2/6 – Aula 3

2/6 – Aula 3

Nesta aula, costumamos fazer uma reflexão importante sobre a necessidade de questionarmos os fundamentos que foram ensinados para muitas pessoas na educação básica, que vão na contramão de todas as transformações da educação contemporânea que ocorreram, pelo menos, desde o início do século vinte.

Tais fundamentos advindos de concepções ultrapassadas de ensino, existentes na educação básica ora como um currículo explícito, ora como um currículo oculto e disfarçado pelos supostos conteúdos das disciplinas especializadas da Ciência Moderna, são:

– aprender a decorar;

– aprender a copiar;

-aprender a obedecer;

– aprender a (in)tolerar e/ou competir.

Tais fundamentos que aprendemos mesmo sem querer, forjaram nossa construção como sujeitos com determinadas identidades, subjetividades, culturas e performances que, atualmente, nos colocam diante do enorme desafio de transformar posturas passivas diante das aulas, encarando com outro olhar, disposição e ânimo as atividades de aprendizagem, pesquisa e criação e de outras formas de pensar e reinventar conhecimentos e saberes.

Expresso, como contraponto, alguns fundamentos básicos da educação contemporânea que, inclusive, são debatidos até mesmo nos Parâmetros Curriculares Nacionais:

– aprender a aprender;

– aprender a fazer;

– aprender a ser;

– aprender a compreender e cooperar.

Desde aulas anteriores, debatemos como é possível hoje que a educação, em todos os níveis, possa ser o espaço dessa transformação de fundamentos básicos, dando outro carater à formação básica e profissional.

Propomos uma abertura para esses fundamentos e convocamos as turmas a relacionar teoria e prática em Identidade e Cultura para modificar a própria percepção de identidades, subjetividades, culturas e performances que temos diante de nós.

Discutimos novamente os conceitos de identidade, como sentido de pertencimento e de localização no tempo e no espaço, e de cultura, como capacidade dos seres humanos e grupos sociais construírem e desconstruírem significados, indicando novamente as leituras atentas de Clifford Geertz e Marshall Sahlins, cujos livros inteiros foram disponibilizados em aula anterior.

E realizamos uma primeira oficina em torno do nosso Clube de Trocas.

Além desse blog no link acima, tem a página no facebook do Clube de Trocas UFABC.

A atividade reflexiva e lúdica sempre foi possível em Identidade e Cultura graças à contribuição dos estudantes que tomaram a atitude fantástica e inusitada para uma aula costumeira de trazer objetos os mais variados e serviços/habilidades para trocar.

A cada objeto ou habilidade que trocamos, aprendemos um pouco sobre como tudo o que colocamos em circulação para trocar potenciamente:

– constrói nossas identidades;

– faz parte dos nossos mundos íntimos, ou seja, das nossas subjetividades;

– comporta a atribuição de inúmeros significados diferentes, ou seja, são pontos de apoio para a transformação permanente das nossas culturas;

– modificam nossos comportamentos expressivos, quer dizer, nossas performances que comunicam aos outros quem somos, o que queremos, o que fazemos em nossos grupos de convívio.

Numa das aulas de Identidade e Cultura em 2014, ofereci um lápis que comprei no Sesc, que adoro porque tem uma borracha na ponta e um desenho maravilhoso de árvores, feito por um artista que gosto muito. Por mais que pareça um simples objeto barato, ele porta inúmeros significados para mim, pois sempre me acompanha nas leituras quando risco meus livros e também me faz lembrar todos os momentos felizes que aprendo e me divirto indo nos Sescs com toda a minha família. Troquei por um creme hidratante tão cheiroso que, se não me engano, foi a Jéssica que trouxe, e que gostei muito pois usá-lo e sentir seu aroma representa um momento de cuidado, de prazer, de bem-estar, coisa que parece ser tão difícil de ser oferecida ao outro no espaço universitário no qual nos encontramos.

Observamos e aprendemos com tantos objetos e habilidades trocados, com tanto entusiasmo, curiosidade, alegria e abertura para tentar entender como é que uma oficina prática pode nos ajudar a aprender novos conceitos tão sofisticados de cultura, performance, subjetividade, performance e identidade, além de outros tão falados e pouco praticados, tais como: cooperação, doação, coragem, iniciativa, criatividade… etc. etc. etc.

