nova maneira de se estabelecer as relações entre sujeitos e grupos sociais, chamada de sociedade em rede, por Manuel Castells.

Os estudos acerca da cultura digital são muito importantes para se pensar fundamentos e temáticas em Ciência, Tecnologia e Sociedade pois, ao conectar tantas pessoas em contextos de diversidade cultural, abrem possibilidades de acesso a informações, de trabalho e de diálogos impensáveis até bem pouco tempo atrás.

O que destacamos, sobretudo, é que a cultura digital favorece para que muita gente possa produzir e não apenas consumir arte e cultura, problematizando as relações e os processos de produção científicos, artísticos e culturais advindos das instituições tradicionais. Esta delimitava fronteiras claras entre cientistas, artistas, outros profissionais (os que criam) e consumidores (os que recebem), relações hierarquizadas que podemos trazer para o campo educacional quando pensávamos em professores como os que ensinam conteúdos, e alunos como os que assimilam conteúdos, por exemplo. Debates importantes para nós incluem as seguintes questões: a cultura digital favorece a criatividade ou a passividade? Ou ambas? A cultura digital permite que tipo de produções e circulações/apropriações de representações, conhecimentos, tecnologias? Como cientistas, artistas, pesquisadores, educadores podem ser produtores e mediadores de conhecimentos no contexto da cultura digital? A cultura digital transforma a cognição e o que é a própria configuração do ser humano, colocando em pauta o chamado pós-humano? Essas questões estão em aberto e nos provocam, porque trazem e trarão muitas reflexões e propostas de trabalho interessantes nos próximos tempos…

Interdisciplinaridade e Transdisciplinaridade

A ciência moderna construiu muitos conhecimentos por meio das áreas disciplinares. Podemos atribuir grande parte do desenvolvimento da sociedade capitalista ao trabalho feito nas especialidades, por cientistas, pesquisadores, artistas, estudiosos.

Sem áreas específicas de saber, como as Artes, a História, as Ciências Sociais, a Medicina, a Matemática, a Química, a Física, a Biologia, por exemplo, talvez não tivéssemos criado tantos conhecimentos que possuem aplicabilidade na vida cotidiana no mundo ocidental.

Porém, esse mesmo desenvolvimento social na modernidade, tornou mais complexa a vida e a organização da sociedade.

Com o tempo, as pessoas formadas em áreas de conhecimento específicas passam a perceber a urgência de se criar ligações entre saberes específicos para conseguir compreender e atuar sobre os problemas do mundo.

Surgem perspectivas interdisciplinares, que buscam tratar temáticas com a contribuição de várias áreas de conhecimento disciplinar, postas lado a lado. As Artes, as Humanidades, as Ciências Naturais e Exatas caminham juntas em projetos de pesquisa, novas formulações teóricas e criações de novos conhecimentos e saberes.

Das práticas interdisciplinares surgem perspectivas transdisciplinares, ou seja, da mistura de saberes especializados criam-se outros novos saberes e campos de conhecimento, que buscam pluralizar pontos de vista, teorias, propostas de estudo, e não aceitam mais hierarquizações que dizem qual ou tal área é mais importante para estudar um tema.

Um exemplo de novo campo de saber que tornou-se área de conhecimento recente são os Estudos Culturais, e alguns acreditam que Arte/Educação e Arte, Ciência e Tecnologia também se configuram de forma transdisciplinar – sem contar inúmeras outras novas áreas de conhecimento no campo das Ciências Exatas e Naturais – como espaço de produções de saberes antes inexistentes, talvez sem condições de serem gerados em uma ou outra especialidade.

Em novas áreas como essas, as Artes, as Humanidades e as Ciências podem então atuar tanto lado a lado quanto atravessar temáticas, questionando fronteiras entre as ciências e seus objetos de estudo. Afinal, artistas podem ser cientistas, educadores, técnicos ou tecnólogos e vice-versa, como sabemos. Mais do que isso, o olhar trazido pelas artes pode trazer outras visões, problemas, dilemas, soluções onde observadores de outras áreas não enxergavam nada ou muito pouco…

Em tais perspectivas de trabalho transdisciplinares, o conhecimento e a compreensão da diversidade cultural é uma das temáticas mais destacadas, com ênfase no reconhecimento de conflitos entre culturas, e na multiplicidade de tecnologias culturais e artísticas que cada sujeito e/ou grupo social cria e utiliza para viver e lidar cotidianamente.

30/6 – Aula 11

O texto distribuído e comentado na aula de hoje no Espaço de Vivência foi:

Toxicômanos de identidade, de Suely Rolnik

Toxicômanos de identidade

Também falamos do famoso livro de Marc Augé (quem achar em pdf, por favor, compartilhe!),

marcaugé

NAO LUGARES

INTRODUÇAO A UMA ANTROPOLOGIA DASUPERMODERNIDADE

E também do livro de Nestor Garcia Canclini, Consumidores e Cidadãos (se achar em pdf em português, idem!), do qual compartilhamos um capítulo do original em espanhol da nossa Biblioteca:

– Capítulo de livro:  Consumidores y ciudadanos. Conflictos multiculturales de la globalización. México, Grijalbo, 1995, pp. 41-55

“El consumo sirve para pensar”

garcia_canclini._el_consumo_sirve_para_pensar

canclini consumidorescidadaos

Discutimos como identidades e subjetividades constroem e desconstroem territórios. Falamos de como, no contexto da globalização, as identidades são oferecidas como perfis-padrão para serem consumidos e descartados, além de abordar como os estímulos gerados no mundo contemporâneo pela propraganda e todo tipo de mídia são agenciados por nossas subjetividades em crise, em processos complexos.

No que estas questões, e as propostas pelos textos das aulas anteriores, podem se relacionar com o seu trabalho individual e do seu grupo? Façam suas postagens e tragam seus temas em cartazes e intervenções na próxima sexta-feira, para uma primeira rodada de contribuição, crítica e intervenção!

IMAGENS DE TRABALHO EM GRUPO DE 2014 NO ESPAÇO DE VIVÊNCIA

Aulas da segunda metade do mês de junho (16, 18, 23 e 25 de junho)

16/6 – Aula 6

Aqui vai uma das referências de práticas discursivas, artísticas e políticas, mencionadas nas aulas, que criticam discursos em circulação sobre a tecnociência, o desenvolvimento tecnológico e situação ambiental na realidade contemporânea, propondo outras leituras do mundo, por meio da linguagem do cinema documentário:

(texto do youtube)

Por quanto tempo você estaria disposto a usar uma fantasia de super
herói e herdar com ela os seus super poderes? Quanto tempo você
precisaria para corrigir o que você considera uma enorme injustiça?
Um dos integrantes do grupo ativista YES MAN conseguiu fazer um
pouco dos dois em apenas 5 minutos.
A fantasia não era bem uma fantasia, e sim a falsa identidade de um
porta voz da empresa Dow Chemical, responsável por um acidente
químico na Índia que matou milhares de pessoas e comprometeu por
toda a vida a saúde de outros milhares. O disfarce, assumido por Andy
Bichlbaum em um dos noticiários da BBC World — naqueles horários
que todos estão vendo TV, veio acompanhado do poder temporário
de anunciar que a empresa iria liquidar a companhia causadora do
acidente e os 12 bilhões de dólares resultantes da operação seriam
utilizados para o pagamento de assistência médica para as vítimas,
limpeza da área afetada e investimento em pesquisa para evitar
novas ameaças causadas por produtos da Dow Chemical.
Até que a empresa conseguisse desmascarar o herói as avessas e
esclarecer toda a confusão, o falso pronunciamento do YES MAN já tinha conseguido uma queda nas ações da Dow Chemical no valor
de 2 bilhões de dólares. Tudo isso sem passeata, sem violência, sem
bate boca ou troca de farpas. Cinco minutos se apropriando
formalmente do discurso corporativo e de seus meios de
comunicação tão caros, mas deturpando o conteúdo e agindo
segundo crenças completamente banidas do mercado financeiro e
suas corporações. Cinco minutos de camaleão travestido em porta
voz do bem e da justiça. Cinco minutos de guerra e confronto, que
requereram mais coragem e sangue frio que as areias do Iraque ou do Afeganistão.

FILME NA AULA DE CTS:

The Yes Men Fix The World é um Documentário  hilariante sobre dois ativistas políticos que se fazem passar por responsáveis de grandes empresas, grupos e corporações adeptas do culto da ganância e fazem as mais divertidas ações para chamar a atenção para assuntos muito sérios. Desde ir para a televisão  em direto a anunciar o pagamento de bilhões de dólares para reparar um desastre ambiental (fazendo-se passar por um responsável da empresa) ou criar um fato-bolha surreal e apresentá-lo como solução da Halliburton, entre outras, valeu de tudo para colocar em foco as questões verdadeiramente importantes.

