2/6 – Aula 3

2/6 – Aula 3

Nesta aula, costumamos fazer uma reflexão importante sobre a necessidade de questionarmos os fundamentos que foram ensinados para muitas pessoas na educação básica, que vão na contramão de todas as transformações da educação contemporânea que ocorreram, pelo menos, desde o início do século vinte.

Tais fundamentos advindos de concepções ultrapassadas de ensino, existentes na educação básica ora como um currículo explícito, ora como um currículo oculto e disfarçado pelos supostos conteúdos das disciplinas especializadas da Ciência Moderna, são:

– aprender a decorar;

– aprender a copiar;

-aprender a obedecer;

– aprender a (in)tolerar e/ou competir.

Tais fundamentos que aprendemos mesmo sem querer, forjaram nossa construção como sujeitos com determinadas identidades, subjetividades, culturas e performances que, atualmente, nos colocam diante do enorme desafio de transformar posturas passivas diante das aulas, encarando com outro olhar, disposição e ânimo as atividades de aprendizagem, pesquisa e criação e de outras formas de pensar e reinventar conhecimentos e saberes.

Expresso, como contraponto, alguns fundamentos básicos da educação contemporânea que, inclusive, são debatidos até mesmo nos Parâmetros Curriculares Nacionais:

– aprender a aprender;

– aprender a fazer;

– aprender a ser;

– aprender a compreender e cooperar.

Desde aulas anteriores, debatemos como é possível hoje que a educação, em todos os níveis, possa ser o espaço dessa transformação de fundamentos básicos, dando outro carater à formação básica e profissional.

Propomos uma abertura para esses fundamentos e convocamos as turmas a relacionar teoria e prática em Identidade e Cultura para modificar a própria percepção de identidades, subjetividades, culturas e performances que temos diante de nós.

Discutimos novamente os conceitos de identidade, como sentido de pertencimento e de localização no tempo e no espaço, e de cultura, como capacidade dos seres humanos e grupos sociais construírem e desconstruírem significados, indicando novamente as leituras atentas de Clifford Geertz e Marshall Sahlins, cujos livros inteiros foram disponibilizados em aula anterior.

E realizamos uma primeira oficina em torno do nosso Clube de Trocas.

Além desse blog no link acima, tem a página no facebook do Clube de Trocas UFABC.

A atividade reflexiva e lúdica sempre foi possível em Identidade e Cultura graças à contribuição dos estudantes que tomaram a atitude fantástica e inusitada para uma aula costumeira de trazer objetos os mais variados e serviços/habilidades para trocar.

A cada objeto ou habilidade que trocamos, aprendemos um pouco sobre como tudo o que colocamos em circulação para trocar potenciamente:

– constrói nossas identidades;

– faz parte dos nossos mundos íntimos, ou seja, das nossas subjetividades;

– comporta a atribuição de inúmeros significados diferentes, ou seja, são pontos de apoio para a transformação permanente das nossas culturas;

– modificam nossos comportamentos expressivos, quer dizer, nossas performances que comunicam aos outros quem somos, o que queremos, o que fazemos em nossos grupos de convívio.

Numa das aulas de Identidade e Cultura em 2014, ofereci um lápis que comprei no Sesc, que adoro porque tem uma borracha na ponta e um desenho maravilhoso de árvores, feito por um artista que gosto muito. Por mais que pareça um simples objeto barato, ele porta inúmeros significados para mim, pois sempre me acompanha nas leituras quando risco meus livros e também me faz lembrar todos os momentos felizes que aprendo e me divirto indo nos Sescs com toda a minha família. Troquei por um creme hidratante tão cheiroso que, se não me engano, foi a Jéssica que trouxe, e que gostei muito pois usá-lo e sentir seu aroma representa um momento de cuidado, de prazer, de bem-estar, coisa que parece ser tão difícil de ser oferecida ao outro no espaço universitário no qual nos encontramos.

Observamos e aprendemos com tantos objetos e habilidades trocados, com tanto entusiasmo, curiosidade, alegria e abertura para tentar entender como é que uma oficina prática pode nos ajudar a aprender novos conceitos tão sofisticados de cultura, performance, subjetividade, performance e identidade, além de outros tão falados e pouco praticados, tais como: cooperação, doação, coragem, iniciativa, criatividade… etc. etc. etc.

O que você trouxe para trocar? O que aquele objeto ou habilidade significou ou significa para você? O que você trocou e por que? O que você mais gostou e não gostou nessa nossa oficina? Como o que fizemos pode se relacionar com as leituras que foram indicadas? E como pode se relacionar com o que você pode expressar no seu blog sobre suas impressões, suas ideias, seus aprendizados e sobre seu tema de pesquisa?

