9/6 e 11/6 – Aulas 4 e 5

9/6 – Aula 4

Esse memorial de uma aula de CTS dialoga com a de Identidade e Cultura e pode interessar a alguns estudantes mais curiosos:

Apresentamos, nesta aula, para reflexão e ligação com as temáticas de pesquisas dos blogs, o conceito de cultura, do antropólogo estadunidente, professor do MIT, Michael Fischer, cujos capítulos 1 e 2 de seu livro estão disponíveis em nossa Biblioteca, para leitura:

“Cultura é aquele todo relacional, complexo, cujas partes não podem ser modificadas sem afetar as outras partes, mediado por formas simbólicas potentes e poderosas, cujas multiplicidades e cujo caráter performativamente negociado, são transformados por posições alternativas, formas organizacionais e o alavancamento de sistemas simbólicos , assim como pelas novas e emergentes tecnociências, meios de comunicação e relações biotécnicas.

Futuros Antropológicos: Redefinindo a cultura na era tecnológica. RJ: Zahar Ed., 2011, p. 19.

Essa definição de cultura, que é também repleta de hibridismos e interculturalidades, ressalta o impacto das tecnociências em nossa cultura, modificando não apenas nossas formas organizacionais, simbólicas e de comunicação, mas a própria configuração do que entendemos por formas de vida, sem que consigamos mensurar boa parte das consequências das tecnociências em franca aplicação sem reflexão crítica nas nossas sociedades disciplinares/sociedades de controle, conforme tratamos em aulas anteriores, ao falarmos do diálogo entre Gilles Deleuze com as ideias de Michel Foucault. Daí a necessidade da mudança da nossa postura frente aos fundamentos que apontamos no início para que, como estudantes, educadores, cientistas, futuros profissionais de todas as áreas de conhecimento, possamos sempre pensar, criticar e transformar os próprios conhecimentos científicos e tecnologias com os quais temos que trabalhar, com vistas a aprender a reconhecer nossas responsabilidades frente aos impactos das tecnociências.

Também problematizamos o senso comum, já criticado há muito tempo de que as ciências e as tecnologias são neutras. Demos exemplos de como a partir do pós-guerra, na segunda metade do século vinte, houve uma crítica radical quanto aos limites da ciência e da tecnologia por conta da enorme destruição e morte que só foi possível graças aos conhecimentos e práticas científicas e tecnológicas produzidos pelas Ciências Modernas que, infelizmente, serviram de justificativa para um determinado tipo de racionalidade e de usos mortíferos e letais das tecnologias contra seres humanos. Um autor que citamos foi o famoso historiador Eric Hobsbawn e, especificamente, seu livro que é um clássico, uma leitura obrigatória para aqueles que querem entender um pouco da realidade contemporânea, A era dos Extremos: o breve século XX (1914-1991):

“(…) a estranha democratização da guerra. Os conflitos totais viraram ‘guerras populares’, tanto porque os civis e a vida civil se tornaram os alvos estratégicos certos, e às vezes principais, quanto porque em guerras democráticas, como na política democrática, os adversários são naturalmente demonizados para fazê-los devidamente odiosos ou pelo menos desprezíveis. As guerras, [são] conduzidas de ambos os lados por profissionais, e especialistas… (…) …a nova impessoalidade da guerra, que tornava o matar e estropiar uma consequência remota de apertar um botão ou virar uma alavanca. A tecnologia tornava suas vítimas invisíveis…” (pp. 56-57)

Falamos de como a racionalidade científica foi utilizada para criar os campos de concentração, um dos símbolos máximos da barbárie no século vinte, e que teve sua idealização no coração da Europa, onde a Ciência Moderna surgiu e foi glorificada como a rainha que levaria sempre ao progresso da humanidade. Essa mesma racionalidade Ciência Moderna serviu de base aos médicos alemães que torturaram e mataram pessoas presas nos campos de concentração, justificando suas atitudes como “experimento científico”.

Foi assim que expliquei que meu legado, como historiadora, talvez uma “cientista” das humanidades, é fazer a crítica da suposta democratização e neutralidade de certos conhecimentos e práticas ditas científicas e tecnológicas. Nós, mulheres cientistas como eu, a brasileira Lúcia Santaella, e as estadunidenses Sandra Harding e Donna Haraway, sabemos que certos padrões de conhecimento e de ignorância criados pelas Ciências Modernas atingem e conformam objetiva e subjetivamente, e de forma desigual, a vida de homens e mulheres de diferentes regiões e culturas de todo o planeta, beneficiando determinados grupos e excluindo ou eliminando outros, e pondo em questão a própria ideia que temos do que é o humano, a natureza e a ciência como um discurso sobre ambos. De acordo com o sociólogo brasileiro Laymert Garcia dos Santos, vivemos já num contexto demasiadamente pós-humano, sem ao menos nos darmos conta de como as tecnologias são altamente politizadas, com sérios impactos sócio-técnicos da informação digital e genética em nossa vida cotidiana.

Contudo, quero pensar também – de forma quase otimista-pessimista – que a partir do momento no qual vocês, estudantes e futuros profissionais. entram em contato com esses conhecimentos críticos, esse legado crítico também é de vocês e poderá ter grande impacto se souberem relacioná-lo às suas vidas cotidiana e profissional, problematizando suas próprias identidades e subjetividades

Falei da necessidade desse otimismo-pessimista que nos move na sociedade em rede, de Manuel Castells:

“A sociedade em rede, em termos simples, é uma estrutura social baseada em redes operadas por tecnologias de comunicação e informação fundamentadas na microelectrónica e em redes digitais de computadores que geram, processam e distribuem informação a partir de conhecimento acumulado nos nós dessas redes. A rede é a estrutura formal (vide Monge e Contractor, 2004). É um sistema de nós interligados. E os nós são, em linguagem formal, os pontos onde a curva se intersecta a si própria. As redes são estruturas abertas que evoluem acrescentando ou removendo nós de acordo com as mudanças necessárias dos programas que conseguem atingir os objectivos de performance para a rede. Estes programas são decididos socialmente fora da rede mas a partir do momento em que são inscritos na lógica da rede, a rede vai seguir eficientemente essas instruções, acrescentando, apagando e reconfigurando, até que um novo programa substitua ou modifique os códigos que comandam esse sistema operativo.
O que a sociedade em rede é actualmente não pode ser decidido fora da observação empírica da organização social e das práticas que dão corpo à lógica da rede. Assim, irei resumir a essência daquilo que a investigação académica (isto é, a produção de conhecimento reconhecida como tal pela comunidade científica) já descobriu em vários contextos sociais.”
Castells, Manuel. A sociedade em rede: do conhecimento à ação política., p. 20.

Todos vivemos na sociedade em rede, queiramos ou não, conectados ou não, pois a lógica da vida contemporânea é definida por ela e pelos que têm poder para organizá-la, queiramos ou não. Tratamos das ideias de Castells sobre a necessidade de reformar o Estado e refundar a educação, para que a organização da sociedade em rede seja democrática. E nos perguntamos? Isso é possível? Como os conhecimentos científicos e as tecnologias que criamos e usamos no contexto de uma cultura visual e de uma cultura digital podem ter relação com isso?

E falamos também do capitalismo-esquizofrenia, que aprendi com o psicanalista Félix Guattari ( As três ecologias e Da produção de subjetividade In: Caosmose ), de emergência crítica de visões de ciência que alguns denominam, ora de forma elogiosa ora de forma pejorativa como, de Ciências Pós-Modernas, num panorama em torno da complexidade do pensar o que possa vir a ser o fazer de uma Ciência com Consciência, como diria o filósofo e sociólogo Edgar Morin ou de crítica doparadigma dominante  de um certo discurso sobre as ciências como, à sua maneira, fez o sociólogo Boaventura de Souza Santos, preocupado com a ciência que põe a sociedade em risco. Atualmente, podemos escolher entre tantas visões críticas e, se quisermos, conhecer a existência de outras noções sobre o que é a ciência se a entendermos como um dos discursos possíveis sobre o mundo em que vivemos. E também ficarmos atentos às várias definições do termo “tecnologias”, que está em disputa e em processo de pluralização: tecnologias científicas,tecnologias culturais, tecnologias sociais, tecnologias de comunicação e informação.

