Primeiras aulas de Identidade e Cultura em maio de 2015

26/05 – Aula 1

Na primeira aula, foi feita a apresentação da disciplina, com o debate sobre as seguintes palavras-chave, fundamentos básicos dos estudos e das práticas deste quadrimestre.

Identidades: sentidos de pertencimento e de localização no tempo e no espaço e em referência a um ou vários grupos.

Subjetividades: mundo íntimo de cada ser humano infinito, inexplicável e intraduzível.

Cultura: modo de vida (costumes, hábitos, saberes e fazeres de pessoas, grupos, povos) e, especialmente, capacidade dos seres humanos de produzirem, criarem, transformarem significados sobre o mundo que os rodeia.

Alteridade: capacidade de reconhecimento do outro, necessária para a construção dos sujeitos com suas próprias identidades, subjetividades, culturas.

Performance: comportamentos expressivos dos sujeitos e grupos, por meio dos quais as identidades são interpretadas, apresentadas, ou seja, performatizadas. Abarcam gestos, expressões corporais, linguagens, vestimentas e outros artefatos aos quais atribuímos significados e colocamos em circulação para realizar trocas interculturais.

A partir dessas palavras-chave, os estudantes são convocados a trabalhar na produção do seu próprio Blog-Projeto, organizando-o como um diário, um memorial das reflexões, ideias e discussões que surgem nas aulas e na sua observação da realidade. Cada estudante precisa também escolher um tema de pesquisa e reunir referências básicas sobre o mesmo (links, artigos, livros, vídeos, filmes, músicas, entrevistas, etc.).

A próxima aula será feita a partir dos blogs individuais recém-criados e dos temas de pesquisa escolhidos. Os estudantes também foram convocados  a se cadastrar no Tidia (IdentidadeCultura15) para que a atividade de educação a distância seja reconhecida pela UFABC na plataforma digital oficialmente adotada.

“O negócio é você fazer.”

“Quem tá desempregado tá procurando serviço no lugar errado.”

“Procurar onde? Dentro de você.”

(Hélio Leites, artista popular)

28/05 – Aula 2

chavefelicidade

Nesta aula, perguntamos se vocês começaram a fazer o seu diário/blog, contendo suas percepções sobre a primeira aula, as palavras-chave que foram abordadas e a observação do seu próprio cotidiano a partir delas. E também se vocês já tinham escolhido seu tema de pesquisa para eventualmente construir um projeto. Foi perguntado também se vocês se cadastraram no Tidia para postar as atividades necessárias à validação das atividades de educação a distância na plataforma oficial da UFABC.

Observamos que poucas pessoas tem a iniciativa de construir o seu blog e muitos ainda não se cadastram no Tidia, ou mesmo tomado a iniciativa de conhecer as leituras que estão disponíveis no seu repositório ou na Biblioteca do blog da disciplina, para começar a fazer seus estudos e suas próprias escolhas, construindo sua autonomia e tentando apreender uma certa possibilidade de visão crítica das suas próprias identidades sobrepostas, suas subjetividades constantemente agenciadas pelo consumo e pelo conservadorismo das Ciências Modernas no ambiente universitário disciplinar e disciplinador.

No entanto, alguns estudantes sempre começam a levantar aspectos interessantes de suas próprias culturas, tanto como modo de vida quanto como processos de (des)construção de significados. Alguns poucos e ousados falam de um novo olhar sobre sua própria família, o ambiente universitário, suas relações de amizade e as mudanças pelas quais estão passando com a vida na Universidade.

Em geral, nas aulas de Identidade e Cultura são levantados temas como, por exemplo, diversidades culturais; relações intergeracionais; ligações entre corpo, aparência e consumo; preconceitos étnico-raciais e de gênero; grupos juvenis ou “tribos” urbanas; torcidas e pessoas de diferentes países no contexto da copa do mundo; identidades nacionais como uma construção cultural a ser analisada; formas de pensar sobre o mundo e racionalidades possíveis; ligações entre pensamento, razão e emoção para se construir como sujeito autônomo e criativo.

Nas turmas, falei do Clifford Geertz e sua definição de cultura no livro A interpretação das Culturas, ressaltando a capacidade humana de construir e transformar significados no mundo, provocando assim grandes transformações na organização social e no comportamento das pessoas. Também mencionei em alguma turma as visões de história tão diferentes do famoso Capitão Cook e seu grupo de colonizadores ocidentais e dos havaianos, que foram abordados no livro Ilhas de História (disponíveis na Biblioteca do blog da disciplina).

Além disso, em uma das turmas falei do Gilles Deleuze, do Michel Foucault e do Félix Guattari, estudiosos franceses que trouxeram importantes reflexões sobre a nossa cultura contemporânea ocidental, suas racionalidades e formas de organização que uniram ciência e tecnologia no que atualmente se denomina de sociedade tecnocientífica, com impactos sobre o meio-ambiente e as diversidades culturais, as formas de vida e de pensamento de outros povos diferentes dos da chamada civilização ocidental.