A oficina do Clube de Trocas UFABC é permanente e acontecerá em todas as outras aulas de Identidade e Cultura, constituindo-se num projeto coletivo com o qual você pode colaborar e, inclusive, administrar, como parte das suas atividades do quadrimestre, que poderão ser consideradas em sua auto-avaliação. Participe!

trocastempotodo

Aula 13

Nesta aula distribuímos e comentamos com cada grupo o texto:

 

Algumas noções básicas sobre gênero–  Gênero Plural: resumo de conceitos sobre identidade de gênero e diversidade sexual

 

As questões de gênero e diversidade sexual estão diretamente ligadas às temáticas de direitos humanos, identidade e cultura e dialogam com todos os temas apresentados em blogs individuais e de grupos. Portanto, ao conversar com cada grupo, destacamos a importância de que a produção nos blogs e nos murais, exposições e intervenções que estão sendo apresentados no Espaço de Vivência promovam essa ligação com conceitos e questões que envolvem o combate aos preconceitos e a valorização da diversidade humana.

 

Traga o seu trabalho e o do seu grupo para fazer e apresentar no Espaço de Vivência! Participe do nosso Clube de Trocas! Faltam apenas três semanas para que seja iniciado o processo de auto-avaliação individual e contamos com o desenvolvimento dos processos de trabalho nesse mês de agosto para que ocorra o desfecho das criações coletivas em Identidade e Cultura: bom trabalho nessa reta final!

Aula 12

Nesta aula, distribuímos e comentamos o livro “Identidade”, de Zygmunt Bauman:

Identidade

 

A identidade, como sentido de pertencimento e de localização no tempo e no espaço, pode parecer que é algo muito palpável, fixo e objetivo. Porém, o famoso sociólogo nos alerta que no contexto atual do capitalismo tardio, vivemos o que ele denomina de modernidade líquida, na qual qualquer busca por uma identidade estável dentro de uma comunidade segura é impossível. Isso ocorre por conta da velocidade das transformações, dos excessos de deslocamentos, das fragilidades dos laços humanos, da descartabilidade das relações sociais e dos estilos de vida que são vendidos e consumidos vorazmente.

Nesse sentido, Bauman faz uma crítica de uma visão ingênua de que a contrução de identidades é algo sempre bom, porque ele enfatiza que a busca por um sentido de pertencimento num grupo pode favorecer mais a demarcação de diferenças que sejam transformadas em desigualdades, gerando conflitos e intolerâncias nacionalistas, religiosas, políticas, étnicas, culturais etc.

Leia este e outros livros de Bauman (“Comunidade”, “Modernidade Líquida”, “Medo Líquido”, “Amor Líquido”, “Tempos Líquidos”, “Ensaios sobre o conceito de cultura”…) e faça ligações dessas questões com os temas do seu blog individual e do seu grupo, destacando quando as identidades e as comunidades construídas interferem na definição do que são os sujeitos e os grupos sociais na contemporaneidade.

concreta moderno

Fonte: http://deacordocom.blogspot.com.br/2011/05/o-pensamento-no-brasil.html

 

Aula 11

O texto distribuído e comentado na aula de hoje no Espaço de Vivência foi:

Toxicômanos de identidade, de Suely Rolnik

Toxicômanos de identidade

 

Também falamos do famoso livro de Marc Augé (quem achar em pdf, por favor, compartilhe!),

 

marcaugé

 

NAO LUGARES

INTRODUÇAO A UMA ANTROPOLOGIA DASUPERMODERNIDADE

 

E também do livro de Nestor Garcia Canclini, Consumidores e Cidadãos (se achar em pdf em português, idem!), do qual compartilhamos um capítulo do original em espanhol da nossa Biblioteca:

 

– Capítulo de livro:  Consumidores y ciudadanos. Conflictos multiculturales de la globalización. México, Grijalbo, 1995, pp. 41-55

“El consumo sirve para pensar”

garcia_canclini._el_consumo_sirve_para_pensar

 

canclini consumidorescidadaos

 

Discutimos como identidades e subjetividades constroem e desconstroem territórios. Falamos de como, no contexto da globalização, as identidades são oferecidas como perfis-padrão para serem consumidos e descartados, além de abordar como os estímulos gerados no mundo contemporâneo pela propraganda e todo tipo de mídia são agenciados por nossas subjetividades em crise, em processos complexos.

No que estas questões, e as propostas pelos textos das aulas anteriores, podem se relacionar com o seu trabalho individual e do seu grupo? Façam suas postagens e tragam seus temas em cartazes e intervenções na próxima sexta-feira, para uma primeira rodada de contribuição, crítica e intervenção!