O que você trouxe para trocar? O que aquele objeto ou habilidade significou ou significa para você? O que você trocou e por que? O que você mais gostou e não gostou nessa nossa oficina? Como o que fizemos pode se relacionar com as leituras que foram indicadas? E como pode se relacionar com o que você pode expressar no seu blog sobre suas impressões, suas ideias, seus aprendizados e sobre seu tema de pesquisa?

A oficina do Clube de Trocas UFABC é permanente e acontecerá em todas as outras aulas de Identidade e Cultura, constituindo-se num projeto coletivo com o qual você pode colaborar e, inclusive, administrar, como parte das suas atividades do quadrimestre, que poderão ser consideradas em sua auto-avaliação. Participe!

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Primeiras aulas de Identidade e Cultura em maio de 2015

26/05 – Aula 1

Na primeira aula, foi feita a apresentação da disciplina, com o debate sobre as seguintes palavras-chave, fundamentos básicos dos estudos e das práticas deste quadrimestre.

Identidades: sentidos de pertencimento e de localização no tempo e no espaço e em referência a um ou vários grupos.

Subjetividades: mundo íntimo de cada ser humano infinito, inexplicável e intraduzível.

Cultura: modo de vida (costumes, hábitos, saberes e fazeres de pessoas, grupos, povos) e, especialmente, capacidade dos seres humanos de produzirem, criarem, transformarem significados sobre o mundo que os rodeia.

Alteridade: capacidade de reconhecimento do outro, necessária para a construção dos sujeitos com suas próprias identidades, subjetividades, culturas.

Performance: comportamentos expressivos dos sujeitos e grupos, por meio dos quais as identidades são interpretadas, apresentadas, ou seja, performatizadas. Abarcam gestos, expressões corporais, linguagens, vestimentas e outros artefatos aos quais atribuímos significados e colocamos em circulação para realizar trocas interculturais.

A partir dessas palavras-chave, os estudantes são convocados a trabalhar na produção do seu próprio Blog-Projeto, organizando-o como um diário, um memorial das reflexões, ideias e discussões que surgem nas aulas e na sua observação da realidade. Cada estudante precisa também escolher um tema de pesquisa e reunir referências básicas sobre o mesmo (links, artigos, livros, vídeos, filmes, músicas, entrevistas, etc.).

A próxima aula será feita a partir dos blogs individuais recém-criados e dos temas de pesquisa escolhidos. Os estudantes também foram convocados  a se cadastrar no Tidia (IdentidadeCultura15) para que a atividade de educação a distância seja reconhecida pela UFABC na plataforma digital oficialmente adotada.

“O negócio é você fazer.”

“Quem tá desempregado tá procurando serviço no lugar errado.”

“Procurar onde? Dentro de você.”

(Hélio Leites, artista popular)

28/05 – Aula 2

chavefelicidade

Nesta aula, perguntamos se vocês começaram a fazer o seu diário/blog, contendo suas percepções sobre a primeira aula, as palavras-chave que foram abordadas e a observação do seu próprio cotidiano a partir delas. E também se vocês já tinham escolhido seu tema de pesquisa para eventualmente construir um projeto. Foi perguntado também se vocês se cadastraram no Tidia para postar as atividades necessárias à validação das atividades de educação a distância na plataforma oficial da UFABC.

Observamos que poucas pessoas tem a iniciativa de construir o seu blog e muitos ainda não se cadastram no Tidia, ou mesmo tomado a iniciativa de conhecer as leituras que estão disponíveis no seu repositório ou na Biblioteca do blog da disciplina, para começar a fazer seus estudos e suas próprias escolhas, construindo sua autonomia e tentando apreender uma certa possibilidade de visão crítica das suas próprias identidades sobrepostas, suas subjetividades constantemente agenciadas pelo consumo e pelo conservadorismo das Ciências Modernas no ambiente universitário disciplinar e disciplinador.

No entanto, alguns estudantes sempre começam a levantar aspectos interessantes de suas próprias culturas, tanto como modo de vida quanto como processos de (des)construção de significados. Alguns poucos e ousados falam de um novo olhar sobre sua própria família, o ambiente universitário, suas relações de amizade e as mudanças pelas quais estão passando com a vida na Universidade.

Em geral, nas aulas de Identidade e Cultura são levantados temas como, por exemplo, diversidades culturais; relações intergeracionais; ligações entre corpo, aparência e consumo; preconceitos étnico-raciais e de gênero; grupos juvenis ou “tribos” urbanas; torcidas e pessoas de diferentes países no contexto da copa do mundo; identidades nacionais como uma construção cultural a ser analisada; formas de pensar sobre o mundo e racionalidades possíveis; ligações entre pensamento, razão e emoção para se construir como sujeito autônomo e criativo.