Por isso, coloco aqui o link de uma Aula 2 de Ciência, Tecnologia e Sociedade, que contém conceitos e questões que igualmente podem ajudar os estudantes de Identidade e Cultura a expressarem suas identidades, subjetividades, culturas, performances para construir seu blog, com registros sobre a observação do seu cotidiano, suas impressões e ideias que surgem nas aulas, além de encontrar um tema de pesquisa para um eventual desdobramento.

http://cienciastecnologiassociedades.wordpress.com/2014/06/29/aula-2/

Aula 2, de CTS:

Nesta aula, os estudantes tiveram a oportunidade de acompanhar a leitura e debater acerca do texto clássico de um famoso filósofo francês do século vinte: DELEUZE, Gilles. “Post-Scriptum sobre as sociedades de controle”. Conversações 1972-1990. RJ: Ed. 34, 1992, pp. 219-226.

Disponível em:

DELEUZE, Gilles. Post-scriptum sobre as sociedades de controle

No texto, Gilles Deleuze dialoga com outro grande historiador e filósofo francês, Michel Foucault. Nossa sociedade moderna e capitalista é analisada a partir dos conceitos de sociedade disciplinar (Michel Foucault) e sociedade de controle (Gilles Deleuze). Para Foucault, a sociedade disciplinar é, por excelência, a sociedade ocidental moderna que constitui o Estado Moderno, sob o qual boa parte da humanidade vive até hoje. Para a constituição e eficácia do Estado Moderno, foram criadas instituições tais como, por exemplo, a família, a escola, a caserna (forças armadas), a fábrica, o hospital e o hospício. Os sujeitos, ao longo de suas vidas, podem transitar entre essas instituições que utilizam o conhecimento científico e suas várias especialidades (Ciência Moderna) e as tecnologias que foram criadas a partir dele para disciplinar os corpos e domesticar as mentes, garantindo a ordem e, acima de tudo, a produtividade que gera lucros apropriados por poucos a custa do trabalho de muitos. O Estado, visto dessa forma, não é neutro, muito menos as ciências e as tecnologias. Ele está apropriado por grupos minoritários de elite, que detém o poder político e econômico e que, sem muitas vezes nem se dar conta, o utilizam em nome de uma maioria para submetê-la e discipliná-la. Essas análises possuem uma visão crítica da sociedade industrial e da forma como esta naturalizou desigualdades e justificou uma certa maneira dos seres humanos dominarem uns aos outros e à natureza, que são históricas e nada naturais e, portanto, podem ser problematizadas, questionadas, transformadas.

Para Gilles Deleuze, atualmente vivemos um híbrido, uma mistura de organização dos grupos humanos entre a sociedade disciplinar e o que ele denomina de sociedade de controle. A disciplina não está mais apenas nas instituições, nos chefes, nas normas impostas pelo Estado Moderno e suas instituições. A disciplina se transformou em controle e auto-controle, e está principalmente dentro de cada indivíduo, que a incorpora. O controle e auto-controle é muito mais sutil e eficaz como forma de disciplinarização dos sujeitos que se submetem por vontade própria, sendo seu próprio chefe e, por inúmeras vezes, carrasco e algoz. O espírito de competividade e de vigilância de si mesmo e do outro mais próximo impera e os conhecimentos científicos e tecnológicos que hibridizam e configuram o que se chama na contemporaneidade de sociedade tecnocientífica. Vivemos num contexto que, para Deleuze, precisa ser problematizado, pois as tecnologias digitais como as da informática e o desenvolvimento dos meios de comunicação e informação estão à serviço do controle e da vigilância contínua dos sujeitos para trabalharem não mais na fábrica da sociedade industrial, na qual os operários tinham um chefe e um patrão para dominá-los, mas sim na “empresa”, que pode ser desterritorializada, em qualquer país ou na cabeça ou casa de cada um, característica da sociedade pós-industrial, do capitalismo financeiro, com seus donos acionistas invisíveis, que cobram sutilmente metas, produtividade, competitividade. Segundo este filósofo, ao invés de se perceberem como hiper-explorados e muitas vezes despidos da possibilidade de fazer suas próprias escolhas, gerir seu tempo livre, ter autonomia, muitos jovens estudantes estão pedindo por mais formações estágios que os capacitem a se tornaram a alma da “empresa”, mais competitivos e supostamente mais bem-sucedidos.

Perguntamos, nesta aula:

As tecnociências, tal como nos são ensinadas, impostas e naturalizadas em instituições disciplinares como a universidade – filha rica e bem-comportada da sociedade de controle hibridizada com a sociedade disciplinar – interessam, de fato, ao bem-estar da maioria dos sujeitos?