CADÊ O SEU TRABALHO E O DO SEU GRUPO NO ESPAÇO DE VIVÊNCIA???

 

 

 

Imagens de convívio e processos de trabalho na Aula 10

Aula 10

Na aula de hoje, distribuímos e comentamos o artigo “A produção social da identidade e da diferença”, de Tomaz Tadeu da Silva

A produção social da identidade e da diferença

Destacamos que as identidades (sentidos de pertencimento a grupos e de localização no tempo e no espaço) são socialmente construídas não apenas pelo que as pessoas reconhecem que possuem em comum com outras pessoas. As diferenças fazem parte de qualquer processo de construção identitária, pois demarcam, por meio da alteridade, do reconhecimento ou não do outro, o que queremos dizer que somos ou que não somos dentro e fora dos grupos que circulamos.

O problema é quando as diferenças são naturalizadas e transformadas em desigualdades. Pessoas e grupos que marcam diferenças para dizer que são melhores que outros acabam por fomentar desigualdades e dizer que as mesmas são naturais, negando sua construção social. Essas práticas de transformação de diferenças em desigualdades geram inúmeros conflitos, preconceitos e guerras. Diferenças de gênero, sexualidade e orientação sexual; diferenças étnicas; diferenças geracionais; diferenças socioeconômicas; diferenças políticas; diferenças religiosas; entre outras, são constantemente transformadas em desigualdades, em formas de hierarquização, de classificação arbitrária dos sujeitos, e é exatamente isso que estamos criticando nessas aulas de Identidade e Cultura.

Trazemos para reflexão a necessidade de problematizar atitudes preconceituosas de sujeitos e de comunidades que se consideram superiores por algum tipo de diferença e acabam por propor a dominação e a eliminação do outro, justificando injustiças por meio da naturalização de desigualdades que foram inventadas a partir da demarcação de diferenças como desigualdades entre grupos e sujeitos.

Nossas perguntas são: o que essas ideias, críticas e reflexões tem a ver com suas opiniões, observações e análises temáticas no seu blog e no blog do seu grupo?

 

 

 

 

Cultura visual e cultura digital / Interdisciplinaridade e Transdisciplinaridade

cultura digital

Cultura visual e cultura digital

O que se denomina como cultura visual? Por que alguns estudiosos, educadores, artistas, cientistas consideram a cultura visual como típica do nosso tempo? Por que boa parte das pesquisas sobre cultura visual é desenvolvida no campo dos Estudos Culturais, da Semiótica, da Artemídia?

Seguem algumas definições de cultura visual que interessam para se debater fundamentos e temas em Ciência, Tecnologia e Sociedade; Arte, Ciência e Tecnologia e Arte/Educação. Uma definição é mais abrangente: ressalta a diversidade do mundo de imagens, processos de visualização e de modelos de visualidade. Destaca a importância dos modos de ver e da experiência visual como paradigma da nossa época e aborda as representações como práticas de significação. São imagens e mediações que tornam a sociedade possível.

Outra definição é mais restrita: enfatiza a cultura de tempos recentes marcados pela imagem digital e virtual sob domínio da tecnologia. Marca a centralidade do olhar na cultura ocidental e revela o ocularcentrismo como base do pensamento científico ocidental. A visualidade é tratada como ponte entre representação e poder cultural na era da globalização.

Cultura visual, Estudos Visuais, História Visual… destacam que os sentidos/significados não estão investidos nos objetos, mas sim nas relações humanas. A cultura visual é uma produção social e o olhar uma construção cultural. Há interesse nos processos e práticas cotidianas de olhar, de exposição, de significação para além do estudo das imagens (produção, circulação, apropriação). E compreende-se que a experiência visual não se realiza de modo isolado, e a representação visual é parte de um conjunto entrelaçado de práticas e discursos que envolvem outros sentidos da percepção.

Por tudo isso, como podemos notar, seria muito difícil tratar de fundamentos e temáticas em Ciência, Tecnologia e Sociedade sem estudarmos e reconhecermos características básicas do que se denomina de cultura visual.

Por outro lado, hoje vivemos o tempo da cultura digital, que transforma percepções, cognições, representações do real, sociabilidade, modos de vida, culturas, práticas e expressões artísticas e culturais. Mas o que é isso? A cultura digital constituiu-se numa ampla e complexa rede de representações e formas de sociabilidade produzidas em linguagens múltiplas (visual, audiovisual, oral, musical, escrita) que convergem, se misturam, se entrelaçam em redes digitais por meio de tecnologias de informação e comunicação. A expressão mais visível da cultura digital em nosso cotidiano é a internet, porém ela vai muito além, para alguns estudiosos, configurando uma nova maneira de se estabelecer as relações entre sujeitos e grupos sociais, chamada de sociedade em rede, por Manuel Castells.