Informações
Áudio: Inglês
Legenda: Portugues Pt (Embutida)
Tamanho: 696 MB
Download: Fileserve

Fonte:

http://www.bestdocs.com.br/2011/08/the-yes-men-fix-the-world.html

Divertidíssimo!
Não descartamos a possibilidade dos Yes Men estarem visando fama em suas incursões pelo mundo afora. Mesmo que seja isso, não deixa de ser uma das formas mais interessantes e divertidas de ativismo. Esses homens criam sites de Internet passando-se por outras pessoas, empresas ou instituições com o objetivo de serem convidados para grandes conferências e entrevistas em grandes redes de TV. É nessa hora que o show começa e eles mostram suas garras. Através de verdades e fatos, ironizam o sistema perverso que assola o mundo.
(docverdade)

Download
Filme original (release 2009)
Torrent Legendas pt-br

Edição Especial 2010:
Legendas pt-br

Torrent da versão 2010 pelo site VODO que os produtores disponibilizaram. 

ATENÇÂO: As legendas da versão 2010 foram feitas do em cima filme original (versão 2009) que foi proibido pela justiça norteamericana (que começa 9 min depois da apresentação desse release). Portanto apenas essa parte (da apresentação de 9 minutos) do documentário encontra-se sem legendas.

Agradecimentos a Ivan Teixeira, Osana Cardoso, José Aluísio e Diego Poloni pela indicação e links.

Fonte:

http://docverdade.blogspot.com/2011/05/yes-men-arrumando-o-mundo-yes-men.html

Outras referências interessantes:

artigos da Revista E, do Sesc sobre processos de criação pós-modernos:
http://cienciastecnologiassociedades.wordpress.com/2013/03/11/criacao-pos-moderna/

texto recomendado em aula anterior = primeiro capitulo deste livro:

http://cienciastecnologiassociedades.files.wordpress.com/2011/11/sociedade-em-rede-manuel-castells-gustavo-cardoso-org.pdf

Exposições questionam a poluição em São Paulo

Em “Quase Líquido” e “H2Olhos”, o Itaú Cultural propõe – até 25 de maio – uma reflexão sobre esse problema no rio Tietê e mostra como em outras cidades a realidade é diferente. A instalação de garrafas PET de Eduardo Srur, nas margens do rio, é um dos destaques

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Por Thiago Carrapatoso
Planeta Sustentável – 27/03/2008

O Itaú Cultural sedia duas exposições que têm o meio ambiente como tema de reflexão: “Quase Líquido” e “H2Olhos”. Ambas estão ocupando o prédio da instituição, em São Paulo, até o dia 25 de maio, com entrada gratuita.”Quase Líquido” preocupa-se em provocar o público sobre dilemas, incertezas e vazios que cercam os indivíduos que vivem em metrópoles, como a capital paulista, e precisam conviver com a contradição entre o moderno e os problemas básicos, como a violência, aexclusão social e o meio ambiente degradado. De acordo com o curador da exposição, Cauê Alves, é esse conflito que mostra que a sociedade brasileira ainda não alcançou a modernidade em si.O trabalho do artista plástico Eduardo Srur é um exemplo desse conflito. Srur construiu 20 garrafas PET de 10m de comprimento por 3m de largura e espalhou-as pelas margens do rio Tietê. Os motoristas da marginal, então, poderão ver entre as pontes do Limão e da Casa Verde diversas garrafas coloridas que convidam o público a refletir sobre a poluição do rio. Quem quiser checar o trabalho de mais perto, o Itaú Cultural, em parceria com o Instituto Navega São Paulo, promove excursões agendadas pelo rio. Quando a exposição acabar, as garrafas virarão mochilas que serão distribuídas gratuitamente às escolas públicas da região.Esse não é o primeiro trabalho de Srur sobre o meio ambiente. Ele já fez intervenções urbanas que questionam a mobilidade em São Paulo – pendurando bicicletas entre dois prédios em uma das travessas da avenida Paulista – e a poluição no rio Pinheiros que impossibilita os cidadãos de usufruir algo que era usado como lazer antigamente – soltando caiaques com manequinscorrenteza abaixo.Outro destaque da exposição é o grafiteiro Zezão, que exibe o vídeo “Suco Gástrico”, em que mostra sua experiência com seus grafites azuis nos esgotos e córregos da cidade. Zezão, aos 28 anos, por causa de uma crise depressão, visitou os subterrâneos da cidade pela primeira vez. Foi lá que começou a trabalhar suas intervenções urbanas com pixação e grafite.

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Os grafites azuis de Zezão, que ilustram os esgotos de São Paulo, são tema do vídeo “Suco Gástrico”

Além desses, outros 15 artistas entram na exposição, como Tatiana Ferraz, Louise Ganz, Ana Tavares, Rosângelo Rennó, o mexicano Héctor Zamora e o catalão Martí Perran.Em paralelo ao “Quase Líquido”, no 2º subsolo do Itaú Cultural, há também a exposição “H2Olhos”, em que o fotógrafo e curador Miguel Chikaoka mostra que a água do rio Tietê é limpa em outras cidades. Chikaoka divide a exposição em três partes: H2Olhos no Olho, em que o público pode ver sua imagem refletida por meio de um jardim de olhos d’água; H2Olhos no Leito, no qual o espectador tem a sensação de estar imerso em um rio cheio de peixes; e H2Olhos nas Nuvens, espaço com livros e jogos.

Para saber mais informações sobre as exposições, acesse o site do Itaú Cultural.

Patrícia Santos/AE

Garrafas PET gigantes que fazem parte da instalação criada pelo artista plástico Eduardo Srur, nas margens do Rio Tietê, entre as pontes do Limão e da Casa Verde, zona norte de São Paulo. 26/03/2008

Fonte: http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/eventos/conteudo_274265.shtml

 18/6 – Aula 7

Criação Pós-Moderna

Excelentes artigos publicados na Revista do Sesc (Revista e, no. 190, março/2013), que resumem bem alguns dos conceitos, ideias e práticas que temos debatido em Identidade e Cultura. Qual a relação possível desses debates e contextos históricos, teóricos e metodológicos no seu trabalho de pesquisa? Se não sabe, tente saber… pesquise, pergunte, crie!

Fonte: http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/revistas_link.cfm?Edicao_Id=460&Artigo_ID=6866&IDCategoria=7932&reftype=2

A pós-modernidade ou o tempo do “fim das ideologias” impulsionou a criação de novas metodologias no campo do saber. A ciência clássica foi colocada em xeque por diversos pensadores, que propuseram novas possibilidades de análise dos fenômenos socioculturais. A professora e pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Lucia Santaella e o professor do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) Osvaldo Pessoa Jr. analisam as mudanças desse paradigma científico, apoiados em correntes teóricas contemporâneas.

Há lugar para o novo depois das utopias?

por Lucia Santaella

O novo está ligado às ideias de frescor, novidade, ineditismo e mesmo à ideia de algo que não existia e que, por acaso, inspiração, esforço, intenção ou deliberação, passa a existir. De uns anos para cá, o novo tem estado aliado à palavra “inovação”. Esta, aliás, tornou-se moeda corrente e até palavra de ordem.

Embora possa ser aplicado a outros campos, o termo “inovação” está preferencialmente atado ao campo do empreendedorismo, envolvendo competências tecnológicas, mercadológicas e gerenciais. Especialista no assunto, o site Radar Inovação (Inventta.net) define a inovação como “exploração com sucesso de novas ideias”. Sucesso que, no caso das empresas, significa “aumento de faturamento, acesso a novos mercados, aumento das margens de lucro, entre outros benefícios”. Quando se fala em inovação de produto ou de processo, a inovação é tecnológica. Mas há outros tipos de inovação que se relacionam a “novos mercados, novos modelos de negócio, novos processos e métodos organizacionais. Ou, até mesmo, novas fontes de suprimentos”.

É interessante notar que a ascensão do conceito de “inovação” na área empresarial coincidiu com o crepúsculo do conceito de “novo” no campo da cultura e da arte. Não é novidade para ninguém o papel que a inovação desempenha para manter o capitalismo turbinado. Por que o conceito de novo entrou em declínio na cultura e especialmente na arte não é algo tão evidente. Para tornar isso um pouco mais compreensível este breve artigo está dedicado.

Deve ter sido no Renascimento que começaram a brotar os ideais do novo. Esse período distinguiu-se de retomadas anteriores da antiguidade clássica pela introdução de elementos inovadores que levaram, em particular na pintura, à constituição de um padrão ou modelo estético dominante constituído pelo desenvolvimento da perspectiva monocular altamente realista, pelo tratamento do espaço da pintura como janela e pelo estudo da luz e da sombra.