Se os conhecimentos científicos cada vez mais misturados com as tecnologias não são neutros nem estão disponíveis igualmente ao bem-estar da maioria das pessoas, como podemos problematizá-los no espaço acadêmico, buscando construir outros conhecimentos e tecnologias, bem como outras formas de apropriação desses saberes que sejam menos autoritários e exploradores dos sujeitos e destruidores do próprio ambiente que nos rodeia?

Como desnaturalizar, mostrar os interesses, as origens e os usos de determinados discursos sobre as ciências e tecnologias que parecem visar nossa “boa” formação humana e profissional mas que, de fato, nos transformam em peças descartáveis de reposição na lógica de produtividade capitalista para o lucro de poucos na sociedade (pós)industrial?

Como construir um auto-conhecimento, uma autonomia, uma criatividade individuais e coletivos capazes de gerarem outras formas de organizar a própria vida pessoal, se realizar profissionalmente de forma colaborativa com pessoas e gerações diferentes das nossas, e também aprender a ter uma visão crítica dos limites dos conhecimentos tecnocientíficos em curso, seus usos em prol de poucos, sua posição de agente principal na destruição do meio-ambiente e de qualidade de vida das pessoas por todo o mundo?

É possível viver de outro modo no contexto capitalista atual, em que o psicanalista Félix Guattari – parceiro de estudos de Gilles Deleuze – denominou como tipicamente esquizofrênico, no qual nossas atitudes cotidianas nos estudos, no mundo do trabalho e do consumo são agenciadas pelo marketing das “empresas” e dos donos do capitalismo financeiro e que nos fazem cair em contradição permanente com sentidos básicos de vida em comum, respeito ao outro, preservação do nosso próprio meio-ambiente, pondo em risco nossa saúde, o convívio de humanos em busca de felicidade e, sobretudo, os recursos naturais básicos para a vida das futuras gerações?

Além do texto provocativo de Gilles Deleuze, também foi distribuída na aula, para cada estudante a Revista E, do Sesc, com matéria interessante acerca da fotografia (uma tecnologia fundamental da contemporaneidade, seja no conhecimento científico, na vida cotidiana, nas artes, e também contendo dois artigos com olhares interdisciplinares sobre um exemplo de tema interessante que pode ser trabalhado em CTS: o carrocentrismo.

E você? Já abriu seu blog e se cadastrou no Tidia? Como as aulas, reflexões, temas e materiais das duas primeiras aulas podem contribuir com uma escrita pessoal que se inspire observando sua própria realidade, repassando suas próprias experiências a luz de novos conceitos e possibilitando ideias interessantes para seu tema de pesquisa? Além de suas impressões sobre as aulas e suas reflexões sobre seu cotidiano, seu blog precisa conter a escolha de um ou mais temas sobre o qual você precisa organizar documentos pesquisados, tais como livros, artigos, filmes, vídeos, músicas, fotografias já existentes e que também você mesmo comece a produzir sobre o tema.

Bom trabalho e até a próxima aula…

lifcamera

Aula 3

Nesta aula do dia primeiro de julho, fizemos uma reflexão importante sobre a necessidade de questionarmos os fundamentos que foram ensinados para muitas pessoas na educação básica, que vão na contramão de todas as transformações da educação contemporânea que ocorreram, pelo menos, desde o início do século vinte.

Tais fundamentos advindos de concepções ultrapassadas de ensino, existentes na educação básica ora como um currículo explícito, ora como um currículo oculto e disfarçado pelos supostos conteúdos das disciplinas especializadas da Ciência Moderna, são:

– aprender a decorar;

– aprender a copiar;

-aprender a obedecer;

– aprender a (in)tolerar e/ou competir.

Tais fundamentos que aprendemos mesmo sem querer, forjaram nossa construção como sujeitos com determinadas identidades, subjetividades, culturas e performances que, atualmente, nos colocam diante do enorme desafio de transformar posturas passivas diante das aulas, encarando com outro olhar, disposição e ânimo as atividades de aprendizagem, pesquisa e criação e de outras formas de pensar e reinventar conhecimentos e saberes.

Expressei, como contraponto, alguns fundamentos básicos da educação contemporânea que, inclusive, são debatidos até mesmo nos Parâmetros Curriculares Nacionais:

– aprender a aprender;

– aprender a fazer;

– aprender a ser;

– aprender a compreender e cooperar.

Desde aulas anteriores, temos debatido como é possível hoje que a educação, em todos os níveis, possa ser o espaço dessa transformação de fundamentos básicos, dando outro carater à formação básica e profissional.

Propomos uma abertura para esses fundamentos e convocamos as turmas a relacionar teoria e prática em Identidade e Cultura para modificar a própria percepção de identidades, subjetividades, culturas e performances que temos diante de nós.