Os estudos acerca da cultura digital são muito importantes para se pensar fundamentos e temáticas em Ciência, Tecnologia e Sociedade pois, ao conectar tantas pessoas em contextos de diversidade cultural, abrem possibilidades de acesso a informações, de trabalho e de diálogos impensáveis até bem pouco tempo atrás.

O que destacamos, sobretudo, é que a cultura digital favorece para que muita gente possa produzir e não apenas consumir arte e cultura, problematizando as relações e os processos de produção científicos, artísticos e culturais advindos das instituições tradicionais. Esta delimitava fronteiras claras entre cientistas, artistas, outros profissionais (os que criam) e consumidores (os que recebem), relações hierarquizadas que podemos trazer para o campo educacional quando pensávamos em professores como os que ensinam conteúdos, e alunos como os que assimilam conteúdos, por exemplo. Debates importantes para nós incluem as seguintes questões: a cultura digital favorece a criatividade ou a passividade? Ou ambas? A cultura digital permite que tipo de produções e circulações/apropriações de representações, conhecimentos, tecnologias? Como cientistas, artistas, pesquisadores, educadores podem ser produtores e mediadores de conhecimentos no contexto da cultura digital? A cultura digital transforma a cognição e o que é a própria configuração do ser humano, colocando em pauta o chamado pós-humano? Essas questões estão em aberto e nos provocam, porque trazem e trarão muitas reflexões e propostas de trabalho interessantes nos próximos tempos…

Interdisciplinaridade e Transdisciplinaridade

A ciência moderna construiu muitos conhecimentos por meio das áreas disciplinares. Podemos atribuir grande parte do desenvolvimento da sociedade capitalista ao trabalho feito nas especialidades, por cientistas, pesquisadores, artistas, estudiosos.

Sem áreas específicas de saber, como as Artes, a História, as Ciências Sociais, a Medicina, a Matemática, a Química, a Física, a Biologia, por exemplo, talvez não tivéssemos criado tantos conhecimentos que possuem aplicabilidade na vida cotidiana no mundo ocidental.

Porém, esse mesmo desenvolvimento social na modernidade, tornou mais complexa a vida e a organização da sociedade.

Com o tempo, as pessoas formadas em áreas de conhecimento específicas passam a perceber a urgência de se criar ligações entre saberes específicos para conseguir compreender e atuar sobre os problemas do mundo.

Surgem perspectivas interdisciplinares, que buscam tratar temáticas com a contribuição de várias áreas de conhecimento disciplinar, postas lado a lado. As Artes, as Humanidades, as Ciências Naturais e Exatas caminham juntas em projetos de pesquisa, novas formulações teóricas e criações de novos conhecimentos e saberes.

Das práticas interdisciplinares surgem perspectivas transdisciplinares, ou seja, da mistura de saberes especializados criam-se outros novos saberes e campos de conhecimento, que buscam pluralizar pontos de vista, teorias, propostas de estudo, e não aceitam mais hierarquizações que dizem qual ou tal área é mais importante para estudar um tema.

Um exemplo de novo campo de saber que tornou-se área de conhecimento recente são os Estudos Culturais, e alguns acreditam que Arte/Educação e Arte, Ciência e Tecnologia também se configuram de forma transdisciplinar – sem contar inúmeras outras novas áreas de conhecimento no campo das Ciências Exatas e Naturais – como espaço de produções de saberes antes inexistentes, talvez sem condições de serem gerados em uma ou outra especialidade.

Em novas áreas como essas, as Artes, as Humanidades e as Ciências podem então atuar tanto lado a lado quanto atravessar temáticas, questionando fronteiras entre as ciências e seus objetos de estudo. Afinal, artistas podem ser cientistas, educadores, técnicos ou tecnólogos e vice-versa, como sabemos. Mais do que isso, o olhar trazido pelas artes pode trazer outras visões, problemas, dilemas, soluções onde observadores de outras áreas não enxergavam nada ou muito pouco…

Em tais perspectivas de trabalho transdisciplinares, o conhecimento e a compreensão da diversidade cultural é uma das temáticas mais destacadas, com ênfase no reconhecimento de conflitos entre culturas, e na multiplicidade de tecnologias culturais e artísticas que cada sujeito e/ou grupo social cria e utiliza para viver e lidar cotidianamente.