Esse padrão estético permaneceu durante séculos, com exceção da ousadia de alguns artistas, criadores de linguagem, tais como os espanhóis Velasquez e Goya e os ingleses Constable e Turner, por exemplo. Independentemente do período e lugar em que viveram ou do estilo em que costumam ser identificados, esses artistas foram marcando os séculos, da Renascença ao Modernismo, com invenções e rupturas de padrão que fizeram avançar as linguagens da arte e anteciparam tendências que só viriam se confirmar no Modernismo. Este teve início com os impressionistas para terminar em Piet Mondrian e Jackson Pollock, na primeira metade do século 20.

Impossível separar as propostas estéticas da sequência de “ismos” da arte moderna (cubismo, dadaísmo, surrealismo, construtivismo, suprematismo etc.) do caráter utópico que corria de modo mais ou menos subterrâneo, mais ou menos explícito por todos esses movimentos vanguardistas. As vanguardas eram alimentadas pela impetuosidade heroica do desejo de transformar o mundo, marcá-lo com a insígnia do poder da arte.

Por trás do desfile incessante de “ismos”, aninhava-se a busca por um mais além, busca impulsionada pela aposta no projeto emancipatório da modernidade que queria se ver cumprida. O caráter explícito dessa busca fica evidente na atração dos futuristas pela máquina e pelos ritmos de vida por ela determinados.

Também nas tentativas do construtivismo russo de convergir a arte na vida através de novas formas imaginativas e na busca de um design rigoroso na Bauhaus para tornar a vivência cotidiana mais convidativa. Foi na escola de Bauhaus e na arquitetura modernista que o sonho da arte como condutora privilegiada da vida humana e social alcançou seu ápice, um sonho que recebeu um banho gélido na Segunda Guerra Mundial.

Além disso, o pós-guerra coincidiu com a emergência da indústria cultural que foi levando de roldão todas as crenças de que a arte teria algum poder de transformação sobre as determinações políticas e sociais. Foi também nos anos de 1960, no apogeu da cultura pop, de um lado, e das ironias da arte pop, de outro, que a inflação e a exacerbação crescentemente abrangentes da produção cultural começaram a se fazer sentir, intensificando-se nos anos de 1980, justamente quando se deu a explosão dos debates sobre o pós-moderno, pós-modernismo e pós-modernidade.

Hoje, pode-se perceber que esses debates estavam sinalizando o crescimento da complexidade cultural que foi aumentando na medida mesma em que foram crescendo as mídias, em especial as mídias digitais e a circulação social das linguagens que por elas transitam. É justamente isso que gera a enorme concentração, densidade e abrangência da produção simbólica e intensifica o fluxo veloz de discursos, imagens e sons das mais diversas ordens e origens na configuração do tecido hipercomplexo da cultura nas sociedades atuais. À maior produção soma-se, com a globalização econômica, política e social, a abertura para a cultura do outro, próximo ou distante, levando à mistura e sincretismo das culturas.

Há poucas questões mais controversas do que a questão relativa ao pós-moderno e pós-modernidade. De todo modo, nos anos de 1980, tornou-se evidência incontestável aquilo que apenas se insinuava nos anos de 1960. Entendida inicialmente como um novo estilo na arquitetura e nas artes, a expressão “pós-moderno” também reverberou na dança, música, fotografia, cinema até tomar conta de quase todas as práticas e teorias culturais, alcançando a política e até mesmo as ciências, um verdadeiro cataclismo do qual nem mesmo a matemática se safou.

Em meio a muitas controvérsias, há um ponto para onde a franja diversificada de interpretações converge: a constatação de que, no exaustivo uso do pastiche, das citações, da revisitação muitas vezes paródica dos estilos do passado, num vai e vem espacial e temporal até mesmo atordoante, as práticas culturais e artísticas pós-modernas estão na verdade levando a cabo o questionamento da concepção teleológica do tempo e da história que norteou o projeto da modernidade desde o seu apogeu iluminista. Essa é uma das razões por que a pós-modernidade coincide com o fim das utopias e das altissonantes narrativas científicas legitimadoras.

Isso significa que não há mais lugar para o novo nas culturas contemporâneas? Existe sim, mas ele não é mais entendido do mesmo modo que a modernidade o concebeu, como criação de um indivíduo singular, abençoado pelo dom da genialidade. Já em 1985, Vilém Flusser [1920-1991, filósofo tcheco, naturalizado brasileiro] nos oferecia uma concepção do novo que prenunciava as condições dos dias atuais. Segundo esse autor, “estamos atualmente no limiar de criatividade nova”. Esta não implica mais criar com intuição ou inspiração.

O processo criativo que emerge envolve a telemática (hoje, podemos dizer, sociedade em rede), que permite sintetizar acasos pouco prováveis com acasos ainda menos prováveis. Tal técnica recorre a “eus” artificiais e outros “eus” que processam dados e trocam informações com tamanha rapidez que aumenta a probabilidade de emergirem acasos pouco prováveis. Atualmente a massa de informações disponíveis adquiriu dimensões astronômicas que não cabem mais em memórias individuais, por mais geniais que sejam. Abre-se, assim, um horizonte de criações coletivas, participativas, colaborativas, um coletivo híbrido: a inteligência cada vez mais sofisticada que está nas máquinas colabora e incrementa a inteligência que está no cérebro humano, um cérebro transindividual que pulsa e palpita no mundo físico e no ciberespaço, tudo ao mesmo tempo.

“De uns anos para cá, o novo tem estado aliado à palavra ?“inovação”. Esta, aliás, tornou-se moeda ?corrente e até palavra de ordem.”

Lucia Santaella é professora e pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e livre docente em estudos de comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP)

De que maneira pensar o novo?

por Osvaldo Pessoa Jr.