Discutimos novamente os conceitos de identidade, como sentido de pertencimento e de localização no tempo e no espaço, e de cultura, como capacidade dos seres humanos e grupos sociais construírem e desconstruírem significados, indicando novamente as leituras atentas de Clifford Geertz e Marshall Sahlins, cujos livros inteiros foram disponibilizados em aula anterior.

E realizamos uma primeira oficina, neste quadrimestre, em torno do nosso Clube de Trocas.

A atividade reflexiva e lúdica foi possível graças à contribuição dos estudantes que tomaram a atitude fantástica e inusitada para uma aula costumeira de trazer objetos os mais variados e serviços/habilidades para trocar.

A cada objeto ou habilidade que trocamos, aprendemos um pouco sobre como tudo o que colocamos em circulação para trocar potenciamente:

– constrói nossas identidades;

– faz parte dos nossos mundos íntimos, ou seja, das nossas subjetividades,

– comporta a atribuição de inúmeros significados diferentes, ou seja, são pontos de apoio para a transformação permanente das nossas culturas;

– modificam nossos comportamentos expressivos, quer dizer, nossas performances que comunicam aos outros quem somos, o que queremos, o que fazemos em nossos grupos de convívio.

Eu ofereci um lápis que comprei no Sesc, que adoro porque tem uma borracha na ponta e um desenho maravilhoso de árvores, feito por um artista que gosto muito. Por mais que pareça um simples objeto barato, ele porta inúmeros significados para mim, pois sempre me acompanha nas leituras quando risco meus livros e também me faz lembrar todos os momentos felizes que aprendo e me divirto indo nos Sescs com toda a minha família. Troquei por um creme hidratante tão cheiroso que, se não me engano, foi a Jéssica que trouxe, e que gostei muito pois usá-lo e sentir seu aroma representa um momento de cuidado, de prazer, de bem-estar, coisa que parece ser tão difícil de ser oferecida ao outro no espaço universitário no qual nos encontramos.

Observamos e aprendemos com tantos objetos e habilidades trocados, com tanto entusiasmo, curiosidade, alegria e abertura para tentar entender como é que uma oficina prática pode nos ajudar a aprender novos conceitos tão sofisticados de cultura, performance, subjetividade, performance e identidade, além de outros tão falados e pouco praticados, tais como: cooperação, doação, coragem, iniciativa, criatividade… etc. etc. etc.

O que você trouxe para trocar? O que aquele objeto ou habilidade significou ou significa para você? O que você trocou e por que? O que você mais gostou e não gostou nessa nossa oficina? Como o que fizemos pode se relacionar com as leituras que foram indicadas? E como pode se relacionar com o que você pode expressar no seu blog sobre suas impressões, suas ideias, seus aprendizados e sobre seu tema de pesquisa?

A oficina do Clube de Trocas UFABC é permanente e acontecerá em todas as outras aulas de Identidade e Cultura, constituindo-se num projeto coletivo com o qual você pode colaborar e, inclusive, administrar, como parte das suas atividades do quadrimestre, que poderão ser consideradas em sua auto-avaliação. Participe!

trocastempotodo

Aula 2

chavefelicidade

Nesta aula, perguntamos se vocês começaram a fazer o seu blog, contendo suas percepções sobre a primeira aula, as palavras-chave que foram abordadas e a observação do seu próprio cotidiano a partir delas. E também se vocês já tinham escolhido seu tema de pesquisa para eventualmente construir um projeto. Foi perguntado também se vocês se cadastraram no Tidia para postar as atividades necessárias à validação das atividades de educação a distância na plataforma oficial da UFABC.

Observamos que poucas pessoas tiveram a iniciativa de construir o seu blog e muitos ainda não tinham se cadastrado no Tidia, conhecido as leituras que estão disponíveis no seu repositório ou na Biblioteca do blog da disciplina, para começar a fazer seus estudos e suas próprias escolhas, construindo sua autonomia e tentando apreender uma certa possibilidade de visão crítica das suas próprias identidades sobrepostas, suas subjetividades constantemente agenciadas pelo consumo e pelo conservadorismo das Ciências Modernas no ambiente universitário disciplinar e disciplinador.

No entanto, alguns estudantes começaram a levantar aspectos interessantes de suas próprias culturas, tanto como modo de vida quanto como processos de (des)construção de significados. Alguns poucos e ousados falaram de um novo olhar sobre sua própria família, o ambiente universitário, suas relações de amizade e as mudanças pelas quais estão passando com a vida na Universidade.

Foram levantados temas como, por exemplo, diversidades culturais; relações intergeracionais; ligações entre corpo, aparência e consumo; preconceitos étnico-raciais e de gênero; grupos juvenis ou “tribos” urbanas; torcidas e pessoas de diferentes países no contexto da copa do mundo; identidades nacionais como uma construção cultural a ser analisada; formas de pensar sobre o mundo e racionalidades possíveis; ligações entre pensamento, razão e emoção para se construir como sujeito autônomo e criativo.