Diante de tantas plurais e híbridas referências que elenquei nesta aula, como bem criticou o famoso antropólogo Bruno Latour, posso até considerar que, ao invés disso parecer uma crítica eficaz às mazelas da nossa sociedade tecnocientífica, essa reflexão reforce mais ainda um certo discurso cético de que nossa vida intelectual é decididamente mal construída. Ainda mais se for na base da interdisciplinaridade do fast-food-talk-show que nós dá a possibilidade de tratar das vastas temáticas dessas aulas, em poucas horas de um mísero quadrimestre. No entanto, como hoje estou tentando tratar de tudo e mais um pouco que me interessa como pesquisadora num tom de ambiguidade crítica relativamente otimista-pessimista (e não pessimista-otimista!) – para alguns muito pós-estruturalista, para outros de desconstrução (quem me dera!)- torço, ingenuamente e bem iluminista, para que vocês leiam essas ideias e referências linkadas como fonte de questões a serem relacionadas com suas experiências, observações e temas de pesquisa em seus blogs, fazendo novas (des)construções sobre as temáticas que abordamos. Pois, afinal, como educadora no século vinte e um (ou como uma Pandora que apresenta seu post-caixa com novos mitos no seu discurso que não se conforma com os velhos discursos e os usos sociais das ciências, ainda tão em voga nas universidades) tenho o privilégio de poder decidir que a responsabilidade por organizar sua autonomia e seu ritmo para essas leituras em diálogos comigo e com o que você pode pensar, criticar, criar e fazer é totalmente sua.

Tento aprender e fazer aqui a minha parte de criar uma pequena sistematização, como um memorial que pedi a vocês e, quem sabe, consigamos assim ter uma medida do que podem ser as dificuldades e as vantagens incomensuráveis de um “aprender a aprender” e  “aprender a fazer”, mencionados como fundamentos básicos da educação contemporânea no início desse texto… Já o “aprender a ser” e o “aprender a compreender e cooperar” dependerá do que cada um que está envolvido nesse processo vai pensar e criar a partir dessas camadas de palavras apresentadas a vocês: mais uma vez, bom trabalho!

caixa de pandora

http://cienciastecnologiassociedades.wordpress.com/

11/6 – Aula 5

Continuação da Aula 4, memorial acima

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A Universidade e o debate e as reflexões “sobre o uso de fita adesiva”

Prezada Profª Andrea, bom dia.
A Prefeitura Universitária, no cumprimento de suas atribuições, reitera o pedido para que não sejam afixados materiais ou conteúdos de aulas em locais não projetados para isso, tais como paredes, portas, placas, painéis, batentes, caixilhos e congêneres. Para tanto, dispomos de displays; esses podem ser solicitados a qualquer momento à equipe de zeladoria da UFABC.  A utilização de fita adesiva de qualquer espécie com essa finalidade acaba por danificar os acabamentos e texturas. Esses danos demandam serviços de limpeza e reparos, geram custos e comprometem a estética. As fotos que seguem anexas (após atividades no térreo do Bloco Beta) ilustram e justificam o nosso pedido reiterado.
Contamos com a sua colaboração, nos mantendo à disposição para auxiliá-la nessa ou em qualquer outra questão que possa otimizar a realização de oficinas e atividades coletivas em áreas comuns de nossos campus universitários.

Atenciosamente,
Ricardo Soares Lima
Subprefeito do Campus São Bernardo do Campo
Fundação Universidade Federal do ABC – UFABC
Bloco Beta – 2º andar
(11) 2320-6050

 

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Prezado Ricardo, conheço as normas, entendo os argumentos e justificativas impostas por um grupo na universidade, porém não concordo com as mesmas e defendo que sejam colados cartazes,avisos, trabalhos e expressões artísticas dos estudantes em qualquer lugar da universidade, a exemplo do que acontece em outras universidades como uma das maiores do mundo onde estudei, a USP, onde existe tudo isso – e talvez exatamente por existirem coisas assim –  saem pessoas formadas como bons profissionais que se preocupam em ver e ler a estética do que está escrito, desenhado, pintado, colado e fotografado, e não na estética da parede sem nada a expressar a não ser um sentido de disciplina e ordem furada que não tem nada a ver com a educação plural e democrática do século XXI que está no nosso projeto pedagógico.

Como educadora, escritora, professora e pesquisara, entendo que trabalhamos com arte, cultura e educação e num local público, não numa empresa ou indústria qualquer ou hospital ou prisão. A estética de uma universidade no Brasil e mundo afora é muito diferente desse padrão imposto por uma visão de um grupo que administra esse local como se fosse uma das indústrias, hospitais ou prisões do ABC paulista. Fiquei surpresa com a falta de visão do que é educação quando retiraram nossos trabalhos argumentando sobre a visita do MEC. São exatamente nossos trabalhos que dão cara de universidade para esse espaço e ninguém fica retirando esse tipo de trabalho das paredes da USP, da Unicamp, da Unifesp, etc!
Todo ano, esse espaço é pintado independente de estar danificado ou não, com recursos públicos que são descontados também direto do meu salário, pois isso já é previsto pela administração. E houve ano que vi ser pintado sem nem precisar fazê-lo apenas para gastar a tinta e justificar esses argumentos burocráticos e essa visão equivocada e unilateral do que não tem mais nada a ver com o que aqueles boa parte daqueles que estudam, ensinam e pesquisam acham que deve ser um espaço educativo e cultural. Eu, os estudantes e outros professores e funcionários da UFABC preferimos que esse espaço educativo tenha os cartazes e as expressões culturais e as marcas de uso e vivência do que deixá-lo com cara de recepção de dentista ou do Poupatempo. esses displays que é a maior burocracia e demora para conseguir usar para uma atividade prática do dia a dia são, além disso, horríveis, péssimos para o tipo de trabalho que fazemos, e ninguém nos perguntou quando foram comprá-los com o nosso dinheiro público se eram adequados e interessantes para nossas atividades. Entendo qual é o trabalho de vocês e espero que entendam também qual é o meu trabalho e o meu ponto de vista, respeitando nossas práticas educativas e utilizando de fato os recursos da educação pública para ocupar os espaços públicos e não deixá-los vazios e inúteis, sem cor ou significado, servindo mais como local de passagem do que de convivência. Se as paredes ficaram assim é porque o que estava nela foi retirado. Se ficassem lá, as pessoas olhariam as estéticas das mensagens educativas, culturais e artísticas e não se a tinta descolou ou não da parede feita muitas vezes com material de péssima qualidade superfaturado para beneficiar as construtoras e outras empresas terceirizadas que exploram o trabalho de pessoas subcontratadas por baixos salários e que poderiam, não fosse essa visão administrativa herdeira do escravismo colonial, serem funcionários públicos da educação e entenderem que a Universidade sempre teve e terá outra cara em seus espaços de vivência, porque nós que trabalhamos e habitamos esse espaço todos os dias pensamos e criamos sobre ele, não apenas passamos por ele e aceitamos as normas que não correspondem com o ambiente cultural e educativo que queremos viver e contruir no dia-a-dia.
Mais uma vez, muito obrigada pela atenção, e qualquer esclarecimento, estou à disposição!
Para maior entendimento das nossas práticas e de nossa perspectiva de trabalho educativo, disponibilizamos o blog da nossa disciplina justifica na teoria e na prática nossas atividades educacionais e culturais e mostra os estudantes estudando e fazendo bons trabalhos aí, ao invés de estarem roubando, (se) matando, (se) destruindo ou fazendo coisas consideradas bem piores: https://identidadesculturas.wordpress.com/
Atenciosamente,
Andrea Paula

 

 

 

Aula 7

Criação Pós-Moderna

Excelentes artigos publicados na Revista do Sesc (Revista e, no. 190, março/2013), que resumem bem alguns dos conceitos, ideias e práticas que temos debatido em Identidade e Cultura. Qual a relação possível desses debates e contextos históricos, teóricos e metodológicos no seu trabalho de pesquisa? Se não sabe, tente saber… pesquise, pergunte, crie!