O mundo se transforma em ritmo cada vez mais acelerado, em função do progresso tecnológico e do aumento da população humana na Terra. Não sabemos ao certo aonde isso levará, se devemos ser otimistas ou pessimistas com relação ao futuro que nossos bisnetos viverão.
Como entender esse processo de transformação, e como tentar influenciá-lo? Há diferentes perspectivas de análise, diferentes correntes teóricas ou “paradigmas”, que podem nortear nossa avaliação. Uma divisão em três grandes tradições contemporâneas de pensamento foi feita pelo filósofo e antropólogo tcheco-britânico Ernest Gellner, no seu livro Pós-modernismo, Razão e Religião (1992). Em primeiro lugar, o fundamentalismo associado às grandes religiões, que acredita em uma verdade única, embasada em textos sagrados e na autoridade religiosa. Em segundo lugar, o que pode ser chamado de racionalismo crítico (ou objetivismo, ou modernismo), herdeiro dos ideais iluministas e positivistas de valorização dos métodos e resultados da ciência, que mantém a noção de verdade como correspondência entre a teoria e os fatos, apesar de reconhecer que não há certeza de que a verdade foi atingida (apesar de se acreditar que ela exista). E, em terceiro lugar, as diferentes variedades do relativismo, que abandonam a ideia de uma verdade única, considerando que o conhecimento é construído a partir de um contexto cultural e que, portanto, as verdades são relativas a cada cultura em particular.
Uma articulação bastante influente do relativismo é conhecida como pós-modernismo. O termo foi introduzido em 1975 pelo crítico de arte estadunidense Charles Jencks para designar certas correntes da arte contemporânea. Fora do contexto específico da arte, porém, o termo foi generalizado pelo filósofo francês Jean-François Lyotard, em seu livro A condição pós-moderna (1979). Uma maneira de caracterizar o pós-modernismo é dizer que ele é indefinível, pois ele recusa o uso de “metanarrativas” abrangentes. Apesar da dificuldade de definir o pós-modernismo, podemos delinear algumas teses centrais do movimento, seguindo a análise de Gellner (ele próprio um racionalista crítico):
1) Hermenêutica. Assim como um texto, a realidade envolve significados, e tais significados estão aí para serem interpretados ou desconstruídos, em busca de contradições internas. O mundo seria a totalidade dos significados.
2) Relativismo. Não há verdade única e objetiva: a verdade é esquiva, polimórfica, subjetiva. A noção de “fatos objetivos” do positivismo é insustentável, pois fatos são inseparáveis do observador e da cultura que fornece suas categorias interpretativas.
3) Crítica política. A atribuição de significado a um objeto é sempre acompanhada de um valor, estando assim associada ao exercício de poder, de dominação. A desconstrução de significados é uma arma para a libertação. O modernismo estaria associado ao colonialismo e ao imperialismo; o pós-modernismo ao respeito e igualdade entre culturas. A insistência em uma realidade única e objetiva é um instrumento de dominação.
4) Subjetividade trêmula. Além da perda da objetividade, o próprio sujeito não é mais garantia da certeza (como no Cogito de Descartes ou nas sensações, para os empiristas): a subjetividade também é gerada por significados contraditórios.
5) Estilo polifônico. O estilo de texto é antes dialógico do que lógico. Busca-se não a definição clara dos conceitos, mas a exploração da riqueza dos significados (polissemia). A autoria dos textos tende a ser plural, como na arte da colagem, com citações de diversos autores ou a partir do ponto de vista de diferentes culturas (heteroglossia).
Feita essa breve caracterização do pós-modernismo, buscarei agora explorar uma interessante consequência do relativismo. Trata-se de uma versão modificada do argumento do “peritropê” (virada de mesa), usado por Sócrates no Teeteto, contra o relativismo do sofista Protágoras.
A tese do relativismo afirma que não há uma verdade única a respeito de qualquer questão sobre a natureza, pois a verdade é relativa a um paradigma, a um corpo teórico, a uma cultura. Assim, diferentes teorias terão diferentes verdades a respeito de uma determinada questão, e elas serão igualmente válidas.
Notamos que a tese do relativismo é “metateórica”, pois ela faz uma afirmação a respeito da relação entre uma teoria (digamos uma teoria científica) e a natureza. Ela é uma “teoria sobre teorias”. Ela afirma que uma determinada teoria nunca é a detentora única da verdade, pois outra teoria igualmente válida poderia negar essa verdade, e em última análise não haveria critérios objetivos para determinar qual das duas teorias é a melhor.
Pois bem: será que o relativismo também se estende para a metateoria?
A resposta natural de uma concepção relativista seria dizer que sim, pois, se as verdades da ciência são relativas, as verdades da filosofia também o são. Qual a consequência disso?
A consequência é que outras concepções metateóricas são igualmente válidas ao relativismo. E quais seriam essas concepções metateóricas? Já mencionamos duas delas: o fundamentalismo de base religiosa e o racionalismo crítico. Ora, mas se o racionalismo crítico é válido, então as teorias científicas fazem afirmações verdadeiras a respeito do mundo, e elas podem ser consideradas aproximadamente verdadeiras em um sentido forte, no sentido de que há uma correspondência entre os enunciados da teoria e os fatos do mundo. Ou seja, a verdade sobre a natureza não muda com o tempo: o que muda é a nossa opinião a respeito da verdade.
E agora? Vamos recapitular. Admitimos o relativismo no nível metateórico, pois esta é a posição mais coerente com o espírito do relativismo. Poderíamos ter recusado a extensão do relativismo para a metateoria, o que evitaria as contradições apontadas por Sócrates, mas contradições não assustam as visões pós-modernistas, pelo contrário, elas são bem-vindas (como transparece em seu estilo polifônico). Mas contradições não podem ser simplesmente ignoradas, elas geram consequências, se não em nível lógico, pelo menos em nível pragmático. E que consequências são essas?
A consequência é a necessidade de incorporação das visões racionalistas críticas (e por que não, também, as fundamentalistas) nos debates a respeito das mutações do mundo. Não basta defender teoricamente o pluralismo e ignorá-lo na prática. O respeito ao “outro” envolve trazê-lo para o debate, mesmo que isso envolva riscos, mesmo que posições inaceitáveis tenham que ser escutadas, mesmo que ele seja nosso inimigo.
Só assim pode-se ser um pós-modernista coerente. O relativismo pode ser questionável em nível teórico, mas em nível metateórico ele se chama pluralismo, palavra que rima com democracia.
Enfim, de que maneira pensar o novo? Não sei ao certo, mas o primeiro passo é prestar atenção ao que os especialistas de diferentes correntes estão dizendo. Uma boa introdução ao assunto é o artigo “Humano, pós-humano e transumano”, de Laymert Garcia dos Santos (em Mutações: Ensaios sobre as Novas Configurações do Mundo, organizado por Adauto Novaes, Ed. Sesc/Agir), onde concepções diversas são apresentadas.
O cientista da computação estadunidense Ray Kurzweil, constatando que o ritmo de avanço tecnológico está cada vez mais rápido, prevê para meados do século 21 a ocorrência da “singularidade”, quando a integração homem-máquina transformará a natureza humana (A Era das Máquinas Espirituais, Ed. Aleph, 2007). Críticas a esse cenário são feitas, por exemplo, pelo sociólogo português Hermínio Martins (Experimentum Humanum, Ed. Fino Traço, 2012). Eles representam duas posições éticas distintas a respeito do futuro tecnológico da humanidade.
No Brasil, o otimismo com relação à aproximação da singularidade é representado pelo Instituto de Ética, Racionalidade e Futuro da Humanidade (IERFH). Na minha opinião, um dos pontos mais criticáveis de sua posição é o desejo de prolongar a vida humana para centenas de anos. Claramente, o progresso tecnológico é guiado pelos desejos humanos, mas certos desejos, importantes em nossa história evolutiva, tornam-se despropositados com o avanço da civilização.
Paralelamente aos avanços tecnológicos nas áreas biomédicas e informacionais, creio que uma grande revolução teórica está em gestação, nos estudos científicos de como a mente emerge do cérebro. Essa revolução certamente transformará a maneira como concebemos a nossa individualidade, e isso poderá acabar com nosso desejo infantil de ter uma vida “eterna”. Em suma, o futuro depende não só das possibilidades tecnológicas, mas dos nossos desejos, que poderão ser transformados.

Osvaldo Pessoa Jr. é professor do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e pesquisador da Teoria do Conhecimento e Filosofia da Ciência

“(…), diferentes teorias terão diferentes verdades a respeito de uma determinada questão, e elas serão igualmente válidas.”

23/6 – Aula 8

Práticas de organização dos grupos e processos de produção coletiva e apresentação permanente de trabalhos no Espaço de Vivência… Muito obrigada aos participantes de todos os grupos, com a transformação do local graças as atividades, ao lanche compartilhado e ao Clube de Trocas!

Imagens das atividades disponíveis no post: https://identidadesculturas.wordpress.com/2014/07/19/aula-8/

25/6 – Aula 9

Nesta aula discutimos as práticas de terça-feira e continuamos a comentar nossos experimentos em Identidade e Cultura, relacionando com nossas experiências cotidianas, diários, registros documentais e com discussões teóricas como, por exemplo, as propostas por Félix Guattari ou no livro A identidade cultural na pós-modernidade, de Stuart Hall:

A identidade cultural na pós-modernidade, Stuart Hall

Esse texto é importante para o trabalho individual e de todos os grupos, pois trata da transformação das concepções de sujeito e de identidade, relacionando com nosso contexto atual.

Como esses conceitos e as reflexões de Félix Guattari e Stuart Hall se relacionam com seu blog e as temáticas do seu grupo?

Também demos continuidade aos processos de trabalho no nosso Espaço de Vivência, com nosso tradicional lanche coletivo e Clube de Trocas UFABC: participe!

Nas próximas aulas, tod@s estão convidados a apresentar seus trabalhos em blog, painéis, varais, cartazes e também a convidar @s colegas para interagir, dar sugestões e ajudar a fazer o desenvolvimento dos processos de trabalho, conforme combinamos…

Até terça :)))

Imagens das atividades disponíveis no post: https://identidadesculturas.wordpress.com/2014/07/22/aula-9/

O que é o ato de criação e os novos Universos de referência do Gilles Deleuze e do Félix Guattari

“O melhor é a criação; a invenção de novos Universos de referência…” Félix GuattariCaosmose. SP: Ed. 34, 1992, p. 15

“O que é ter uma ideia? Ter uma ideia não é alguma coisa de geral… Uma ideia já é destinada a tal ou qual domínio.

Quero dizer que uma ideia em pintura, uma ideia em romance, uma ideia em filosofia, uma ideia em ciencia – e evidentemente uma pessoa não pode ter todas elas… se vocês querem as ideias é preciso tratá-las como potências, potenciais já comprometidos com tal o qual modo de expressão. Em função das técnicas que eu conheço, eu posso ter uma ideia em tal domínio, seja em cinema ou em filosofia.

O que é ter uma ideia ‘em’ alguma coisa? Os conceitos, é preciso fabricá-los (…) E é preciso que se tenha uma necessidade, caso contrário, não se tem nada. Uma necessidade, que é uma coisa bastante complexa, se ela existe, faz com que o sujeito se proponha a inventar, criar conceitos.

Não há distância nisso entre a criação em ciência ou em arte.

Assim digo que não se trata de dizer se a ideia é verdadeira ou falsa. A questão é saber se ela é importante, é interessante, é bela…” ” (O que é o ato de criação do Gilles Deleuze da Andrea Paula)

9/6 e 11/6 – Aulas 4 e 5

9/6 – Aula 4

Esse memorial de uma aula de CTS dialoga com a de Identidade e Cultura e pode interessar a alguns estudantes mais curiosos:

Apresentamos, nesta aula, para reflexão e ligação com as temáticas de pesquisas dos blogs, o conceito de cultura, do antropólogo estadunidente, professor do MIT, Michael Fischer, cujos capítulos 1 e 2 de seu livro estão disponíveis em nossa Biblioteca, para leitura:

“Cultura é aquele todo relacional, complexo, cujas partes não podem ser modificadas sem afetar as outras partes, mediado por formas simbólicas potentes e poderosas, cujas multiplicidades e cujo caráter performativamente negociado, são transformados por posições alternativas, formas organizacionais e o alavancamento de sistemas simbólicos , assim como pelas novas e emergentes tecnociências, meios de comunicação e relações biotécnicas.