Numa das turmas, falei do Clifford Geertz e sua definição de cultura no livro A interpretação das Culturas, ressaltando a capacidade humana de construir e transformar significados no mundo, provocando assim grandes transformações na organização social e no comportamento das pessoas. Também mencionei as visões de história tão diferentes do famoso Capitão Cook e seu grupo de colonizadores ocidentais e dos havaianos, que foram abordados no livro Ilhas de História (disponíveis na Biblioteca do blog da disciplina).

Além disso, em uma das turmas falei do Gilles Deleuze, do Michel Foucault e do Félix Guattari, estudiosos franceses que trouxeram importantes reflexões sobre a nossa cultura contemporânea ocidental, suas racionalidades e formas de organização que uniram ciência e tecnologia no que atualmente se denomina de sociedade tecnocientífica, com impactos sobre o meio-ambiente e as diversidades culturais, as formas de vida e de pensamento de outros povos diferentes dos da chamada civilização ocidental.

Por isso, coloco aqui o link da Aula 2 de Ciência, Tecnologia e Sociedade, que contém conceitos e questões que igualmente podem ajudar os estudantes de Identidade e Cultura a expressarem suas identidades, subjetividades, culturas, performances para construir seu blog, com registros sobre a observação do seu cotidiano, suas impressões e ideias que surgem nas aulas, além de encontrar um tema de pesquisa para um eventual desdobramento.

http://cienciastecnologiassociedades.wordpress.com/2014/06/29/aula-2/

Aula 2, de CTS:

Nesta aula, os estudantes tiveram a oportunidade de acompanhar a leitura e debater acerca do texto clássico de um famoso filósofo francês do século vinte: DELEUZE, Gilles. “Post-Scriptum sobre as sociedades de controle”. Conversações 1972-1990. RJ: Ed. 34, 1992, pp. 219-226.

Disponível em:

DELEUZE, Gilles. Post-scriptum sobre as sociedades de controle

No texto, Gilles Deleuze dialoga com outro grande historiador e filósofo francês, Michel Foucault. Nossa sociedade moderna e capitalista é analisada a partir dos conceitos de sociedade disciplinar (Michel Foucault) e sociedade de controle (Gilles Deleuze). Para Foucault, a sociedade disciplinar é, por excelência, a sociedade ocidental moderna que constitui o Estado Moderno, sob o qual boa parte da humanidade vive até hoje. Para a constituição e eficácia do Estado Moderno, foram criadas instituições tais como, por exemplo, a família, a escola, a caserna (forças armadas), a fábrica, o hospital e o hospício. Os sujeitos, ao longo de suas vidas, podem transitar entre essas instituições que utilizam o conhecimento científico e suas várias especialidades (Ciência Moderna) e as tecnologias que foram criadas a partir dele para disciplinar os corpos e domesticar as mentes, garantindo a ordem e, acima de tudo, a produtividade que gera lucros apropriados por poucos a custa do trabalho de muitos. O Estado, visto dessa forma, não é neutro, muito menos as ciências e as tecnologias. Ele está apropriado por grupos minoritários de elite, que detém o poder político e econômico e que, sem muitas vezes nem se dar conta, o utilizam em nome de uma maioria para submetê-la e discipliná-la. Essas análises possuem uma visão crítica da sociedade industrial e da forma como esta naturalizou desigualdades e justificou uma certa maneira dos seres humanos dominarem uns aos outros e à natureza, que são históricas e nada naturais e, portanto, podem ser problematizadas, questionadas, transformadas.

Para Gilles Deleuze, atualmente vivemos um híbrido, uma mistura de organização dos grupos humanos entre a sociedade disciplinar e o que ele denomina de sociedade de controle. A disciplina não está mais apenas nas instituições, nos chefes, nas normas impostas pelo Estado Moderno e suas instituições. A disciplina se transformou em controle e auto-controle, e está principalmente dentro de cada indivíduo, que a incorpora. O controle e auto-controle é muito mais sutil e eficaz como forma de disciplinarização dos sujeitos que se submetem por vontade própria, sendo seu próprio chefe e, por inúmeras vezes, carrasco e algoz. O espírito de competividade e de vigilância de si mesmo e do outro mais próximo impera e os conhecimentos científicos e tecnológicos que hibridizam e configuram o que se chama na contemporaneidade de sociedade tecnocientífica. Vivemos num contexto que, para Deleuze, precisa ser problematizado, pois as tecnologias digitais como as da informática e o desenvolvimento dos meios de comunicação e informação estão à serviço do controle e da vigilância contínua dos sujeitos para trabalharem não mais na fábrica da sociedade industrial, na qual os operários tinham um chefe e um patrão para dominá-los, mas sim na “empresa”, que pode ser desterritorializada, em qualquer país ou na cabeça ou casa de cada um, característica da sociedade pós-industrial, do capitalismo financeiro, com seus donos acionistas invisíveis, que cobram sutilmente metas, produtividade, competitividade. Segundo este filósofo, ao invés de se perceberem como hiper-explorados e muitas vezes despidos da possibilidade de fazer suas próprias escolhas, gerir seu tempo livre, ter autonomia, muitos jovens estudantes estão pedindo por mais formações estágios que os capacitem a se tornaram a alma da “empresa”, mais competitivos e supostamente mais bem-sucedidos.