Fonte: http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/revistas_link.cfm?Edicao_Id=460&Artigo_ID=6866&IDCategoria=7932&reftype=2

A pós-modernidade ou o tempo do “fim das ideologias” impulsionou a criação de novas metodologias no campo do saber. A ciência clássica foi colocada em xeque por diversos pensadores, que propuseram novas possibilidades de análise dos fenômenos socioculturais. A professora e pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Lucia Santaella e o professor do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) Osvaldo Pessoa Jr. analisam as mudanças desse paradigma científico, apoiados em correntes teóricas contemporâneas.

Há lugar para o novo depois das utopias?

por Lucia Santaella

O novo está ligado às ideias de frescor, novidade, ineditismo e mesmo à ideia de algo que não existia e que, por acaso, inspiração, esforço, intenção ou deliberação, passa a existir. De uns anos para cá, o novo tem estado aliado à palavra “inovação”. Esta, aliás, tornou-se moeda corrente e até palavra de ordem.

Embora possa ser aplicado a outros campos, o termo “inovação” está preferencialmente atado ao campo do empreendedorismo, envolvendo competências tecnológicas, mercadológicas e gerenciais. Especialista no assunto, o site Radar Inovação (Inventta.net) define a inovação como “exploração com sucesso de novas ideias”. Sucesso que, no caso das empresas, significa “aumento de faturamento, acesso a novos mercados, aumento das margens de lucro, entre outros benefícios”. Quando se fala em inovação de produto ou de processo, a inovação é tecnológica. Mas há outros tipos de inovação que se relacionam a “novos mercados, novos modelos de negócio, novos processos e métodos organizacionais. Ou, até mesmo, novas fontes de suprimentos”.

É interessante notar que a ascensão do conceito de “inovação” na área empresarial coincidiu com o crepúsculo do conceito de “novo” no campo da cultura e da arte. Não é novidade para ninguém o papel que a inovação desempenha para manter o capitalismo turbinado. Por que o conceito de novo entrou em declínio na cultura e especialmente na arte não é algo tão evidente. Para tornar isso um pouco mais compreensível este breve artigo está dedicado.

Deve ter sido no Renascimento que começaram a brotar os ideais do novo. Esse período distinguiu-se de retomadas anteriores da antiguidade clássica pela introdução de elementos inovadores que levaram, em particular na pintura, à constituição de um padrão ou modelo estético dominante constituído pelo desenvolvimento da perspectiva monocular altamente realista, pelo tratamento do espaço da pintura como janela e pelo estudo da luz e da sombra.

Esse padrão estético permaneceu durante séculos, com exceção da ousadia de alguns artistas, criadores de linguagem, tais como os espanhóis Velasquez e Goya e os ingleses Constable e Turner, por exemplo. Independentemente do período e lugar em que viveram ou do estilo em que costumam ser identificados, esses artistas foram marcando os séculos, da Renascença ao Modernismo, com invenções e rupturas de padrão que fizeram avançar as linguagens da arte e anteciparam tendências que só viriam se confirmar no Modernismo. Este teve início com os impressionistas para terminar em Piet Mondrian e Jackson Pollock, na primeira metade do século 20.

Impossível separar as propostas estéticas da sequência de “ismos” da arte moderna (cubismo, dadaísmo, surrealismo, construtivismo, suprematismo etc.) do caráter utópico que corria de modo mais ou menos subterrâneo, mais ou menos explícito por todos esses movimentos vanguardistas. As vanguardas eram alimentadas pela impetuosidade heroica do desejo de transformar o mundo, marcá-lo com a insígnia do poder da arte.

Por trás do desfile incessante de “ismos”, aninhava-se a busca por um mais além, busca impulsionada pela aposta no projeto emancipatório da modernidade que queria se ver cumprida. O caráter explícito dessa busca fica evidente na atração dos futuristas pela máquina e pelos ritmos de vida por ela determinados.

Também nas tentativas do construtivismo russo de convergir a arte na vida através de novas formas imaginativas e na busca de um design rigoroso na Bauhaus para tornar a vivência cotidiana mais convidativa. Foi na escola de Bauhaus e na arquitetura modernista que o sonho da arte como condutora privilegiada da vida humana e social alcançou seu ápice, um sonho que recebeu um banho gélido na Segunda Guerra Mundial.

Além disso, o pós-guerra coincidiu com a emergência da indústria cultural que foi levando de roldão todas as crenças de que a arte teria algum poder de transformação sobre as determinações políticas e sociais. Foi também nos anos de 1960, no apogeu da cultura pop, de um lado, e das ironias da arte pop, de outro, que a inflação e a exacerbação crescentemente abrangentes da produção cultural começaram a se fazer sentir, intensificando-se nos anos de 1980, justamente quando se deu a explosão dos debates sobre o pós-moderno, pós-modernismo e pós-modernidade.

Hoje, pode-se perceber que esses debates estavam sinalizando o crescimento da complexidade cultural que foi aumentando na medida mesma em que foram crescendo as mídias, em especial as mídias digitais e a circulação social das linguagens que por elas transitam. É justamente isso que gera a enorme concentração, densidade e abrangência da produção simbólica e intensifica o fluxo veloz de discursos, imagens e sons das mais diversas ordens e origens na configuração do tecido hipercomplexo da cultura nas sociedades atuais. À maior produção soma-se, com a globalização econômica, política e social, a abertura para a cultura do outro, próximo ou distante, levando à mistura e sincretismo das culturas.

Há poucas questões mais controversas do que a questão relativa ao pós-moderno e pós-modernidade. De todo modo, nos anos de 1980, tornou-se evidência incontestável aquilo que apenas se insinuava nos anos de 1960. Entendida inicialmente como um novo estilo na arquitetura e nas artes, a expressão “pós-moderno” também reverberou na dança, música, fotografia, cinema até tomar conta de quase todas as práticas e teorias culturais, alcançando a política e até mesmo as ciências, um verdadeiro cataclismo do qual nem mesmo a matemática se safou.

Em meio a muitas controvérsias, há um ponto para onde a franja diversificada de interpretações converge: a constatação de que, no exaustivo uso do pastiche, das citações, da revisitação muitas vezes paródica dos estilos do passado, num vai e vem espacial e temporal até mesmo atordoante, as práticas culturais e artísticas pós-modernas estão na verdade levando a cabo o questionamento da concepção teleológica do tempo e da história que norteou o projeto da modernidade desde o seu apogeu iluminista. Essa é uma das razões por que a pós-modernidade coincide com o fim das utopias e das altissonantes narrativas científicas legitimadoras.

Isso significa que não há mais lugar para o novo nas culturas contemporâneas? Existe sim, mas ele não é mais entendido do mesmo modo que a modernidade o concebeu, como criação de um indivíduo singular, abençoado pelo dom da genialidade. Já em 1985, Vilém Flusser [1920-1991, filósofo tcheco, naturalizado brasileiro] nos oferecia uma concepção do novo que prenunciava as condições dos dias atuais. Segundo esse autor, “estamos atualmente no limiar de criatividade nova”. Esta não implica mais criar com intuição ou inspiração.

O processo criativo que emerge envolve a telemática (hoje, podemos dizer, sociedade em rede), que permite sintetizar acasos pouco prováveis com acasos ainda menos prováveis. Tal técnica recorre a “eus” artificiais e outros “eus” que processam dados e trocam informações com tamanha rapidez que aumenta a probabilidade de emergirem acasos pouco prováveis. Atualmente a massa de informações disponíveis adquiriu dimensões astronômicas que não cabem mais em memórias individuais, por mais geniais que sejam. Abre-se, assim, um horizonte de criações coletivas, participativas, colaborativas, um coletivo híbrido: a inteligência cada vez mais sofisticada que está nas máquinas colabora e incrementa a inteligência que está no cérebro humano, um cérebro transindividual que pulsa e palpita no mundo físico e no ciberespaço, tudo ao mesmo tempo.