Aula 9

Nesta aula distribuímos e continuamos a comentar acerca do livro: A identidade cultural na pós-modernidade, Stuart Hall

A identidade cultural na pós-modernidade, Stuart Hall

Esse texto é importante para o trabalho individual e de todos os grupos, pois trata da transformação das concepções de sujeito e de identidade, relacionando com nosso contexto atual.

Como esses conceitos e as reflexões de Stuart Hall se relacionam com seu blog e as temáticas do seu grupo?

Também demos continuidade aos processos de trabalho no nosso Espaço de Vivência, com nosso tradicional lanche coletivo e Clube de Trocas UFABC: participe!

Nas próximas aulas, tod@s estão convidados a apresentar seus trabalhos em blog, painéis, varais, cartazes e também a convidar @s colegas para interagir, dar sugestões e ajudar a fazer o desenvolvimento dos processos de trabalho, conforme combinamos…

Até sexta :)))

 

 

 

 

Aula 8

Práticas de organização dos grupos e processos de produção coletiva e apresentação permanente de trabalhos no Espaço de Vivência… Muito obrigada aos participantes de todos os grupos, com a transformação do local graças as atividades, ao lanche compartilhado e ao Clube de Trocas!

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Aula 7

Criação Pós-Moderna

Excelentes artigos publicados na Revista do Sesc (Revista e, no. 190, março/2013), que resumem bem alguns dos conceitos, ideias e práticas que temos debatido em Identidade e Cultura. Qual a relação possível desses debates e contextos históricos, teóricos e metodológicos no seu trabalho de pesquisa? Se não sabe, tente saber… pesquise, pergunte, crie!

Fonte: http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/revistas_link.cfm?Edicao_Id=460&Artigo_ID=6866&IDCategoria=7932&reftype=2

A pós-modernidade ou o tempo do “fim das ideologias” impulsionou a criação de novas metodologias no campo do saber. A ciência clássica foi colocada em xeque por diversos pensadores, que propuseram novas possibilidades de análise dos fenômenos socioculturais. A professora e pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Lucia Santaella e o professor do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) Osvaldo Pessoa Jr. analisam as mudanças desse paradigma científico, apoiados em correntes teóricas contemporâneas.

Há lugar para o novo depois das utopias?

por Lucia Santaella

O novo está ligado às ideias de frescor, novidade, ineditismo e mesmo à ideia de algo que não existia e que, por acaso, inspiração, esforço, intenção ou deliberação, passa a existir. De uns anos para cá, o novo tem estado aliado à palavra “inovação”. Esta, aliás, tornou-se moeda corrente e até palavra de ordem.

Embora possa ser aplicado a outros campos, o termo “inovação” está preferencialmente atado ao campo do empreendedorismo, envolvendo competências tecnológicas, mercadológicas e gerenciais. Especialista no assunto, o site Radar Inovação (Inventta.net) define a inovação como “exploração com sucesso de novas ideias”. Sucesso que, no caso das empresas, significa “aumento de faturamento, acesso a novos mercados, aumento das margens de lucro, entre outros benefícios”. Quando se fala em inovação de produto ou de processo, a inovação é tecnológica. Mas há outros tipos de inovação que se relacionam a “novos mercados, novos modelos de negócio, novos processos e métodos organizacionais. Ou, até mesmo, novas fontes de suprimentos”.

É interessante notar que a ascensão do conceito de “inovação” na área empresarial coincidiu com o crepúsculo do conceito de “novo” no campo da cultura e da arte. Não é novidade para ninguém o papel que a inovação desempenha para manter o capitalismo turbinado. Por que o conceito de novo entrou em declínio na cultura e especialmente na arte não é algo tão evidente. Para tornar isso um pouco mais compreensível este breve artigo está dedicado.

Deve ter sido no Renascimento que começaram a brotar os ideais do novo. Esse período distinguiu-se de retomadas anteriores da antiguidade clássica pela introdução de elementos inovadores que levaram, em particular na pintura, à constituição de um padrão ou modelo estético dominante constituído pelo desenvolvimento da perspectiva monocular altamente realista, pelo tratamento do espaço da pintura como janela e pelo estudo da luz e da sombra.

Esse padrão estético permaneceu durante séculos, com exceção da ousadia de alguns artistas, criadores de linguagem, tais como os espanhóis Velasquez e Goya e os ingleses Constable e Turner, por exemplo. Independentemente do período e lugar em que viveram ou do estilo em que costumam ser identificados, esses artistas foram marcando os séculos, da Renascença ao Modernismo, com invenções e rupturas de padrão que fizeram avançar as linguagens da arte e anteciparam tendências que só viriam se confirmar no Modernismo. Este teve início com os impressionistas para terminar em Piet Mondrian e Jackson Pollock, na primeira metade do século 20.