Nas turmas, falei do Clifford Geertz e sua definição de cultura no livro A interpretação das Culturas, ressaltando a capacidade humana de construir e transformar significados no mundo, provocando assim grandes transformações na organização social e no comportamento das pessoas. Também mencionei em alguma turma as visões de história tão diferentes do famoso Capitão Cook e seu grupo de colonizadores ocidentais e dos havaianos, que foram abordados no livro Ilhas de História (disponíveis na Biblioteca do blog da disciplina).

Além disso, em uma das turmas falei do Gilles Deleuze, do Michel Foucault e do Félix Guattari, estudiosos franceses que trouxeram importantes reflexões sobre a nossa cultura contemporânea ocidental, suas racionalidades e formas de organização que uniram ciência e tecnologia no que atualmente se denomina de sociedade tecnocientífica, com impactos sobre o meio-ambiente e as diversidades culturais, as formas de vida e de pensamento de outros povos diferentes dos da chamada civilização ocidental.

Por isso, coloco aqui o link de uma Aula 2 de Ciência, Tecnologia e Sociedade, que contém conceitos e questões que igualmente podem ajudar os estudantes de Identidade e Cultura a expressarem suas identidades, subjetividades, culturas, performances para construir seu blog, com registros sobre a observação do seu cotidiano, suas impressões e ideias que surgem nas aulas, além de encontrar um tema de pesquisa para um eventual desdobramento.

http://cienciastecnologiassociedades.wordpress.com/2014/06/29/aula-2/

Aula 2, de CTS:

Nesta aula, os estudantes tiveram a oportunidade de acompanhar a leitura e debater acerca do texto clássico de um famoso filósofo francês do século vinte: DELEUZE, Gilles. “Post-Scriptum sobre as sociedades de controle”. Conversações 1972-1990. RJ: Ed. 34, 1992, pp. 219-226.

Disponível em:

DELEUZE, Gilles. Post-scriptum sobre as sociedades de controle

No texto, Gilles Deleuze dialoga com outro grande historiador e filósofo francês, Michel Foucault. Nossa sociedade moderna e capitalista é analisada a partir dos conceitos de sociedade disciplinar (Michel Foucault) e sociedade de controle (Gilles Deleuze). Para Foucault, a sociedade disciplinar é, por excelência, a sociedade ocidental moderna que constitui o Estado Moderno, sob o qual boa parte da humanidade vive até hoje. Para a constituição e eficácia do Estado Moderno, foram criadas instituições tais como, por exemplo, a família, a escola, a caserna (forças armadas), a fábrica, o hospital e o hospício. Os sujeitos, ao longo de suas vidas, podem transitar entre essas instituições que utilizam o conhecimento científico e suas várias especialidades (Ciência Moderna) e as tecnologias que foram criadas a partir dele para disciplinar os corpos e domesticar as mentes, garantindo a ordem e, acima de tudo, a produtividade que gera lucros apropriados por poucos a custa do trabalho de muitos. O Estado, visto dessa forma, não é neutro, muito menos as ciências e as tecnologias. Ele está apropriado por grupos minoritários de elite, que detém o poder político e econômico e que, sem muitas vezes nem se dar conta, o utilizam em nome de uma maioria para submetê-la e discipliná-la. Essas análises possuem uma visão crítica da sociedade industrial e da forma como esta naturalizou desigualdades e justificou uma certa maneira dos seres humanos dominarem uns aos outros e à natureza, que são históricas e nada naturais e, portanto, podem ser problematizadas, questionadas, transformadas.