Futuros Antropológicos: Redefinindo a cultura na era tecnológica. RJ: Zahar Ed., 2011, p. 19.

Essa definição de cultura, que é também repleta de hibridismos e interculturalidades, ressalta o impacto das tecnociências em nossa cultura, modificando não apenas nossas formas organizacionais, simbólicas e de comunicação, mas a própria configuração do que entendemos por formas de vida, sem que consigamos mensurar boa parte das consequências das tecnociências em franca aplicação sem reflexão crítica nas nossas sociedades disciplinares/sociedades de controle, conforme tratamos em aulas anteriores, ao falarmos do diálogo entre Gilles Deleuze com as ideias de Michel Foucault. Daí a necessidade da mudança da nossa postura frente aos fundamentos que apontamos no início para que, como estudantes, educadores, cientistas, futuros profissionais de todas as áreas de conhecimento, possamos sempre pensar, criticar e transformar os próprios conhecimentos científicos e tecnologias com os quais temos que trabalhar, com vistas a aprender a reconhecer nossas responsabilidades frente aos impactos das tecnociências.

Também problematizamos o senso comum, já criticado há muito tempo de que as ciências e as tecnologias são neutras. Demos exemplos de como a partir do pós-guerra, na segunda metade do século vinte, houve uma crítica radical quanto aos limites da ciência e da tecnologia por conta da enorme destruição e morte que só foi possível graças aos conhecimentos e práticas científicas e tecnológicas produzidos pelas Ciências Modernas que, infelizmente, serviram de justificativa para um determinado tipo de racionalidade e de usos mortíferos e letais das tecnologias contra seres humanos. Um autor que citamos foi o famoso historiador Eric Hobsbawn e, especificamente, seu livro que é um clássico, uma leitura obrigatória para aqueles que querem entender um pouco da realidade contemporânea, A era dos Extremos: o breve século XX (1914-1991):

“(…) a estranha democratização da guerra. Os conflitos totais viraram ‘guerras populares’, tanto porque os civis e a vida civil se tornaram os alvos estratégicos certos, e às vezes principais, quanto porque em guerras democráticas, como na política democrática, os adversários são naturalmente demonizados para fazê-los devidamente odiosos ou pelo menos desprezíveis. As guerras, [são] conduzidas de ambos os lados por profissionais, e especialistas… (…) …a nova impessoalidade da guerra, que tornava o matar e estropiar uma consequência remota de apertar um botão ou virar uma alavanca. A tecnologia tornava suas vítimas invisíveis…” (pp. 56-57)

Falamos de como a racionalidade científica foi utilizada para criar os campos de concentração, um dos símbolos máximos da barbárie no século vinte, e que teve sua idealização no coração da Europa, onde a Ciência Moderna surgiu e foi glorificada como a rainha que levaria sempre ao progresso da humanidade. Essa mesma racionalidade Ciência Moderna serviu de base aos médicos alemães que torturaram e mataram pessoas presas nos campos de concentração, justificando suas atitudes como “experimento científico”.

Foi assim que expliquei que meu legado, como historiadora, talvez uma “cientista” das humanidades, é fazer a crítica da suposta democratização e neutralidade de certos conhecimentos e práticas ditas científicas e tecnológicas. Nós, mulheres cientistas como eu, a brasileira Lúcia Santaella, e as estadunidenses Sandra Harding e Donna Haraway, sabemos que certos padrões de conhecimento e de ignorância criados pelas Ciências Modernas atingem e conformam objetiva e subjetivamente, e de forma desigual, a vida de homens e mulheres de diferentes regiões e culturas de todo o planeta, beneficiando determinados grupos e excluindo ou eliminando outros, e pondo em questão a própria ideia que temos do que é o humano, a natureza e a ciência como um discurso sobre ambos. De acordo com o sociólogo brasileiro Laymert Garcia dos Santos, vivemos já num contexto demasiadamente pós-humano, sem ao menos nos darmos conta de como as tecnologias são altamente politizadas, com sérios impactos sócio-técnicos da informação digital e genética em nossa vida cotidiana.

Contudo, quero pensar também – de forma quase otimista-pessimista – que a partir do momento no qual vocês, estudantes e futuros profissionais. entram em contato com esses conhecimentos críticos, esse legado crítico também é de vocês e poderá ter grande impacto se souberem relacioná-lo às suas vidas cotidiana e profissional, problematizando suas próprias identidades e subjetividades

Falei da necessidade desse otimismo-pessimista que nos move na sociedade em rede, de Manuel Castells:

“A sociedade em rede, em termos simples, é uma estrutura social baseada em redes operadas por tecnologias de comunicação e informação fundamentadas na microelectrónica e em redes digitais de computadores que geram, processam e distribuem informação a partir de conhecimento acumulado nos nós dessas redes. A rede é a estrutura formal (vide Monge e Contractor, 2004). É um sistema de nós interligados. E os nós são, em linguagem formal, os pontos onde a curva se intersecta a si própria. As redes são estruturas abertas que evoluem acrescentando ou removendo nós de acordo com as mudanças necessárias dos programas que conseguem atingir os objectivos de performance para a rede. Estes programas são decididos socialmente fora da rede mas a partir do momento em que são inscritos na lógica da rede, a rede vai seguir eficientemente essas instruções, acrescentando, apagando e reconfigurando, até que um novo programa substitua ou modifique os códigos que comandam esse sistema operativo.
O que a sociedade em rede é actualmente não pode ser decidido fora da observação empírica da organização social e das práticas que dão corpo à lógica da rede. Assim, irei resumir a essência daquilo que a investigação académica (isto é, a produção de conhecimento reconhecida como tal pela comunidade científica) já descobriu em vários contextos sociais.”
Castells, Manuel. A sociedade em rede: do conhecimento à ação política., p. 20.

Todos vivemos na sociedade em rede, queiramos ou não, conectados ou não, pois a lógica da vida contemporânea é definida por ela e pelos que têm poder para organizá-la, queiramos ou não. Tratamos das ideias de Castells sobre a necessidade de reformar o Estado e refundar a educação, para que a organização da sociedade em rede seja democrática. E nos perguntamos? Isso é possível? Como os conhecimentos científicos e as tecnologias que criamos e usamos no contexto de uma cultura visual e de uma cultura digital podem ter relação com isso?

E falamos também do capitalismo-esquizofrenia, que aprendi com o psicanalista Félix Guattari ( As três ecologias e Da produção de subjetividade In: Caosmose ), de emergência crítica de visões de ciência que alguns denominam, ora de forma elogiosa ora de forma pejorativa como, de Ciências Pós-Modernas, num panorama em torno da complexidade do pensar o que possa vir a ser o fazer de uma Ciência com Consciência, como diria o filósofo e sociólogo Edgar Morin ou de crítica doparadigma dominante  de um certo discurso sobre as ciências como, à sua maneira, fez o sociólogo Boaventura de Souza Santos, preocupado com a ciência que põe a sociedade em risco. Atualmente, podemos escolher entre tantas visões críticas e, se quisermos, conhecer a existência de outras noções sobre o que é a ciência se a entendermos como um dos discursos possíveis sobre o mundo em que vivemos. E também ficarmos atentos às várias definições do termo “tecnologias”, que está em disputa e em processo de pluralização: tecnologias científicas,tecnologias culturais, tecnologias sociais, tecnologias de comunicação e informação.

Diante de tantas plurais e híbridas referências que elenquei nesta aula, como bem criticou o famoso antropólogo Bruno Latour, posso até considerar que, ao invés disso parecer uma crítica eficaz às mazelas da nossa sociedade tecnocientífica, essa reflexão reforce mais ainda um certo discurso cético de que nossa vida intelectual é decididamente mal construída. Ainda mais se for na base da interdisciplinaridade do fast-food-talk-show que nós dá a possibilidade de tratar das vastas temáticas dessas aulas, em poucas horas de um mísero quadrimestre. No entanto, como hoje estou tentando tratar de tudo e mais um pouco que me interessa como pesquisadora num tom de ambiguidade crítica relativamente otimista-pessimista (e não pessimista-otimista!) – para alguns muito pós-estruturalista, para outros de desconstrução (quem me dera!)- torço, ingenuamente e bem iluminista, para que vocês leiam essas ideias e referências linkadas como fonte de questões a serem relacionadas com suas experiências, observações e temas de pesquisa em seus blogs, fazendo novas (des)construções sobre as temáticas que abordamos. Pois, afinal, como educadora no século vinte e um (ou como uma Pandora que apresenta seu post-caixa com novos mitos no seu discurso que não se conforma com os velhos discursos e os usos sociais das ciências, ainda tão em voga nas universidades) tenho o privilégio de poder decidir que a responsabilidade por organizar sua autonomia e seu ritmo para essas leituras em diálogos comigo e com o que você pode pensar, criticar, criar e fazer é totalmente sua.