Impossível separar as propostas estéticas da sequência de “ismos” da arte moderna (cubismo, dadaísmo, surrealismo, construtivismo, suprematismo etc.) do caráter utópico que corria de modo mais ou menos subterrâneo, mais ou menos explícito por todos esses movimentos vanguardistas. As vanguardas eram alimentadas pela impetuosidade heroica do desejo de transformar o mundo, marcá-lo com a insígnia do poder da arte.

Por trás do desfile incessante de “ismos”, aninhava-se a busca por um mais além, busca impulsionada pela aposta no projeto emancipatório da modernidade que queria se ver cumprida. O caráter explícito dessa busca fica evidente na atração dos futuristas pela máquina e pelos ritmos de vida por ela determinados.

Também nas tentativas do construtivismo russo de convergir a arte na vida através de novas formas imaginativas e na busca de um design rigoroso na Bauhaus para tornar a vivência cotidiana mais convidativa. Foi na escola de Bauhaus e na arquitetura modernista que o sonho da arte como condutora privilegiada da vida humana e social alcançou seu ápice, um sonho que recebeu um banho gélido na Segunda Guerra Mundial.

Além disso, o pós-guerra coincidiu com a emergência da indústria cultural que foi levando de roldão todas as crenças de que a arte teria algum poder de transformação sobre as determinações políticas e sociais. Foi também nos anos de 1960, no apogeu da cultura pop, de um lado, e das ironias da arte pop, de outro, que a inflação e a exacerbação crescentemente abrangentes da produção cultural começaram a se fazer sentir, intensificando-se nos anos de 1980, justamente quando se deu a explosão dos debates sobre o pós-moderno, pós-modernismo e pós-modernidade.

Hoje, pode-se perceber que esses debates estavam sinalizando o crescimento da complexidade cultural que foi aumentando na medida mesma em que foram crescendo as mídias, em especial as mídias digitais e a circulação social das linguagens que por elas transitam. É justamente isso que gera a enorme concentração, densidade e abrangência da produção simbólica e intensifica o fluxo veloz de discursos, imagens e sons das mais diversas ordens e origens na configuração do tecido hipercomplexo da cultura nas sociedades atuais. À maior produção soma-se, com a globalização econômica, política e social, a abertura para a cultura do outro, próximo ou distante, levando à mistura e sincretismo das culturas.

Há poucas questões mais controversas do que a questão relativa ao pós-moderno e pós-modernidade. De todo modo, nos anos de 1980, tornou-se evidência incontestável aquilo que apenas se insinuava nos anos de 1960. Entendida inicialmente como um novo estilo na arquitetura e nas artes, a expressão “pós-moderno” também reverberou na dança, música, fotografia, cinema até tomar conta de quase todas as práticas e teorias culturais, alcançando a política e até mesmo as ciências, um verdadeiro cataclismo do qual nem mesmo a matemática se safou.

Em meio a muitas controvérsias, há um ponto para onde a franja diversificada de interpretações converge: a constatação de que, no exaustivo uso do pastiche, das citações, da revisitação muitas vezes paródica dos estilos do passado, num vai e vem espacial e temporal até mesmo atordoante, as práticas culturais e artísticas pós-modernas estão na verdade levando a cabo o questionamento da concepção teleológica do tempo e da história que norteou o projeto da modernidade desde o seu apogeu iluminista. Essa é uma das razões por que a pós-modernidade coincide com o fim das utopias e das altissonantes narrativas científicas legitimadoras.

Isso significa que não há mais lugar para o novo nas culturas contemporâneas? Existe sim, mas ele não é mais entendido do mesmo modo que a modernidade o concebeu, como criação de um indivíduo singular, abençoado pelo dom da genialidade. Já em 1985, Vilém Flusser [1920-1991, filósofo tcheco, naturalizado brasileiro] nos oferecia uma concepção do novo que prenunciava as condições dos dias atuais. Segundo esse autor, “estamos atualmente no limiar de criatividade nova”. Esta não implica mais criar com intuição ou inspiração.

O processo criativo que emerge envolve a telemática (hoje, podemos dizer, sociedade em rede), que permite sintetizar acasos pouco prováveis com acasos ainda menos prováveis. Tal técnica recorre a “eus” artificiais e outros “eus” que processam dados e trocam informações com tamanha rapidez que aumenta a probabilidade de emergirem acasos pouco prováveis. Atualmente a massa de informações disponíveis adquiriu dimensões astronômicas que não cabem mais em memórias individuais, por mais geniais que sejam. Abre-se, assim, um horizonte de criações coletivas, participativas, colaborativas, um coletivo híbrido: a inteligência cada vez mais sofisticada que está nas máquinas colabora e incrementa a inteligência que está no cérebro humano, um cérebro transindividual que pulsa e palpita no mundo físico e no ciberespaço, tudo ao mesmo tempo.