“De uns anos para cá, o novo tem estado aliado à palavra ?“inovação”. Esta, aliás, tornou-se moeda ?corrente e até palavra de ordem.”

Lucia Santaella é professora e pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e livre docente em estudos de comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP)

 

De que maneira pensar o novo?

por Osvaldo Pessoa Jr.

O mundo se transforma em ritmo cada vez mais acelerado, em função do progresso tecnológico e do aumento da população humana na Terra. Não sabemos ao certo aonde isso levará, se devemos ser otimistas ou pessimistas com relação ao futuro que nossos bisnetos viverão.
Como entender esse processo de transformação, e como tentar influenciá-lo? Há diferentes perspectivas de análise, diferentes correntes teóricas ou “paradigmas”, que podem nortear nossa avaliação. Uma divisão em três grandes tradições contemporâneas de pensamento foi feita pelo filósofo e antropólogo tcheco-britânico Ernest Gellner, no seu livro Pós-modernismo, Razão e Religião (1992). Em primeiro lugar, o fundamentalismo associado às grandes religiões, que acredita em uma verdade única, embasada em textos sagrados e na autoridade religiosa. Em segundo lugar, o que pode ser chamado de racionalismo crítico (ou objetivismo, ou modernismo), herdeiro dos ideais iluministas e positivistas de valorização dos métodos e resultados da ciência, que mantém a noção de verdade como correspondência entre a teoria e os fatos, apesar de reconhecer que não há certeza de que a verdade foi atingida (apesar de se acreditar que ela exista). E, em terceiro lugar, as diferentes variedades do relativismo, que abandonam a ideia de uma verdade única, considerando que o conhecimento é construído a partir de um contexto cultural e que, portanto, as verdades são relativas a cada cultura em particular.
Uma articulação bastante influente do relativismo é conhecida como pós-modernismo. O termo foi introduzido em 1975 pelo crítico de arte estadunidense Charles Jencks para designar certas correntes da arte contemporânea. Fora do contexto específico da arte, porém, o termo foi generalizado pelo filósofo francês Jean-François Lyotard, em seu livro A condição pós-moderna (1979). Uma maneira de caracterizar o pós-modernismo é dizer que ele é indefinível, pois ele recusa o uso de “metanarrativas” abrangentes. Apesar da dificuldade de definir o pós-modernismo, podemos delinear algumas teses centrais do movimento, seguindo a análise de Gellner (ele próprio um racionalista crítico):
1) Hermenêutica. Assim como um texto, a realidade envolve significados, e tais significados estão aí para serem interpretados ou desconstruídos, em busca de contradições internas. O mundo seria a totalidade dos significados.
2) Relativismo. Não há verdade única e objetiva: a verdade é esquiva, polimórfica, subjetiva. A noção de “fatos objetivos” do positivismo é insustentável, pois fatos são inseparáveis do observador e da cultura que fornece suas categorias interpretativas.
3) Crítica política. A atribuição de significado a um objeto é sempre acompanhada de um valor, estando assim associada ao exercício de poder, de dominação. A desconstrução de significados é uma arma para a libertação. O modernismo estaria associado ao colonialismo e ao imperialismo; o pós-modernismo ao respeito e igualdade entre culturas. A insistência em uma realidade única e objetiva é um instrumento de dominação.
4) Subjetividade trêmula. Além da perda da objetividade, o próprio sujeito não é mais garantia da certeza (como no Cogito de Descartes ou nas sensações, para os empiristas): a subjetividade também é gerada por significados contraditórios.
5) Estilo polifônico. O estilo de texto é antes dialógico do que lógico. Busca-se não a definição clara dos conceitos, mas a exploração da riqueza dos significados (polissemia). A autoria dos textos tende a ser plural, como na arte da colagem, com citações de diversos autores ou a partir do ponto de vista de diferentes culturas (heteroglossia).
Feita essa breve caracterização do pós-modernismo, buscarei agora explorar uma interessante consequência do relativismo. Trata-se de uma versão modificada do argumento do “peritropê” (virada de mesa), usado por Sócrates no Teeteto, contra o relativismo do sofista Protágoras.
A tese do relativismo afirma que não há uma verdade única a respeito de qualquer questão sobre a natureza, pois a verdade é relativa a um paradigma, a um corpo teórico, a uma cultura. Assim, diferentes teorias terão diferentes verdades a respeito de uma determinada questão, e elas serão igualmente válidas.
Notamos que a tese do relativismo é “metateórica”, pois ela faz uma afirmação a respeito da relação entre uma teoria (digamos uma teoria científica) e a natureza. Ela é uma “teoria sobre teorias”. Ela afirma que uma determinada teoria nunca é a detentora única da verdade, pois outra teoria igualmente válida poderia negar essa verdade, e em última análise não haveria critérios objetivos para determinar qual das duas teorias é a melhor.
Pois bem: será que o relativismo também se estende para a metateoria?
A resposta natural de uma concepção relativista seria dizer que sim, pois, se as verdades da ciência são relativas, as verdades da filosofia também o são. Qual a consequência disso?
A consequência é que outras concepções metateóricas são igualmente válidas ao relativismo. E quais seriam essas concepções metateóricas? Já mencionamos duas delas: o fundamentalismo de base religiosa e o racionalismo crítico. Ora, mas se o racionalismo crítico é válido, então as teorias científicas fazem afirmações verdadeiras a respeito do mundo, e elas podem ser consideradas aproximadamente verdadeiras em um sentido forte, no sentido de que há uma correspondência entre os enunciados da teoria e os fatos do mundo. Ou seja, a verdade sobre a natureza não muda com o tempo: o que muda é a nossa opinião a respeito da verdade.
E agora? Vamos recapitular. Admitimos o relativismo no nível metateórico, pois esta é a posição mais coerente com o espírito do relativismo. Poderíamos ter recusado a extensão do relativismo para a metateoria, o que evitaria as contradições apontadas por Sócrates, mas contradições não assustam as visões pós-modernistas, pelo contrário, elas são bem-vindas (como transparece em seu estilo polifônico). Mas contradições não podem ser simplesmente ignoradas, elas geram consequências, se não em nível lógico, pelo menos em nível pragmático. E que consequências são essas?
A consequência é a necessidade de incorporação das visões racionalistas críticas (e por que não, também, as fundamentalistas) nos debates a respeito das mutações do mundo. Não basta defender teoricamente o pluralismo e ignorá-lo na prática. O respeito ao “outro” envolve trazê-lo para o debate, mesmo que isso envolva riscos, mesmo que posições inaceitáveis tenham que ser escutadas, mesmo que ele seja nosso inimigo.
Só assim pode-se ser um pós-modernista coerente. O relativismo pode ser questionável em nível teórico, mas em nível metateórico ele se chama pluralismo, palavra que rima com democracia.
Enfim, de que maneira pensar o novo? Não sei ao certo, mas o primeiro passo é prestar atenção ao que os especialistas de diferentes correntes estão dizendo. Uma boa introdução ao assunto é o artigo “Humano, pós-humano e transumano”, de Laymert Garcia dos Santos (em Mutações: Ensaios sobre as Novas Configurações do Mundo, organizado por Adauto Novaes, Ed. Sesc/Agir), onde concepções diversas são apresentadas.
O cientista da computação estadunidense Ray Kurzweil, constatando que o ritmo de avanço tecnológico está cada vez mais rápido, prevê para meados do século 21 a ocorrência da “singularidade”, quando a integração homem-máquina transformará a natureza humana (A Era das Máquinas Espirituais, Ed. Aleph, 2007). Críticas a esse cenário são feitas, por exemplo, pelo sociólogo português Hermínio Martins (Experimentum Humanum, Ed. Fino Traço, 2012). Eles representam duas posições éticas distintas a respeito do futuro tecnológico da humanidade.
No Brasil, o otimismo com relação à aproximação da singularidade é representado pelo Instituto de Ética, Racionalidade e Futuro da Humanidade (IERFH). Na minha opinião, um dos pontos mais criticáveis de sua posição é o desejo de prolongar a vida humana para centenas de anos. Claramente, o progresso tecnológico é guiado pelos desejos humanos, mas certos desejos, importantes em nossa história evolutiva, tornam-se despropositados com o avanço da civilização.
Paralelamente aos avanços tecnológicos nas áreas biomédicas e informacionais, creio que uma grande revolução teórica está em gestação, nos estudos científicos de como a mente emerge do cérebro. Essa revolução certamente transformará a maneira como concebemos a nossa individualidade, e isso poderá acabar com nosso desejo infantil de ter uma vida “eterna”. Em suma, o futuro depende não só das possibilidades tecnológicas, mas dos nossos desejos, que poderão ser transformados.