Perguntamos, nesta aula:

As tecnociências, tal como nos são ensinadas, impostas e naturalizadas em instituições disciplinares como a universidade – filha rica e bem-comportada da sociedade de controle hibridizada com a sociedade disciplinar – interessam, de fato, ao bem-estar da maioria dos sujeitos?

Se os conhecimentos científicos cada vez mais misturados com as tecnologias não são neutros nem estão disponíveis igualmente ao bem-estar da maioria das pessoas, como podemos problematizá-los no espaço acadêmico, buscando construir outros conhecimentos e tecnologias, bem como outras formas de apropriação desses saberes que sejam menos autoritários e exploradores dos sujeitos e destruidores do próprio ambiente que nos rodeia?

Como desnaturalizar, mostrar os interesses, as origens e os usos de determinados discursos sobre as ciências e tecnologias que parecem visar nossa “boa” formação humana e profissional mas que, de fato, nos transformam em peças descartáveis de reposição na lógica de produtividade capitalista para o lucro de poucos na sociedade (pós)industrial?

Como construir um auto-conhecimento, uma autonomia, uma criatividade individuais e coletivos capazes de gerarem outras formas de organizar a própria vida pessoal, se realizar profissionalmente de forma colaborativa com pessoas e gerações diferentes das nossas, e também aprender a ter uma visão crítica dos limites dos conhecimentos tecnocientíficos em curso, seus usos em prol de poucos, sua posição de agente principal na destruição do meio-ambiente e de qualidade de vida das pessoas por todo o mundo?

É possível viver de outro modo no contexto capitalista atual, em que o psicanalista Félix Guattari – parceiro de estudos de Gilles Deleuze – denominou como tipicamente esquizofrênico, no qual nossas atitudes cotidianas nos estudos, no mundo do trabalho e do consumo são agenciadas pelo marketing das “empresas” e dos donos do capitalismo financeiro e que nos fazem cair em contradição permanente com sentidos básicos de vida em comum, respeito ao outro, preservação do nosso próprio meio-ambiente, pondo em risco nossa saúde, o convívio de humanos em busca de felicidade e, sobretudo, os recursos naturais básicos para a vida das futuras gerações?

Além do texto provocativo de Gilles Deleuze, também foi distribuída na aula, para cada estudante a Revista E, do Sesc, com matéria interessante acerca da fotografia (uma tecnologia fundamental da contemporaneidade, seja no conhecimento científico, na vida cotidiana, nas artes, e também contendo dois artigos com olhares interdisciplinares sobre um exemplo de tema interessante que pode ser trabalhado em CTS: o carrocentrismo.

E você? Já abriu seu blog e se cadastrou no Tidia? Como as aulas, reflexões, temas e materiais das duas primeiras aulas podem contribuir com uma escrita pessoal que se inspire observando sua própria realidade, repassando suas próprias experiências a luz de novos conceitos e possibilitando ideias interessantes para seu tema de pesquisa? Além de suas impressões sobre as aulas e suas reflexões sobre seu cotidiano, seu blog precisa conter a escolha de um ou mais temas sobre o qual você precisa organizar documentos pesquisados, tais como livros, artigos, filmes, vídeos, músicas, fotografias já existentes e que também você mesmo comece a produzir sobre o tema.

Bom trabalho e até a próxima aula…

lifcamera

05/07: A interpretação das culturas, Clifford Geertz e vídeos sobre tambores do passado, do presente e Fandango, patrimônio imaterial…

Na próxima terça-feira, a leitura e discussão é sobre o livro clássico de Clifford Geertz, A interpretação das Culturas, que está na Biblioteca Básica para download:

– Capítulo 1 – Uma descrição densa: por uma teoria interpretativa da cultura

Um Resumo do Capítulo 1 de A interpretação das culturas, Clifford Geertz

– Capítulo 9 – Um jogo absorvente: notas sobre a briga de galos balinesa

Um Resumo do Capítulo 9 de A interpretação das culturas, Clifford Geertz

A Mitologia de um Antropólogo

Entrevista de Victor Aiello Tsu com Clifford Geertz originalmente publicado na Folha de São Paulo de 18 de fevereiro de 2001