“De uns anos para cá, o novo tem estado aliado à palavra ?“inovação”. Esta, aliás, tornou-se moeda ?corrente e até palavra de ordem.”

Lucia Santaella é professora e pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e livre docente em estudos de comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP)

 

De que maneira pensar o novo?

por Osvaldo Pessoa Jr.

O mundo se transforma em ritmo cada vez mais acelerado, em função do progresso tecnológico e do aumento da população humana na Terra. Não sabemos ao certo aonde isso levará, se devemos ser otimistas ou pessimistas com relação ao futuro que nossos bisnetos viverão.
Como entender esse processo de transformação, e como tentar influenciá-lo? Há diferentes perspectivas de análise, diferentes correntes teóricas ou “paradigmas”, que podem nortear nossa avaliação. Uma divisão em três grandes tradições contemporâneas de pensamento foi feita pelo filósofo e antropólogo tcheco-britânico Ernest Gellner, no seu livro Pós-modernismo, Razão e Religião (1992). Em primeiro lugar, o fundamentalismo associado às grandes religiões, que acredita em uma verdade única, embasada em textos sagrados e na autoridade religiosa. Em segundo lugar, o que pode ser chamado de racionalismo crítico (ou objetivismo, ou modernismo), herdeiro dos ideais iluministas e positivistas de valorização dos métodos e resultados da ciência, que mantém a noção de verdade como correspondência entre a teoria e os fatos, apesar de reconhecer que não há certeza de que a verdade foi atingida (apesar de se acreditar que ela exista). E, em terceiro lugar, as diferentes variedades do relativismo, que abandonam a ideia de uma verdade única, considerando que o conhecimento é construído a partir de um contexto cultural e que, portanto, as verdades são relativas a cada cultura em particular.
Uma articulação bastante influente do relativismo é conhecida como pós-modernismo. O termo foi introduzido em 1975 pelo crítico de arte estadunidense Charles Jencks para designar certas correntes da arte contemporânea. Fora do contexto específico da arte, porém, o termo foi generalizado pelo filósofo francês Jean-François Lyotard, em seu livro A condição pós-moderna (1979). Uma maneira de caracterizar o pós-modernismo é dizer que ele é indefinível, pois ele recusa o uso de “metanarrativas” abrangentes. Apesar da dificuldade de definir o pós-modernismo, podemos delinear algumas teses centrais do movimento, seguindo a análise de Gellner (ele próprio um racionalista crítico):
1) Hermenêutica. Assim como um texto, a realidade envolve significados, e tais significados estão aí para serem interpretados ou desconstruídos, em busca de contradições internas. O mundo seria a totalidade dos significados.
2) Relativismo. Não há verdade única e objetiva: a verdade é esquiva, polimórfica, subjetiva. A noção de “fatos objetivos” do positivismo é insustentável, pois fatos são inseparáveis do observador e da cultura que fornece suas categorias interpretativas.
3) Crítica política. A atribuição de significado a um objeto é sempre acompanhada de um valor, estando assim associada ao exercício de poder, de dominação. A desconstrução de significados é uma arma para a libertação. O modernismo estaria associado ao colonialismo e ao imperialismo; o pós-modernismo ao respeito e igualdade entre culturas. A insistência em uma realidade única e objetiva é um instrumento de dominação.
4) Subjetividade trêmula. Além da perda da objetividade, o próprio sujeito não é mais garantia da certeza (como no Cogito de Descartes ou nas sensações, para os empiristas): a subjetividade também é gerada por significados contraditórios.
5) Estilo polifônico. O estilo de texto é antes dialógico do que lógico. Busca-se não a definição clara dos conceitos, mas a exploração da riqueza dos significados (polissemia). A autoria dos textos tende a ser plural, como na arte da colagem, com citações de diversos autores ou a partir do ponto de vista de diferentes culturas (heteroglossia).
Feita essa breve caracterização do pós-modernismo, buscarei agora explorar uma interessante consequência do relativismo. Trata-se de uma versão modificada do argumento do “peritropê” (virada de mesa), usado por Sócrates no Teeteto, contra o relativismo do sofista Protágoras.
A tese do relativismo afirma que não há uma verdade única a respeito de qualquer questão sobre a natureza, pois a verdade é relativa a um paradigma, a um corpo teórico, a uma cultura. Assim, diferentes teorias terão diferentes verdades a respeito de uma determinada questão, e elas serão igualmente válidas.