Tento aprender e fazer aqui a minha parte de criar uma pequena sistematização, como um memorial que pedi a vocês e, quem sabe, consigamos assim ter uma medida do que podem ser as dificuldades e as vantagens incomensuráveis de um “aprender a aprender” e  “aprender a fazer”, mencionados como fundamentos básicos da educação contemporânea no início desse texto… Já o “aprender a ser” e o “aprender a compreender e cooperar” dependerá do que cada um que está envolvido nesse processo vai pensar e criar a partir dessas camadas de palavras apresentadas a vocês: mais uma vez, bom trabalho!

caixa de pandora

http://cienciastecnologiassociedades.wordpress.com/

11/6 – Aula 5

Continuação da Aula 4, memorial acima

2/6 – Aula 3

2/6 – Aula 3

Nesta aula, costumamos fazer uma reflexão importante sobre a necessidade de questionarmos os fundamentos que foram ensinados para muitas pessoas na educação básica, que vão na contramão de todas as transformações da educação contemporânea que ocorreram, pelo menos, desde o início do século vinte.

Tais fundamentos advindos de concepções ultrapassadas de ensino, existentes na educação básica ora como um currículo explícito, ora como um currículo oculto e disfarçado pelos supostos conteúdos das disciplinas especializadas da Ciência Moderna, são:

– aprender a decorar;

– aprender a copiar;

-aprender a obedecer;

– aprender a (in)tolerar e/ou competir.

Tais fundamentos que aprendemos mesmo sem querer, forjaram nossa construção como sujeitos com determinadas identidades, subjetividades, culturas e performances que, atualmente, nos colocam diante do enorme desafio de transformar posturas passivas diante das aulas, encarando com outro olhar, disposição e ânimo as atividades de aprendizagem, pesquisa e criação e de outras formas de pensar e reinventar conhecimentos e saberes.

Expresso, como contraponto, alguns fundamentos básicos da educação contemporânea que, inclusive, são debatidos até mesmo nos Parâmetros Curriculares Nacionais:

– aprender a aprender;

– aprender a fazer;

– aprender a ser;

– aprender a compreender e cooperar.

Desde aulas anteriores, debatemos como é possível hoje que a educação, em todos os níveis, possa ser o espaço dessa transformação de fundamentos básicos, dando outro carater à formação básica e profissional.

Propomos uma abertura para esses fundamentos e convocamos as turmas a relacionar teoria e prática em Identidade e Cultura para modificar a própria percepção de identidades, subjetividades, culturas e performances que temos diante de nós.

Discutimos novamente os conceitos de identidade, como sentido de pertencimento e de localização no tempo e no espaço, e de cultura, como capacidade dos seres humanos e grupos sociais construírem e desconstruírem significados, indicando novamente as leituras atentas de Clifford Geertz e Marshall Sahlins, cujos livros inteiros foram disponibilizados em aula anterior.

E realizamos uma primeira oficina em torno do nosso Clube de Trocas.

Além desse blog no link acima, tem a página no facebook do Clube de Trocas UFABC.

A atividade reflexiva e lúdica sempre foi possível em Identidade e Cultura graças à contribuição dos estudantes que tomaram a atitude fantástica e inusitada para uma aula costumeira de trazer objetos os mais variados e serviços/habilidades para trocar.

A cada objeto ou habilidade que trocamos, aprendemos um pouco sobre como tudo o que colocamos em circulação para trocar potenciamente:

– constrói nossas identidades;

– faz parte dos nossos mundos íntimos, ou seja, das nossas subjetividades;

– comporta a atribuição de inúmeros significados diferentes, ou seja, são pontos de apoio para a transformação permanente das nossas culturas;

– modificam nossos comportamentos expressivos, quer dizer, nossas performances que comunicam aos outros quem somos, o que queremos, o que fazemos em nossos grupos de convívio.

Numa das aulas de Identidade e Cultura em 2014, ofereci um lápis que comprei no Sesc, que adoro porque tem uma borracha na ponta e um desenho maravilhoso de árvores, feito por um artista que gosto muito. Por mais que pareça um simples objeto barato, ele porta inúmeros significados para mim, pois sempre me acompanha nas leituras quando risco meus livros e também me faz lembrar todos os momentos felizes que aprendo e me divirto indo nos Sescs com toda a minha família. Troquei por um creme hidratante tão cheiroso que, se não me engano, foi a Jéssica que trouxe, e que gostei muito pois usá-lo e sentir seu aroma representa um momento de cuidado, de prazer, de bem-estar, coisa que parece ser tão difícil de ser oferecida ao outro no espaço universitário no qual nos encontramos.

Observamos e aprendemos com tantos objetos e habilidades trocados, com tanto entusiasmo, curiosidade, alegria e abertura para tentar entender como é que uma oficina prática pode nos ajudar a aprender novos conceitos tão sofisticados de cultura, performance, subjetividade, performance e identidade, além de outros tão falados e pouco praticados, tais como: cooperação, doação, coragem, iniciativa, criatividade… etc. etc. etc.

O que você trouxe para trocar? O que aquele objeto ou habilidade significou ou significa para você? O que você trocou e por que? O que você mais gostou e não gostou nessa nossa oficina? Como o que fizemos pode se relacionar com as leituras que foram indicadas? E como pode se relacionar com o que você pode expressar no seu blog sobre suas impressões, suas ideias, seus aprendizados e sobre seu tema de pesquisa?

A oficina do Clube de Trocas UFABC é permanente e acontecerá em todas as outras aulas de Identidade e Cultura, constituindo-se num projeto coletivo com o qual você pode colaborar e, inclusive, administrar, como parte das suas atividades do quadrimestre, que poderão ser consideradas em sua auto-avaliação. Participe!

trocastempotodo

Primeiras aulas de Identidade e Cultura em maio de 2015

26/05 – Aula 1

Na primeira aula, foi feita a apresentação da disciplina, com o debate sobre as seguintes palavras-chave, fundamentos básicos dos estudos e das práticas deste quadrimestre.

Identidades: sentidos de pertencimento e de localização no tempo e no espaço e em referência a um ou vários grupos.

Subjetividades: mundo íntimo de cada ser humano infinito, inexplicável e intraduzível.

Cultura: modo de vida (costumes, hábitos, saberes e fazeres de pessoas, grupos, povos) e, especialmente, capacidade dos seres humanos de produzirem, criarem, transformarem significados sobre o mundo que os rodeia.

Alteridade: capacidade de reconhecimento do outro, necessária para a construção dos sujeitos com suas próprias identidades, subjetividades, culturas.

Performance: comportamentos expressivos dos sujeitos e grupos, por meio dos quais as identidades são interpretadas, apresentadas, ou seja, performatizadas. Abarcam gestos, expressões corporais, linguagens, vestimentas e outros artefatos aos quais atribuímos significados e colocamos em circulação para realizar trocas interculturais.

A partir dessas palavras-chave, os estudantes são convocados a trabalhar na produção do seu próprio Blog-Projeto, organizando-o como um diário, um memorial das reflexões, ideias e discussões que surgem nas aulas e na sua observação da realidade. Cada estudante precisa também escolher um tema de pesquisa e reunir referências básicas sobre o mesmo (links, artigos, livros, vídeos, filmes, músicas, entrevistas, etc.).

A próxima aula será feita a partir dos blogs individuais recém-criados e dos temas de pesquisa escolhidos. Os estudantes também foram convocados  a se cadastrar no Tidia (IdentidadeCultura15) para que a atividade de educação a distância seja reconhecida pela UFABC na plataforma digital oficialmente adotada.

“O negócio é você fazer.”

“Quem tá desempregado tá procurando serviço no lugar errado.”

“Procurar onde? Dentro de você.”

(Hélio Leites, artista popular)

28/05 – Aula 2

chavefelicidade

Nesta aula, perguntamos se vocês começaram a fazer o seu diário/blog, contendo suas percepções sobre a primeira aula, as palavras-chave que foram abordadas e a observação do seu próprio cotidiano a partir delas. E também se vocês já tinham escolhido seu tema de pesquisa para eventualmente construir um projeto. Foi perguntado também se vocês se cadastraram no Tidia para postar as atividades necessárias à validação das atividades de educação a distância na plataforma oficial da UFABC.

Observamos que poucas pessoas tem a iniciativa de construir o seu blog e muitos ainda não se cadastram no Tidia, ou mesmo tomado a iniciativa de conhecer as leituras que estão disponíveis no seu repositório ou na Biblioteca do blog da disciplina, para começar a fazer seus estudos e suas próprias escolhas, construindo sua autonomia e tentando apreender uma certa possibilidade de visão crítica das suas próprias identidades sobrepostas, suas subjetividades constantemente agenciadas pelo consumo e pelo conservadorismo das Ciências Modernas no ambiente universitário disciplinar e disciplinador.