Para Gilles Deleuze, atualmente vivemos um híbrido, uma mistura de organização dos grupos humanos entre a sociedade disciplinar e o que ele denomina de sociedade de controle. A disciplina não está mais apenas nas instituições, nos chefes, nas normas impostas pelo Estado Moderno e suas instituições. A disciplina se transformou em controle e auto-controle, e está principalmente dentro de cada indivíduo, que a incorpora. O controle e auto-controle é muito mais sutil e eficaz como forma de disciplinarização dos sujeitos que se submetem por vontade própria, sendo seu próprio chefe e, por inúmeras vezes, carrasco e algoz. O espírito de competividade e de vigilância de si mesmo e do outro mais próximo impera e os conhecimentos científicos e tecnológicos que hibridizam e configuram o que se chama na contemporaneidade de sociedade tecnocientífica. Vivemos num contexto que, para Deleuze, precisa ser problematizado, pois as tecnologias digitais como as da informática e o desenvolvimento dos meios de comunicação e informação estão à serviço do controle e da vigilância contínua dos sujeitos para trabalharem não mais na fábrica da sociedade industrial, na qual os operários tinham um chefe e um patrão para dominá-los, mas sim na “empresa”, que pode ser desterritorializada, em qualquer país ou na cabeça ou casa de cada um, característica da sociedade pós-industrial, do capitalismo financeiro, com seus donos acionistas invisíveis, que cobram sutilmente metas, produtividade, competitividade. Segundo este filósofo, ao invés de se perceberem como hiper-explorados e muitas vezes despidos da possibilidade de fazer suas próprias escolhas, gerir seu tempo livre, ter autonomia, muitos jovens estudantes estão pedindo por mais formações estágios que os capacitem a se tornaram a alma da “empresa”, mais competitivos e supostamente mais bem-sucedidos.

Perguntamos, nesta aula:

As tecnociências, tal como nos são ensinadas, impostas e naturalizadas em instituições disciplinares como a universidade – filha rica e bem-comportada da sociedade de controle hibridizada com a sociedade disciplinar – interessam, de fato, ao bem-estar da maioria dos sujeitos?

Se os conhecimentos científicos cada vez mais misturados com as tecnologias não são neutros nem estão disponíveis igualmente ao bem-estar da maioria das pessoas, como podemos problematizá-los no espaço acadêmico, buscando construir outros conhecimentos e tecnologias, bem como outras formas de apropriação desses saberes que sejam menos autoritários e exploradores dos sujeitos e destruidores do próprio ambiente que nos rodeia?

Como desnaturalizar, mostrar os interesses, as origens e os usos de determinados discursos sobre as ciências e tecnologias que parecem visar nossa “boa” formação humana e profissional mas que, de fato, nos transformam em peças descartáveis de reposição na lógica de produtividade capitalista para o lucro de poucos na sociedade (pós)industrial?

Como construir um auto-conhecimento, uma autonomia, uma criatividade individuais e coletivos capazes de gerarem outras formas de organizar a própria vida pessoal, se realizar profissionalmente de forma colaborativa com pessoas e gerações diferentes das nossas, e também aprender a ter uma visão crítica dos limites dos conhecimentos tecnocientíficos em curso, seus usos em prol de poucos, sua posição de agente principal na destruição do meio-ambiente e de qualidade de vida das pessoas por todo o mundo?

É possível viver de outro modo no contexto capitalista atual, em que o psicanalista Félix Guattari – parceiro de estudos de Gilles Deleuze – denominou como tipicamente esquizofrênico, no qual nossas atitudes cotidianas nos estudos, no mundo do trabalho e do consumo são agenciadas pelo marketing das “empresas” e dos donos do capitalismo financeiro e que nos fazem cair em contradição permanente com sentidos básicos de vida em comum, respeito ao outro, preservação do nosso próprio meio-ambiente, pondo em risco nossa saúde, o convívio de humanos em busca de felicidade e, sobretudo, os recursos naturais básicos para a vida das futuras gerações?

Além do texto provocativo de Gilles Deleuze, também foi distribuída na aula, para cada estudante a Revista E, do Sesc, com matéria interessante acerca da fotografia (uma tecnologia fundamental da contemporaneidade, seja no conhecimento científico, na vida cotidiana, nas artes, e também contendo dois artigos com olhares interdisciplinares sobre um exemplo de tema interessante que pode ser trabalhado em CTS: o carrocentrismo.

E você? Já abriu seu blog e se cadastrou no Tidia? Como as aulas, reflexões, temas e materiais das duas primeiras aulas podem contribuir com uma escrita pessoal que se inspire observando sua própria realidade, repassando suas próprias experiências a luz de novos conceitos e possibilitando ideias interessantes para seu tema de pesquisa? Além de suas impressões sobre as aulas e suas reflexões sobre seu cotidiano, seu blog precisa conter a escolha de um ou mais temas sobre o qual você precisa organizar documentos pesquisados, tais como livros, artigos, filmes, vídeos, músicas, fotografias já existentes e que também você mesmo comece a produzir sobre o tema.

Bom trabalho e até a próxima aula…

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