Osvaldo Pessoa Jr. é professor do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e pesquisador da Teoria do Conhecimento e Filosofia da Ciência

“(…), diferentes teorias terão diferentes verdades a respeito de uma determinada questão, e elas serão igualmente válidas.”

Aula 6

Aqui vai uma das referências de práticas discursivas, artísticas e políticas, mencionadas na aula, que criticam discursos em circulação sobre a tecnociência, o desenvolvimento tecnológico e situação ambiental na realidade contemporânea, propondo outras leituras do mundo, por meio da linguagem do cinema documentário:

(texto do youtube)

Por quanto tempo você estaria disposto a usar uma fantasia de super
herói e herdar com ela os seus super poderes? Quanto tempo você
precisaria para corrigir o que você considera uma enorme injustiça?
Um dos integrantes do grupo ativista YES MAN conseguiu fazer um
pouco dos dois em apenas 5 minutos.
A fantasia não era bem uma fantasia, e sim a falsa identidade de um
porta voz da empresa Dow Chemical, responsável por um acidente
químico na Índia que matou milhares de pessoas e comprometeu por
toda a vida a saúde de outros milhares. O disfarce, assumido por Andy
Bichlbaum em um dos noticiários da BBC World — naqueles horários
que todos estão vendo TV, veio acompanhado do poder temporário
de anunciar que a empresa iria liquidar a companhia causadora do
acidente e os 12 bilhões de dólares resultantes da operação seriam
utilizados para o pagamento de assistência médica para as vítimas,
limpeza da área afetada e investimento em pesquisa para evitar
novas ameaças causadas por produtos da Dow Chemical.
Até que a empresa conseguisse desmascarar o herói as avessas e
esclarecer toda a confusão, o falso pronunciamento do YES MAN já tinha conseguido uma queda nas ações da Dow Chemical no valor
de 2 bilhões de dólares. Tudo isso sem passeata, sem violência, sem
bate boca ou troca de farpas. Cinco minutos se apropriando
formalmente do discurso corporativo e de seus meios de
comunicação tão caros, mas deturpando o conteúdo e agindo
segundo crenças completamente banidas do mercado financeiro e
suas corporações. Cinco minutos de camaleão travestido em porta
voz do bem e da justiça. Cinco minutos de guerra e confronto, que
requereram mais coragem e sangue frio que as areias do Iraque ou do Afeganistão.

FILME NA AULA DE CTS:

The Yes Men Fix The World é um Documentário  hilariante sobre dois ativistas políticos que se fazem passar por responsáveis de grandes empresas, grupos e corporações adeptas do culto da ganância e fazem as mais divertidas ações para chamar a atenção para assuntos muito sérios. Desde ir para a televisão  em direto a anunciar o pagamento de bilhões de dólares para reparar um desastre ambiental (fazendo-se passar por um responsável da empresa) ou criar um fato-bolha surreal e apresentá-lo como solução da Halliburton, entre outras, valeu de tudo para colocar em foco as questões verdadeiramente importantes.

Informações
Áudio: Inglês
Legenda: Portugues Pt (Embutida)
Tamanho: 696 MB
Download: Fileserve

Fonte:

http://www.bestdocs.com.br/2011/08/the-yes-men-fix-the-world.html

Divertidíssimo!
Não descartamos a possibilidade dos Yes Men estarem visando fama em suas incursões pelo mundo afora. Mesmo que seja isso, não deixa de ser uma das formas mais interessantes e divertidas de ativismo. Esses homens criam sites de Internet passando-se por outras pessoas, empresas ou instituições com o objetivo de serem convidados para grandes conferências e entrevistas em grandes redes de TV. É nessa hora que o show começa e eles mostram suas garras. Através de verdades e fatos, ironizam o sistema perverso que assola o mundo.
(docverdade)

Download
Filme original (release 2009)
Torrent Legendas pt-br

Edição Especial 2010:
Legendas pt-br

Torrent da versão 2010 pelo site VODO que os produtores disponibilizaram. 

ATENÇÂO: As legendas da versão 2010 foram feitas do em cima filme original (versão 2009) que foi proibido pela justiça norteamericana (que começa 9 min depois da apresentação desse release). Portanto apenas essa parte (da apresentação de 9 minutos) do documentário encontra-se sem legendas.

Agradecimentos a Ivan Teixeira, Osana Cardoso, José Aluísio e Diego Poloni pela indicação e links.

Fonte:

http://docverdade.blogspot.com/2011/05/yes-men-arrumando-o-mundo-yes-men.html

Outras referências interessantes:

artigos da Revista E, do Sesc sobre processos de criação pós-modernos:
http://cienciastecnologiassociedades.wordpress.com/2013/03/11/criacao-pos-moderna/

texto recomendado em aula anterior = primeiro capitulo deste livro:

http://cienciastecnologiassociedades.files.wordpress.com/2011/11/sociedade-em-rede-manuel-castells-gustavo-cardoso-org.pdf

Exposições questionam a poluição em São Paulo

Em “Quase Líquido” e “H2Olhos”, o Itaú Cultural propõe – até 25 de maio – uma reflexão sobre esse problema no rio Tietê e mostra como em outras cidades a realidade é diferente. A instalação de garrafas PET de Eduardo Srur, nas margens do rio, é um dos destaques

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Por Thiago Carrapatoso
Planeta Sustentável – 27/03/2008

O Itaú Cultural sedia duas exposições que têm o meio ambiente como tema de reflexão: “Quase Líquido” e “H2Olhos”. Ambas estão ocupando o prédio da instituição, em São Paulo, até o dia 25 de maio, com entrada gratuita.”Quase Líquido” preocupa-se em provocar o público sobre dilemas, incertezas e vazios que cercam os indivíduos que vivem em metrópoles, como a capital paulista, e precisam conviver com a contradição entre o moderno e os problemas básicos, como a violência, aexclusão social e o meio ambiente degradado. De acordo com o curador da exposição, Cauê Alves, é esse conflito que mostra que a sociedade brasileira ainda não alcançou a modernidade em si.O trabalho do artista plástico Eduardo Srur é um exemplo desse conflito. Srur construiu 20 garrafas PET de 10m de comprimento por 3m de largura e espalhou-as pelas margens do rio Tietê. Os motoristas da marginal, então, poderão ver entre as pontes do Limão e da Casa Verde diversas garrafas coloridas que convidam o público a refletir sobre a poluição do rio. Quem quiser checar o trabalho de mais perto, o Itaú Cultural, em parceria com o Instituto Navega São Paulo, promove excursões agendadas pelo rio. Quando a exposição acabar, as garrafas virarão mochilas que serão distribuídas gratuitamente às escolas públicas da região.Esse não é o primeiro trabalho de Srur sobre o meio ambiente. Ele já fez intervenções urbanas que questionam a mobilidade em São Paulo – pendurando bicicletas entre dois prédios em uma das travessas da avenida Paulista – e a poluição no rio Pinheiros que impossibilita os cidadãos de usufruir algo que era usado como lazer antigamente – soltando caiaques com manequinscorrenteza abaixo.Outro destaque da exposição é o grafiteiro Zezão, que exibe o vídeo “Suco Gástrico”, em que mostra sua experiência com seus grafites azuis nos esgotos e córregos da cidade. Zezão, aos 28 anos, por causa de uma crise depressão, visitou os subterrâneos da cidade pela primeira vez. Foi lá que começou a trabalhar suas intervenções urbanas com pixação e grafite.