No entanto, alguns estudantes sempre começam a levantar aspectos interessantes de suas próprias culturas, tanto como modo de vida quanto como processos de (des)construção de significados. Alguns poucos e ousados falam de um novo olhar sobre sua própria família, o ambiente universitário, suas relações de amizade e as mudanças pelas quais estão passando com a vida na Universidade.

Em geral, nas aulas de Identidade e Cultura são levantados temas como, por exemplo, diversidades culturais; relações intergeracionais; ligações entre corpo, aparência e consumo; preconceitos étnico-raciais e de gênero; grupos juvenis ou “tribos” urbanas; torcidas e pessoas de diferentes países no contexto da copa do mundo; identidades nacionais como uma construção cultural a ser analisada; formas de pensar sobre o mundo e racionalidades possíveis; ligações entre pensamento, razão e emoção para se construir como sujeito autônomo e criativo.

Nas turmas, falei do Clifford Geertz e sua definição de cultura no livro A interpretação das Culturas, ressaltando a capacidade humana de construir e transformar significados no mundo, provocando assim grandes transformações na organização social e no comportamento das pessoas. Também mencionei em alguma turma as visões de história tão diferentes do famoso Capitão Cook e seu grupo de colonizadores ocidentais e dos havaianos, que foram abordados no livro Ilhas de História (disponíveis na Biblioteca do blog da disciplina).

Além disso, em uma das turmas falei do Gilles Deleuze, do Michel Foucault e do Félix Guattari, estudiosos franceses que trouxeram importantes reflexões sobre a nossa cultura contemporânea ocidental, suas racionalidades e formas de organização que uniram ciência e tecnologia no que atualmente se denomina de sociedade tecnocientífica, com impactos sobre o meio-ambiente e as diversidades culturais, as formas de vida e de pensamento de outros povos diferentes dos da chamada civilização ocidental.

Por isso, coloco aqui o link de uma Aula 2 de Ciência, Tecnologia e Sociedade, que contém conceitos e questões que igualmente podem ajudar os estudantes de Identidade e Cultura a expressarem suas identidades, subjetividades, culturas, performances para construir seu blog, com registros sobre a observação do seu cotidiano, suas impressões e ideias que surgem nas aulas, além de encontrar um tema de pesquisa para um eventual desdobramento.

http://cienciastecnologiassociedades.wordpress.com/2014/06/29/aula-2/

Aula 2, de CTS:

Nesta aula, os estudantes tiveram a oportunidade de acompanhar a leitura e debater acerca do texto clássico de um famoso filósofo francês do século vinte: DELEUZE, Gilles. “Post-Scriptum sobre as sociedades de controle”. Conversações 1972-1990. RJ: Ed. 34, 1992, pp. 219-226.

Disponível em:

DELEUZE, Gilles. Post-scriptum sobre as sociedades de controle

No texto, Gilles Deleuze dialoga com outro grande historiador e filósofo francês, Michel Foucault. Nossa sociedade moderna e capitalista é analisada a partir dos conceitos de sociedade disciplinar (Michel Foucault) e sociedade de controle (Gilles Deleuze). Para Foucault, a sociedade disciplinar é, por excelência, a sociedade ocidental moderna que constitui o Estado Moderno, sob o qual boa parte da humanidade vive até hoje. Para a constituição e eficácia do Estado Moderno, foram criadas instituições tais como, por exemplo, a família, a escola, a caserna (forças armadas), a fábrica, o hospital e o hospício. Os sujeitos, ao longo de suas vidas, podem transitar entre essas instituições que utilizam o conhecimento científico e suas várias especialidades (Ciência Moderna) e as tecnologias que foram criadas a partir dele para disciplinar os corpos e domesticar as mentes, garantindo a ordem e, acima de tudo, a produtividade que gera lucros apropriados por poucos a custa do trabalho de muitos. O Estado, visto dessa forma, não é neutro, muito menos as ciências e as tecnologias. Ele está apropriado por grupos minoritários de elite, que detém o poder político e econômico e que, sem muitas vezes nem se dar conta, o utilizam em nome de uma maioria para submetê-la e discipliná-la. Essas análises possuem uma visão crítica da sociedade industrial e da forma como esta naturalizou desigualdades e justificou uma certa maneira dos seres humanos dominarem uns aos outros e à natureza, que são históricas e nada naturais e, portanto, podem ser problematizadas, questionadas, transformadas.

Para Gilles Deleuze, atualmente vivemos um híbrido, uma mistura de organização dos grupos humanos entre a sociedade disciplinar e o que ele denomina de sociedade de controle. A disciplina não está mais apenas nas instituições, nos chefes, nas normas impostas pelo Estado Moderno e suas instituições. A disciplina se transformou em controle e auto-controle, e está principalmente dentro de cada indivíduo, que a incorpora. O controle e auto-controle é muito mais sutil e eficaz como forma de disciplinarização dos sujeitos que se submetem por vontade própria, sendo seu próprio chefe e, por inúmeras vezes, carrasco e algoz. O espírito de competividade e de vigilância de si mesmo e do outro mais próximo impera e os conhecimentos científicos e tecnológicos que hibridizam e configuram o que se chama na contemporaneidade de sociedade tecnocientífica. Vivemos num contexto que, para Deleuze, precisa ser problematizado, pois as tecnologias digitais como as da informática e o desenvolvimento dos meios de comunicação e informação estão à serviço do controle e da vigilância contínua dos sujeitos para trabalharem não mais na fábrica da sociedade industrial, na qual os operários tinham um chefe e um patrão para dominá-los, mas sim na “empresa”, que pode ser desterritorializada, em qualquer país ou na cabeça ou casa de cada um, característica da sociedade pós-industrial, do capitalismo financeiro, com seus donos acionistas invisíveis, que cobram sutilmente metas, produtividade, competitividade. Segundo este filósofo, ao invés de se perceberem como hiper-explorados e muitas vezes despidos da possibilidade de fazer suas próprias escolhas, gerir seu tempo livre, ter autonomia, muitos jovens estudantes estão pedindo por mais formações estágios que os capacitem a se tornaram a alma da “empresa”, mais competitivos e supostamente mais bem-sucedidos.

Perguntamos, nesta aula:

As tecnociências, tal como nos são ensinadas, impostas e naturalizadas em instituições disciplinares como a universidade – filha rica e bem-comportada da sociedade de controle hibridizada com a sociedade disciplinar – interessam, de fato, ao bem-estar da maioria dos sujeitos?

Se os conhecimentos científicos cada vez mais misturados com as tecnologias não são neutros nem estão disponíveis igualmente ao bem-estar da maioria das pessoas, como podemos problematizá-los no espaço acadêmico, buscando construir outros conhecimentos e tecnologias, bem como outras formas de apropriação desses saberes que sejam menos autoritários e exploradores dos sujeitos e destruidores do próprio ambiente que nos rodeia?

Como desnaturalizar, mostrar os interesses, as origens e os usos de determinados discursos sobre as ciências e tecnologias que parecem visar nossa “boa” formação humana e profissional mas que, de fato, nos transformam em peças descartáveis de reposição na lógica de produtividade capitalista para o lucro de poucos na sociedade (pós)industrial?

Como construir um auto-conhecimento, uma autonomia, uma criatividade individuais e coletivos capazes de gerarem outras formas de organizar a própria vida pessoal, se realizar profissionalmente de forma colaborativa com pessoas e gerações diferentes das nossas, e também aprender a ter uma visão crítica dos limites dos conhecimentos tecnocientíficos em curso, seus usos em prol de poucos, sua posição de agente principal na destruição do meio-ambiente e de qualidade de vida das pessoas por todo o mundo?

É possível viver de outro modo no contexto capitalista atual, em que o psicanalista Félix Guattari – parceiro de estudos de Gilles Deleuze – denominou como tipicamente esquizofrênico, no qual nossas atitudes cotidianas nos estudos, no mundo do trabalho e do consumo são agenciadas pelo marketing das “empresas” e dos donos do capitalismo financeiro e que nos fazem cair em contradição permanente com sentidos básicos de vida em comum, respeito ao outro, preservação do nosso próprio meio-ambiente, pondo em risco nossa saúde, o convívio de humanos em busca de felicidade e, sobretudo, os recursos naturais básicos para a vida das futuras gerações?

Além do texto provocativo de Gilles Deleuze, também foi distribuída na aula, para cada estudante a Revista E, do Sesc, com matéria interessante acerca da fotografia (uma tecnologia fundamental da contemporaneidade, seja no conhecimento científico, na vida cotidiana, nas artes, e também contendo dois artigos com olhares interdisciplinares sobre um exemplo de tema interessante que pode ser trabalhado em CTS: o carrocentrismo.