O aumento na quantidade de comunicações e a maior integração entre os seres humanos não necessariamente tornou a vida mais fácil. Para o antropólogo norte-americano Clifford Geertz, 74, um dos principais deveres dos antropólogos (e do cientista social de maneira geral) neste início de século é tentar fazer com que as diversas sociedades (que são cada vez mais complexas e envolvem cada vez mais pessoas) sejam capazes de atingir algum
entendimento entre si. Essa é uma das mais relevantes lições do autor de “Nova Luz sobre a Antropologia”, livro que está sendo lançado no Brasil nesta semana pela editora Jorge Zahar e reúne desde ensaios críticos à antropologia contemporânea até reflexões autobiográficas.
Com 18 livros publicados, Clifford Geertz é, depois de Claude Lévi-Strauss, provavelmente o antropólogo cujas idéias causaram maior impacto após a segunda metade do século 20, não apenas para a própria teoria e prática antropológicas, mas também fora de sua área, em disciplinas como a psicologia, a história e a teoria literária. Ele é considerado o fundador de uma das vertentes da antropologia contemporânea _a chamada antropologia hermenêutica ou interpretativa. Para o autor (que se graduou em filosofia e inglês antes de decidir ser antropólogo) este volume é uma oportunidade de, no fim de sua carreira, “montar sua própria lenda antes que outros o façam”. Clifford Geertz obteve seu PhD em antropologia em 1956 e desde então conduziu extensas pesquisas de campo que deram origem a livros escritos essencialmente sob a forma de ensaio. Suas pesquisas ocorreram na Indonésia e no Marrocos. Foi o descontentamento com a metodologia antropológica disponível à época de seu estudo, que lhe parecia excessivamente abstrata e de certa forma distanciada da realidade que encontrou em campo, que o levou a elaborar um método novo de análise das informações obtidas entre as sociedades que estudava. Seu primeiro estudo tinha por objetivo entender a religião em Java. No final, foi incapaz de se restringir a apenas um aspecto daquela sociedade _que ele achava que não poderia ser extirpado e analisado separadamente do resto, desconsiderando, entre outras coisas, a própria passagem do tempo. Foi assim que ele chegou ao que depois foi apelidado de antropologia hermenêutica.
Essa vertente, crucial para o desenvolvimento da contemporânea _e às vezes chamada pós- moderna_ antropologia de matriz norte-americana, é um estudo que pretende entender “quem as pessoas de determinada formação cultural acham que são, o que elas fazem e por que razões elas crêem que fazem o que fazem”. Uma das metáforas preferidas para definir o que faz a antropologia interpretativa é a da leitura das sociedades como textos ou como análogas a textos. A interpretação se dá em todos os momentos do estudo, da leitura do
“texto” cheio de significados que é a sociedade à escritura do texto/ensaio do antropólogo, interpretado por sua vez por aqueles que não passaram pelas experiências do autor do texto escrito.
Na entrevista a seguir, Geertz fala do panorama da antropologia atual, daquilo que ele vê como o dever do antropólogo tanto hoje quanto no futuro, dos limites da interpretação e de como a onda de globalização estaria afetando as diversas culturas.
O que o sr. acha que o futuro reserva aos antropólogos? Na introdução de seu livro, o sr. diz que está cada vez mais difícil sobreviver à base de antropologia, as coisas não são mais como eram. Qual é o campo de trabalho da antropologia?
Bem, não é bem que não dá para sobreviver com a antropologia, acho que os antropólogos estão sobrevivendo bem, mas está ficando mais difícil porque tudo está ficando mais complicado. Nós lidamos com uma gama maior de sociedades, não apenas as chamadas sociedades simples. Lidamos com sociedades grandes, como a Índia, o Brasil, o que torna as coisas mais complexas do que quando nós ficávamos restritos a apenas povos tribais.
Em segundo lugar, o mundo é agora muito mais integrado e desenvolvido, logo tudo é conectado a tudo o mais de forma bastante complicada. Além disso, há muito mais pessoas trabalhando nessas áreas, em que antes costumávamos trabalhar sozinhos. Ninguém mais estava muito interessado nos povos que estudávamos, mas hoje todos estão. Isso faz com que a antropologia seja muito mais do que a soma das coisas, em um sentido, mas muito mais difícil de buscar realizar, em outro.
Mas qual seria o dever dos antropólogos?
Não creio que possamos fazer muito mais do que seguir do jeito que estamos e continuar a pensar no que estamos fazendo e qual a nossa contribuição particular _o tipo de contribuição que a antropologia pode de fato dar eficazmente. A antropologia não pode mais ser uma ciência completamente geral, que estuda tudo, que diz estudar o “Homem”. Ela tem que perceber qual é, em um lugar como a Índia, ou a Indonésia, ou o Marrocos, ou o Brasil, o seu papel particular em interpretar o que ocorre _isso ao lado de outras disciplinas, como economia, política, história, literatura. Tudo isso deve ser levado em consideração, e a antropologia deve encontrar seu lugar e sua contribuição em meio a esses outros campos.
Como o sr. se envolveu com a antropologia?
Eu fiz faculdade depois da guerra, depois da Segunda Guerra Mundial, e estudei inglês e filosofia por uns tempos. E então, quando decidi fazer a pós-graduação, um de meus professores sugeriu que eu poderia me interessar por antropologia, em particular a que estava então sendo ensinada em Harvard, porque em Harvard estava sendo ensinada como parte de um departamento multidisciplinar, chamado relações sociais. Nesse departamento,
estavam reunidas as disciplinas de antropologia, sociologia, psicologia social e psicologia. Então eu fiz isso e foi assim que entrei para a antropologia.
O sr. acredita que a antropologia cultural, a chamada antropologia hermenêutica, pode ser considerada uma ciência?
Claude Lévi-Strauss diria que o tipo de antropologia praticada pelo sr. não é antropologia, e sim etnografia.
Devo dizer que não sou da mesma categoria que Claude, mas não acho essa questão particularmente importante. Não me importa se ele a chama de ciência ou não, eu mesmo acredito que seja, mas isso depende do que significa “ciência”. Lévi-Strauss certamente está certo ao dizer que a antropologia cultural não segue o mesmo modelo que as ciências naturais, mas eu acredito que seja empírica, sistemática, tente desenvolver argumentos que possam ser ao menos confrontados com provas. Ela vai atrás de um objetivo mais ou menos
específico… Por isso não vejo motivo para não chamá-la de ciência, mas concordo que não como a física ou a química etc. Porém não vejo por que compará-la à física. Eu mesmo não acho que a questão de como chamá-la seja tão importante. Então, para ela ser vista como ciência, não é necessário que a chamemos de ciência.
Suponho que não. É, não precisa. Eu costumo fazê-lo, bem, por questões políticas.