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Os grafites azuis de Zezão, que ilustram os esgotos de São Paulo, são tema do vídeo “Suco Gástrico”

Além desses, outros 15 artistas entram na exposição, como Tatiana Ferraz, Louise Ganz, Ana Tavares, Rosângelo Rennó, o mexicano Héctor Zamora e o catalão Martí Perran.Em paralelo ao “Quase Líquido”, no 2º subsolo do Itaú Cultural, há também a exposição “H2Olhos”, em que o fotógrafo e curador Miguel Chikaoka mostra que a água do rio Tietê é limpa em outras cidades. Chikaoka divide a exposição em três partes: H2Olhos no Olho, em que o público pode ver sua imagem refletida por meio de um jardim de olhos d’água; H2Olhos no Leito, no qual o espectador tem a sensação de estar imerso em um rio cheio de peixes; e H2Olhos nas Nuvens, espaço com livros e jogos.

Para saber mais informações sobre as exposições, acesse o site do Itaú Cultural.

Patrícia Santos/AE

Garrafas PET gigantes que fazem parte da instalação criada pelo artista plástico Eduardo Srur, nas margens do Rio Tietê, entre as pontes do Limão e da Casa Verde, zona norte de São Paulo. 26/03/2008

Fonte: http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/eventos/conteudo_274265.shtml

Produções simbólicas da disciplina Identidade e Cultura em 2013

Esses foram mais alguns dos extraordinários produtos culturais resultantes dos processos de trabalho na disciplina Identidade e Cultura, que fazem com que eu reforce minha convicção de que se aprende mais fora do que dentro das instituições educacionais. Aos estudantes foi dada a liberdade de se revelarem como artistas que sabem fazer crítica poética em várias linguagens, independente de que área profissional vão atuar. Talvez eu possa dizer, como educadora feliz, que eles passaram por uma experiência de formação transdisciplinar!
Muito obrigada.

 

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Co-operação por reciclagem de memória cultural é o que está acontecendo

Período Industrial Eletro-Eletrônico (1945 – hoje)

Estética:

– Fim do espírito experimentalista e inventivo da modernidade;
– Conceito de real – tudo que a natureza produz – e realidade – tudo que tem interferência humana.
– Tudo é mídia;
– Simulação e Interatividade. Uso da tecnologia de forma “branda”;

Produção:

– Novos espaços topológicos de representação – várias modelos lógicos;
– Memória, armazenamento e processamento na velocidade da luz;
– Substituição das funções mecânicas – atividades com periculosidade e de cálculos;

Conhecimento:

– Física subatômica rompe com os valores e dogmas mecânicos e cartesianos;
– Teoria de Comunicação de Massa;
– Auschwitz, Nagasaki e Hiroshima – auge da sabedoria material e não
apresenta os mesmo valores críticos e éticos;
– 2a Grande Guerra Mundial.
– Conceitos da Eletricidade;
– Valores extramateriais e a possibilidade da espécie humana de reorganizar-se, autodesenvolver-se e reorientar-se diante da vida.
– Gradativa substituição dos valores materiais;
– Sociedade da Informação.

Etapas do fazer eletrônico:

O que difere fundamentalmente o início da pós-modernidade do da modernidade é o fato de esta última ter edificado a sua era sobre um ambiente natural, culturalmente virgem, ao passo que a era eletrônica parte de um ambiente carregado de traços culturais já
convencionalizados e difundidos. Diante deste universo encontram-se referências culturais históricas, tanto nos objetos quanto nos equipamentos dispostos ao uso do homem. A postura do homem produtor na eletrônica, portanto, torna-se de um co-operador, pois todo o trabalho executado carrega consigo traços culturais preexistentes, De maneira implícita, estes traços encontram-se no bojo das culturas de hoje em diante produzidas.

Co-operação por reciclagem de memória cultural: trabalhar com a memória, encarada
pelo aspecto da materialidade, ou seja, com a informação contida na produção natural ou
cultural já realizada, exige outras formas de operar. O universo cultural produzido pelo
homem ocidental é o composto por objetos originais, por reproduções, e por repro-
produções. Agora, é necessário incorporar a informação existente dentro deste universo,
tornando a autoria, na atualidade, uma co-autoria, fruto de um processo co-operativo. As
características deste tipo procedimento são citar, traduzir e comentar. A citação incorpora, literalmente, parcial ou integralmente, uma outra obra; proporciona novos significados com o deslocamento do contexto informacional original para novas referências representadas pelo trabalho co-operador. A tradução pretende a manutenção das qualidades informacionais de um original noutra fisicalidade, seja material ou extramaterial, entre códigos, línguas, meios etc. As condições políticas e poéticas para esta operação foram executadas e estudadas por diferentes épocas e lugares. Comentar é citar ou traduzir, introduzindo novos elementos informacionais ao significado original; é a interação entre a materialidade do original incorporada e a informação introduzida pela obra em questão.
Co-operação e automação: a automação de funções de comando de produção permite ao artista agilizar o seu fazer, acrescentando à obra a velocidade como auxílio para novas percepções sugeridas pelo trabalho desenvolvido. O artista, ao invés de pensar em copiar o real, pensa em simular um real ainda não vivenciado; a velocidade adiciona na execução do trabalho faz este chegar primeiro onde o homem muitas vezes sequer poderá chegar. Três posturas artísticas são observadas diante das expectativas agenciadas pela automação informatizadora. A primeira postura corresponde ao uso inadequado desta possibilidade produtiva, impondo ao sistema hábitos de outros sistemas mais lentos. A segunda é mais heróica e pretende levar ao máximo o rendimento das propostas mecânicas e a última, há algum tempo praticada, é a simulação. Ela pretende prever através da agilização de operações de comando e formatação, situações impossíveis de serem vivenciadas no cotidiano.
Co-operação branda: Este diálogo entre homem e natureza, que proporciona a nova visão de produção, só é possibilitado pelos sensores e extensores eletrônicos, que assumem o papel de transductores entre o conhecimento do homem (realidade) e o potencial dos fenômenos universais (real). Portanto, qualquer ato produtivo deve ser entendido como uma decisão conjunta a partir do grau de conhecimento interativo como uma decisão conjunta a partir do grau de conhecimento interativo entre homem e universo, na confluência das suas ações, discriminadas pelo perfil de inteligência destes transductores. Assim entendida a estrutura do novo processo produtivo, homem e equipamento não estão distantes entre si; pertencem a uma holarquia, cada qual com funções e conhecimentos próprios e participantes de uma hierarquia que decide conjuntamente, emitindo ordens de produção. A tecnologia promove um intercâmbio informacional entre a cultura do homem e os valores universais.
Com este papel, assume um caráter brando, não impondo as suas regras produtivas ao
mundo, transformando-o simplesmente. Aprende e apreende as qualidades do mundo para melhor executar o trabalho.

produção: a etapa da produção corresponde às maneiras do fazer mecânico, que se finaliza na edição do material gravado.

pós-produção: a etapa da pós-produção é a própria do sistema, onde são executadas
operações puramente comandadas pelas funções inteligentes das máquinas, produzindo
outras informações independentes da sua existência factual.

Mais do resumo que distribuí na última aula:

pensamentos e linguagens culturais e artísticas

Grupos de trabalho em ação!

Onde está você? E os seus vestígios ou marcas do seu grupo de trabalho em ação?