E você? Já abriu seu blog e se cadastrou no Tidia? Como as aulas, reflexões, temas e materiais das duas primeiras aulas podem contribuir com uma escrita pessoal que se inspire observando sua própria realidade, repassando suas próprias experiências a luz de novos conceitos e possibilitando ideias interessantes para seu tema de pesquisa? Além de suas impressões sobre as aulas e suas reflexões sobre seu cotidiano, seu blog precisa conter a escolha de um ou mais temas sobre o qual você precisa organizar documentos pesquisados, tais como livros, artigos, filmes, vídeos, músicas, fotografias já existentes e que também você mesmo comece a produzir sobre o tema.

Bom trabalho e até a próxima aula…

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FAQ – Dúvidas sobre o que fazer é o que é sua auto-avaliação (sempre em atualização!)

Por favor, leia antes de concluir sua auto-avaliação e tentar encaminhá-la ou enviar uma pergunta por e-mail e/ou facebook! Sua resposta pode estar aqui:

Estudantes perguntam: Escrevi minha auto-avaliação on line, que era um texto sobre vários assuntos, porém esqueci de copiar, então o Tidia fechou pedindo senha/login novamente e perdi tudo. E agora?

Reposta: Faça e salve sua auto-avaliação off line, fora do ambiente do Tidia e depois copie na tela da atividade ou anexe um arquivo. Todos os que submeteram auto-avaliações, devido a ampliação dos prazos, podem também refazer e repostar nesse prazo maior. Assim todos têm chances de revisar e ampliar o que já foi feito, seja nesse prazo ou em outro maior, caso necessitem, o que poderá ser negociado por e-mail. Bom trabalho!!

Estudantes perguntam: Submeti a auto-avaliação dentro do prazo, mas ela foi devolvida. O que aconteceu e o que faço?

Resposta: A atividade foi devolvida porque, como os prazos foram ampliados, devido a inúmeras solicitações, era esse o recurso disponibilizado pelo Tidia para mostrar que seu prazo também ampliou e você também pode repostá-la, se quiser. O objetivo é ser justo com todos, pois mesmo os poucos que postaram, podem ter igualmente a oportunidade de revisar e ampliar seu trabalho e repostar, certo?

Espero que tenha esclarecido o que ocorreu e que você possa aproveitar a oportunidade da melhor maneira possível. Bom final de quadrimestre!

Estudantes perguntam: Eu submeti, além das outras atividades, a auto-avaliação, mas não deu certo. O que faço?

Resposta: As outras atividades eram basicamente para que você começasse a fazer seu trabalho e colocasse os links do seu blog individual e do seu grupo. Seus links precisam ser acrescentados na auto-avaliação, então serão considerados, independente das outras atividades. Caso você tenha tentado postar sua auto-avaliação e não tenha dado certo, tente novamente até o prazo final (12 e 15 de setembro) e, caso não consiga, envie por e-mail (andrea.santos@ufabc.edu.br). Boas tentativas!

Estudantes perguntam: Meu blog não ficou tão completo quanto eu gostaria e não consegui ler, ver filmes e pesquisar mais a fundo sobre o tema que escolhi. No meio do quadrimestre percebi que podia ter escolhido outro tema. Posso, na auto-avaliação, escrever tudo o que aconteceu e porque não consegui fazer um trabalho mais completo e colocar o conceito I no final, e depois mudar de tema e começar tudo de novo?

Resposta: Você pode escrever tudo o que fez, sem apagar porque mudou de tema! A ideia é que possa observar as idas e vindas do seu processo, que não tem um caminho linear. Pode optar pelo conceito I e ter mais tempo para desenvolver o caminho que gostou mais e ter orgulho e satisfação maior, com o que fez, além de auto-conhecimento sobre seu processo, certo?  E quando considerar que seu processo pode ter um desfecho, envie por e-mail o final da auto-avaliação com link do blog atualizado e conceito para ser alterado junto à Prograd, o que pode ser feito até o final do próximo quadrimestre!

Estudantes perguntam: Agora que vi o roteiro para auto-avaliação e estou vendo que fazer uma auto-avaliação não é tão fácil quanto pensei e obter esse A vai dar muito trabalho, pois as únicas atividades que fiz foi posts no blog, de notícias copiadas sem comentários ou reflexões com leitura de alguns dos textos da disciplina. Posso escrever isso na auto-avaliação e encerrar o processo, reduzindo meu conceito para C?

Resposta: Se você ficou nessa turma e se inscreveu no Tidia, teve a oportunidade de conhecer, desde o início do quadrimestre, o tipo de trabalho que foi proposto e ter optado até por sair e se matricular em outra turma, com outra metodologia, caso não achasse interessante ou considerasse muito dificil fazê-lo, pois tudo estava postado e explicado desde o início.

No entanto, considerando eventuais dificuldades que qualquer estudante pode se deparar durante o processo, como educadora responsável pela disciplina, posso, ao invés de reprovar, observar que você não conseguiu fazer, mas ainda pode ter a oportunidade de reconsiderar seu processo, e pode até mesmo ter mais um quadrimestre para isso, como escrevi, e então seu conceito, por enquanto, é I – incompleto, que pode ser alterado posteriormente, quando for feito o trabalho proposto. Como não há impacto no CR, você também pode simplesmente ignorar essa oportunidade e se matricular novamente na disciplina com outro professor e metodologia que considere melhor para o seu perfil.

No entanto, se você quer obter um conceito apenas para a aprovação, independente de qual for, existe uma proposta teórica e metodológica de trabalho acadêmico e não uma pura e simples negociação de conceitos para se livrar do que foi proposto, pois se agirmos assim esbarramos num problema ético profissional, que nos dá a oportunidade de, ao invés de punir ou “diminuir nota”, construir um aprendizado importante para um futuro profissional, e é por isso também que essas disciplinas da área de Humanas, às vezes tão desvalorizadas, constam da sua formação: para antecipar problemas e situações que você poderá enfrentar em sua vida profissional e dar a chance de se reposicionar, oportunidade que nem sempre será dada durante sua carreira.

Sendo assim, por favor, oriento que reescreva sua auto-avaliação honestamente, como começou a fazer agora, reconhecendo qual é a sua condição; qual foi sua participação ou porque ela não aconteceu; porque o seu primeiro foco para se auto-avaliar foi numa abordagem superficial de um tema de pesquisa que você teve a chance de escolher livremente e, portanto, poderia ter se dedicado melhor e mais intensamente a ele; o que aconteceu com a sua participação em grupo, que foi outra condição acordada pelos participantes da disciplina, por que houve/está havendo seu desinteresse e/ou sua impossibilidade em encarar essas dificuldades e problemas que foram colocados para sua formação acadêmica nesse momento da sua vida, mesmo com prazos ampliados; como esse tipo de auto-conhecimento pode ou não contribuir e quais perspectivas você pode visualizar para enfrentar essa situação em melhores condições futuramente; que relação isso pode ter com a carreira/curso que você pretende seguir e como você avaliaria honestamente um profissional ou futuro profissional que agisse da forma como está agindo agora.

Outra possibilidade de reflexão individual também é considerar que impacto esse nosso debate pode ter na sua formação profissional, pois poderia até pesquisar, comparar, traçar hipóteses sobre como seria a reação no seu ambiente de trabalho, como um futuro profissional, se fosse chamado a fazer esse tipo de atividades e a desenvolver habilidades que ainda não conseguiu construir plenamente (pesquisar, se expressar, criar, trabalhar em grupo, se auto-avaliar apresentando suas limitações e potencialidades) e se recusasse a fazer isso por considerar muito difícil e/ou trabalhoso.

Enfim, ao fazer uma auto-avaliação o foco é você, sua trajetória, e o tema de pesquisa é apenas mais uma ferramenta para isso, que pode ser também um conhecimento público a ser criado e disponibilizado para outros interessados, dando um retorno para a sociedade que investe na sua educação pública. Se você conseguir fazer isso, o conceito é apenas uma convenção, um detalhe, e você pode pleitear o que quiser, pois o que terá conseguido apresentar será muito mais valioso do que imagina, embora possa não parecer assim para você nesse momento. O mais importante nesse processo é ser honesto consigo mesmo e com quem você estabeleceu um acordo para desenvolver um processo de trabalho. Se os resultados de uma auto-crítica sincera podem não lhe parecer tão bons, o fantástico será o fato de ter sido capaz de fazer isso, o que aponta para um amadurecimento como ser humano e, evidentemente, para uma formação profissional mais complexa e de acordo com a realidade vivida.

Espero ter conseguido explicar quais são suas possibilidades de desfecho desse processo sempre educativo e desejo que faça boas escolhas e um bom trabalho, onde quer que se proponha a fazer algo. Atenciosamente, Andrea Paula