Notamos que a tese do relativismo é “metateórica”, pois ela faz uma afirmação a respeito da relação entre uma teoria (digamos uma teoria científica) e a natureza. Ela é uma “teoria sobre teorias”. Ela afirma que uma determinada teoria nunca é a detentora única da verdade, pois outra teoria igualmente válida poderia negar essa verdade, e em última análise não haveria critérios objetivos para determinar qual das duas teorias é a melhor.
Pois bem: será que o relativismo também se estende para a metateoria?
A resposta natural de uma concepção relativista seria dizer que sim, pois, se as verdades da ciência são relativas, as verdades da filosofia também o são. Qual a consequência disso?
A consequência é que outras concepções metateóricas são igualmente válidas ao relativismo. E quais seriam essas concepções metateóricas? Já mencionamos duas delas: o fundamentalismo de base religiosa e o racionalismo crítico. Ora, mas se o racionalismo crítico é válido, então as teorias científicas fazem afirmações verdadeiras a respeito do mundo, e elas podem ser consideradas aproximadamente verdadeiras em um sentido forte, no sentido de que há uma correspondência entre os enunciados da teoria e os fatos do mundo. Ou seja, a verdade sobre a natureza não muda com o tempo: o que muda é a nossa opinião a respeito da verdade.
E agora? Vamos recapitular. Admitimos o relativismo no nível metateórico, pois esta é a posição mais coerente com o espírito do relativismo. Poderíamos ter recusado a extensão do relativismo para a metateoria, o que evitaria as contradições apontadas por Sócrates, mas contradições não assustam as visões pós-modernistas, pelo contrário, elas são bem-vindas (como transparece em seu estilo polifônico). Mas contradições não podem ser simplesmente ignoradas, elas geram consequências, se não em nível lógico, pelo menos em nível pragmático. E que consequências são essas?
A consequência é a necessidade de incorporação das visões racionalistas críticas (e por que não, também, as fundamentalistas) nos debates a respeito das mutações do mundo. Não basta defender teoricamente o pluralismo e ignorá-lo na prática. O respeito ao “outro” envolve trazê-lo para o debate, mesmo que isso envolva riscos, mesmo que posições inaceitáveis tenham que ser escutadas, mesmo que ele seja nosso inimigo.
Só assim pode-se ser um pós-modernista coerente. O relativismo pode ser questionável em nível teórico, mas em nível metateórico ele se chama pluralismo, palavra que rima com democracia.
Enfim, de que maneira pensar o novo? Não sei ao certo, mas o primeiro passo é prestar atenção ao que os especialistas de diferentes correntes estão dizendo. Uma boa introdução ao assunto é o artigo “Humano, pós-humano e transumano”, de Laymert Garcia dos Santos (em Mutações: Ensaios sobre as Novas Configurações do Mundo, organizado por Adauto Novaes, Ed. Sesc/Agir), onde concepções diversas são apresentadas.
O cientista da computação estadunidense Ray Kurzweil, constatando que o ritmo de avanço tecnológico está cada vez mais rápido, prevê para meados do século 21 a ocorrência da “singularidade”, quando a integração homem-máquina transformará a natureza humana (A Era das Máquinas Espirituais, Ed. Aleph, 2007). Críticas a esse cenário são feitas, por exemplo, pelo sociólogo português Hermínio Martins (Experimentum Humanum, Ed. Fino Traço, 2012). Eles representam duas posições éticas distintas a respeito do futuro tecnológico da humanidade.
No Brasil, o otimismo com relação à aproximação da singularidade é representado pelo Instituto de Ética, Racionalidade e Futuro da Humanidade (IERFH). Na minha opinião, um dos pontos mais criticáveis de sua posição é o desejo de prolongar a vida humana para centenas de anos. Claramente, o progresso tecnológico é guiado pelos desejos humanos, mas certos desejos, importantes em nossa história evolutiva, tornam-se despropositados com o avanço da civilização.
Paralelamente aos avanços tecnológicos nas áreas biomédicas e informacionais, creio que uma grande revolução teórica está em gestação, nos estudos científicos de como a mente emerge do cérebro. Essa revolução certamente transformará a maneira como concebemos a nossa individualidade, e isso poderá acabar com nosso desejo infantil de ter uma vida “eterna”. Em suma, o futuro depende não só das possibilidades tecnológicas, mas dos nossos desejos, que poderão ser transformados.

Osvaldo Pessoa Jr. é professor do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e pesquisador da Teoria do Conhecimento e Filosofia da Ciência

“(…), diferentes teorias terão diferentes verdades a respeito de uma determinada questão, e elas serão igualmente válidas.”