2013-08-28 11.30.52 2013-08-28 11.29.40 2013-08-28 11.29.31 2013-08-28 11.29.23 2013-08-28 11.29.15 2013-08-28 11.28.59 2013-08-28 11.28.48 2013-08-28 11.28.25 2013-08-28 11.28.16 2013-08-28 11.28.08 2013-08-28 11.27.57 2013-08-28 11.27.49 2013-08-28 11.27.31 2013-08-28 11.27.20 2013-08-28 11.27.08 2013-08-28 11.27.02 2013-08-28 11.26.54 2013-08-28 11.26.43 2013-08-28 11.26.33 2013-08-28 11.26.23 2013-08-28 11.26.10 2013-08-28 11.25.51 2013-08-28 11.25.36 2013-08-28 11.25.05 2013-08-28 11.24.54 2013-08-28 11.24.45 2013-08-28 11.24.35 2013-08-28 11.24.22

Ementa e Programa da disciplina Identidade e Cultura (turmas A e B diurno)

IDENTIDADE E CULTURA (4-0-4)

EMENTA
Os diversos conceitos de cultura através dos tempos; teorias sociais sobre cultura; cultura como conceito antropológico; a questão da diversidade cultural e as teorias que as explicam; o evolucionismo, o funcionalismo, o culturalismo, a difusão cultural, o estruturalismo e a teoria interpretativa da cultura; cultura e personalidade; socialização e cultura; abordagem interacionista de cultura; o significado de aculturação; cultura popular; cultura de massa; cultura de classe; cultura e a noção bourdieuana de “habitus”; usos sociais da noção de cultura; cultura política, cultura empresarial e organizacional; relativismo cultural e etnocentrismo; conceitos de identidade; relação de identidade e cultura; identidade cultural e identidade social; concepção relacional e situacional de identidade cultural; cultura, identidade e etnia; Estado e identidade; estratégias de identidade; fronteiras da identidade; cultura e identidade na globalização; Políticas Públicas e identidade cultural; etnografia como forma de compreender a cultura de grupos sociais; estudo de casos de implementação de Políticas Públicas em grupos sociais distintos: sucessos e insucessos.

Programa da disciplina Identidade e Cultura

(Profa. Dra. Andrea Paula dos Santos – Turmas A e B – diurno, andrea.santos@ufabc.edu.br)

Conteúdos:

– Construções teóricas interdisciplinares dos conceitos de cultura e identidade no século XX;

– Culturas híbridas, culturas populares, cibercultura, cultura digital, interculturalidades;

– Corpos, identidades, pós-identidades, subjetividades, comunidades;

– Movimentos sociais e culturais e as políticas identitárias e pós-identitárias: diferenças, preconceitos e conflitos sociais;

– Políticas culturais e artísticas e as diversidades de gênero, sexuais, étnicas, socioeconômicas, geracionais, entre outras;

– Estudos Culturais e Estudos de Performance e Política; ações culturais e artísticas como políticas em torno da questão das identidades e pós-identidades;

– Artes, ciências, tecnologias: culturas, estéticas e éticas políticas do corpo humano, transumano, pós-humano.

Metodologia:

– Exposição e debates a partir da leitura de textos indicados na Biblioteca e vídeos do blog e outros apresentados e distribuídos nas aulas;

– Oficinas com pesquisa bibliográfica e de campo para desenvolvimento de processos criativos;

– Produção de blogs, de ações culturais e artísticas e de performances;

– Documentação e registro dos processos de trabalho individuais e em grupo na disciplina;

– Integração com atividades em projetos de pesquisa e extensão em andamento.

Avaliação:

– Auto-avaliação, ao final do quadrimestre, em forma de parecer escrito (que pode ser complementado com registros na internet, fotográficos, audiovisuais) sobre o processo de ensino-aprendizagem etodo o trabalho individual e em grupo feito ao longo da disciplina, considerando: participação; leituras; debates; documentação e registros de processos de pesquisa e criação; integração com atividades de extensão em andamento.

Portfolios Identidade e Cultura & Cavalete Parade na UFABC (124 fotos)

Veja álbum no facebook:

http://www.facebook.com/media/set/?set=a.363084923766579.85989.100001952239217&type=1

Transamerica e Priscilla… filmes sobre pós-identidades ou transidentidades

Trailer legendado

Título original: (Transamerica), Lançamento: 2005 (EUA), Direção: Duncan Tucker

Atores: Felicity Huffman, Kevin Zegers, Fionnula Flanagan, Elisabeth Peña. Duração: 103 min

Gênero: Drama

Bree Osbourne (Felicity Huffman) é uma orgulhosa transexual de Los Angeles, que economiza o quanto pode para fazer a última operação que a transformará definitivamente numa mulher. Um dia ela recebe um telefonema de Toby (Kevin Zegers), um jovem preso em Nova York que está à procura do pai. Bree se dá conta de que ele deve ter sido fruto de um relacionamento seu, quando ainda era homem. Ela, então, vai até Nova York e o tira da prisão. Toby, a princípio, imagina que ela seja uma missionária cristã tentando convertê-lo. Bree não desfaz o mal-entendido, mas o convence a acompanhá-la de volta para Los Angeles.

Filme na íntegra no youtube (dublado)

Título no Brasil:  Priscilla – A Rainha do Deserto, Título Original:  The Adventures of Priscilla, Queen of the Desert
País de Origem:  Austrália, Gênero:  Comédia, Tempo de Duração: 103 minutos, Ano de Lançamento:  1994

Um dos filmes de maior sucesso em Hollywood, que inspirou até um musical, é o irreverente e apaixonante ‘Priscilla, a Rainha do deserto”, um filme australiano de 1994, com um super elenco e vencedor do premio de melhor figurino do Oscar.
O filme Priscilla, conta a trajetória de 3 Drags Queens, Tick, Felicia e Bernadette, que cruzam o deserto australiano rumo a um trabalho, e nesse período, acabam descobrindo segredos uma das outras, aprendendo a conviver com suas diferenças, e tratando do preconceito de uma forma irreverente.

Estrelado por Terence Stamp, Hugo Weaving, Guy Pearce e Bill Hunter, Priscilla a Rainha do Deserto, é uma comédia emocionante, com os números de drags queen regados com muita musica, como é o caso do clássico I Will Survive. Além de tudo isso, a viagem a bordo do trailer “Priscilla” é o ponto mais emocionante e engraçado do longa.

Segue trecho do artigo de Guacira Lopes Louro, “Cinema e sexualidade”, Revista Educação & Realidade, 2008 (pp.92-94). Disponível em:

http://www.google.com/url?sa=t&source=web&cd=2&ved=0CB0QFjAB&url=http%3A%2F%2Fseer.ufrgs.br%2Feducacaoerealidade%2Farticle%2Fdownload%2F6688%2F4001&rct=j&q=transamerica%20filme%20viajantes%20p%C3%B3s-modernos%20guacira&ei=z9QkToqKCum30AHhocHHCg&usg=AFQjCNESmF5ytohzsSEfocJCUhgximil1w&sig2=4cteIKeRawNdt64Ral43tA&cad=rja

Travessias
A idéia de travessia entre os territórios dos gêneros e das sexualidades incita curiosidade, medo, inquietude, aversão, fascínio… Muitos filmes já lidaram com esta temática. Comédias, em especial, têm usado o travestimento de homens ou de mulheres para criar situações insólitas e engraçadas. O riso revela-se fácil,
especialmente, quando são enfatizadas dificuldades ou trapalhadas de alguém que se esforça por realizar uma performance de gênero oposta à sua “natureza”.
Filmes de grande sucesso de bilheteria como Quanto Mais Quente Melhor (Some Like it Hot, 1959), Vitor ou Vitória (Victor/Victoria, 1982), Tootsie (Tootsie, 1982), Uma Babá Quase Perfeita (Mrs. Doubtfire, 1993) são exemplos disso. A platéia, em tais casos, é colocada na posição de cúmplice do personagem e “sabe” que ele ou ela não é o que está fingindo ser; em outras palavras, a platéia “sabe” que o personagem não transgrediu ou não atravessou “pra valer” as fronteiras de gênero e, ao final, irá retornar à “normalidade”. Há, portanto, um
caráter provisório nesse (suposto) atravessamento e, provavelmente por isso, a situação não parece ser, efetivamente, subversiva.
Alguns filmes tratam de outras formas a questão. Em Traídos pelo Desejo (The Crying Game, 1992), por exemplo, o enfoque é dramático. Aqui, um militante do IRA percebe-se apaixonado pela namorada de um soldado que havia sido morto sob sua responsabilidade. A visão de um pênis no corpo que, de resto,
traz as marcas da mulher desejada provoca no protagonista choque e repúdio. A cena é inusitada e tensa. A platéia não é “avisada” e, junto com ele, é tomada de surpresa. O nu frontal da personagem transexual provoca e perturba.
Talvez perturbe especialmente porque ela se assume tal como é: “Não posso deixar de ser o que sou” (“I can ́t help what I am”), declara Dill (Jaye Davidson). Seu “estranho” corpo parece um obstáculo para o amor do militante Fergus (Stephen Rea) ou, pelo menos, para a expressão do amor por que Dill anseia. A impossibilidade de definir esse corpo em um dos dois gêneros torna-o ininteligível. Dill habita uma espécie de entre-lugar.
As personagens centrais de Priscilla, a Rainha do Deserto (The Adventures of Priscilla, Queen of the Desert, 1994) vivem, também, nesse espaço de fronteira, assumindo riscos e prazeres de desafiar as normas sociais. Em vez do drama, este road-movie (filme de estrada) narra a aventura de três drag queens numa longa viagem de ônibus através da Austrália. Suas figuras exuberantes, roupas bizarras, maquiagem exagerada, acessórios, sapatos e perucas extravagantes parodiam a feminilidade. Em suas performances, aproximam-se e, simultaneamente, subvertem o gênero. Expõem, espetacularmente, seu caráter construído. Como
outros road-movies, Priscilla também faz da viagem o eixo da narrativa. A estrada nunca é meramente cenário, e sim integra a trama. Associam-se a ela noções de passagem, trânsito, deslocamento, mudança. São viagens sempre pontuadas por obstáculos, provas, encontros, transtornos que, conseqüentemente, devem
transformar ou afetar os/as viajantes. Nesse caso, ao longo do trajeto, as três drag queens cruzam com outros personagens, sacodem pequenos vilarejos, perturbam ingênuos nativos, sofrem agressões, ganham amigos, cantam, dançam e seduzem. É possível pensar que perambulam não apenas através do deserto
australiano, mas também pelos territórios dos gêneros, ocupando um lugar usualmente inabitável, confundindo e tumultuando. Como viajantes pós-modernos, encarnam a transitoriedade; como drags, são propositalmente ambíguas e excessivas em seus gestos e em sua sexualidade (Louro, 2004).
Outro road-movie, Transamérica (Transamerica, 2005), também permite pensar o trânsito nos territórios dos gêneros e das sexualidades. Em tal filme, a personagem central é uma transexual que, às vésperas da cirurgia que irá completar sua mudança de sexo, descobre que tem um filho adolescente, resultado da única relação heterossexual que tivera nos tempos de faculdade, quando ainda era homem. Bree (Felicity Huffman), ansiosa por livrar-se do pênis, precisa lidar com o passado para conseguir a autorização de sua terapeuta e efetivar a
tão desejada cirurgia. Encontra, então, o filho Toby (Kevin Zegers), um garoto “problemático”, encrencado por uso de drogas e prostituição, que sonha conhecer o pai. Sem revelar sua identidade, Bree se lança junto com o garoto numa viagem através dos Estados Unidos, de Nova York a Los Angeles. Ambos seguem em
busca de seus sonhos e experimentam, durante o percurso, situações e emoções inesperadas, confrontam-se com seus passados e com eventuais futuros, descobrem-se, separam-se e reencontram-se.
Um dos principais eixos do filme é, precisamente, o intenso desejo de Bree de se tornar uma “verdadeira” mulher, conforme sua representação ideal do feminino. Para dar conta de cruzar a fronteira de gênero, Bree se constrói como uma mulher conservadora e recatada. Seus gestos, roupas, comportamento e idéias sugerem a feminilidade “clássica” dos anos 1950. Trajes cor-de-rosa bem-comportados, delicadeza e recato são suas marcas. Uma cena exemplar é seu encontro à noite com o caubói índio que dá uma carona para ela e Toby.
O homem toca violão e canta para Bree, que, enlevada, ouve atentamente e movimenta com suavidade a cabeça para demonstrar apreciação. Todo o seu corpo expressa sua imersão no território feminino – Bree é praticamente um estereótipo de mulher! Como alguém que se encontra em terra estrangeira, como
se fosse uma espécie de forasteiro ou exilado que teme ser expulso de um território que não é o seu, Bree segue à risca as normas do “novo” lugar. Sua “travessia” é cercada de minuciosos cuidados. Para ser legitimada como mulher, entende que precisa encontrar uma voz “feminina”, controlar movimentos e gestos acentuar a docilidade e aceitar a posição secundária diante do homem.
Quando, junto com Toby, a platéia vê Bree urinando, na estrada, seu “estranho” corpo fica exposto: o pênis se mostra incoerente com a figura feminina que ela reitera continuamente. Um corpo queer10, considerando a ambigüidade que tais marcas sugerem. Contudo, afora essa estranheza, Bree mostra-se muito pouco (ou nada) queer. Ela não tem qualquer disposição para a ambigüidade e para o estranho. Ela não se recusa à normatividade e à integração. Muito pelo contrário, empenha-se, fortemente, para se adaptar e se ajustar ao território feminino. Se é possível associar os sujeitos queer à figura do nômade, ou seja, à figura
daqueles que se caracterizam “pela renúncia e desconstrução de qualquer senso de identidade fixa”, como diz Rose Braidotti (2002), então Bree não é queer. Ela aspira a uma identidade estável. Ela pretende atravessar, efetivamente, a fronteira dos gêneros; quer adotar o novo território e ser por ele adotada. Sua maior ambição é ser tomada por uma mulher “autêntica”. “Eu não sou uma travesti, eu sou uma transexual”, proclama,
rejeitando o traje extravagante e exagerado que sua irmã lhe sugere em determinado momento. Bree deseja alcançar toda a legitimidade possível em sua travessia. Não quer, de modo algum, ser considerada “esquisita”; não quer ficar errando à toa entre os territórios masculino e feminino e sim estabilizar-se, tornar-se uma mulher “normal” e “respeitável”. E ela consegue, afinal, seu intento, bem como Toby, que “descobre” seu
pai/mãe e, após o choque, acaba indo para Hollywood para realizar o sonho de ser artista de cinema pornô. Na última cena, o filme mostra o reencontro dos dois. Gestos cautelosos, frases interrompidas, pequenas concessões podem ser vistos como indícios de que os personagens irão se entender e se aceitar mutuamente, em suas “novas” assumidas identidades. Ou não será assim? A história permanece aberta. Como acontece
em muitos filmes contemporâneos, em vez do happy end ou do final conclusivo, a platéia se vê diante de interrogações e possibilidades.
O “final” deste artigo talvez deva ser semelhante. Antes de construir um argumento decisivo ou buscar algum tipo de “arremate” para estas notas sobre cinema e sexualidade, parece mais promissor assumir a impossibilidade de concluir. Na contemporaneidade, o cinema, como tantas outras instâncias, pluraliza suas
representações sobre a sexualidade e os gêneros. Por toda parte (e também nos filmes) proliferam possibilidades de sujeitos, de práticas, de arranjos e, como seria de se esperar, proliferam questões.

Guacira escreveu um artigo somente sobre o filme Transmerica que se chama Viajantes Pós-Modernos e foi publicado num livro organizado por professores/pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais. Seguem as referências:

LOURO, Guacira Lopes. “Viajantes Pós-Modernos II”. In: MOITA LOPES, Luiz Paulo da. & BASTOS, Lilian Cabral (Orgs.) Para além da identidade: fluxos, movimentos e trânsitos. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2010. p.p 203-214.