Parafraseando Max Weber, a antropologia, tanto em campo quanto na academia, é uma vocação?
Com certeza é uma vocação para mim, tem sido assim nos últimos 50 anos. Espero que continue a ser, sim, é um compromisso, é mais do que um simples trabalho ou um lugar para se receber um salário. Eu tento, suponho, melhorar as comunicações entre as pessoas, a compreensão entre as pessoas. Portanto acredito que seja uma vocação. Nem todos na antropologia estão comprometidos com ela como se fosse uma vocação, mas os melhores estão.
Quais são os limites da interpretação? Se a cultura é um texto _ou análoga a um texto_, e o antropólogo escreve um texto, e o leitor lê o texto e o interpreta também e isso vai em frente… Quais são os limites?
Bem, não sei, acho que você pára de interpretar quando não tem mais o que dizer. Por exemplo, eu vou e escrevo sobre Bali ou Java, talvez você leia, pense sobre o que significa no contexto daquilo que você está fazendo. E, após um tempo, não há muito mais a ser dito, quer dizer, nada muito mais interessante aparece, você pega o que pode e então segue em frente. Acho que a corrente de texto depois de um tempo se entrega, porque tudo o que sabemos de importante ou interessante já foi dito, ao menos naquela linha em particular, não
como um todo, mas nessa linha, sim. Então as coisas são abordadas de modo diferente, e vai-se em frente com isso. Não creio que haja um ponto final óbvio que diga exatamente onde é o fim da interpretação, mas, depois de um tempo, depois de 4.000 discussões acerca da briga de galos, quem sabe baste.
Mas é interessante, porque um estudante de antropologia brasileiro, lendo o ensaio sobre a briga de galos balinesa, terá uma visão completamente diferente da de um estudante de antropologia balinês, que terá uma visão diferente da do sr. quando escreveu o ensaio. Cada um está fazendo a sua própria interpretação. Bem, mas a decisão é pessoal. Uma coisa interessante a fazer seria confrontar as leituras balinesas do texto com as brasileiras. Poderia nos ser útil, na verdade não faço idéia, depende do que sairia disso. Mas costumo adotar uma visão a posteriori das coisas. Deve-se tentar primeiro e depois ver se vale a pena. Não podemos prever o que será útil e o que não o será.

Como se pode escapar do niilismo na interpretação?
Eu não vejo qual é o papel do niilismo. Se você fosse niilista, nem começaria a interpretar. Não tentaria ao menos começar a entender os outros. Acho que há uma diferença entre o niilismo e uma simples ausência de certeza. É verdade que quase todas as interpretações antropológicas tenham por fim um resíduo de incerteza, de vagueza, indeterminação, contingência. Mas isso não é niilismo, isso é o modo como o mundo é. Se você for
realmente um niilista, não se importará com nada, não tentará buscar compreender nada, não interpretará nada. Não escreveria _ao menos eu não vejo razão para que escrevesse_um longo livro sobre coisa nenhuma.
Seu novo livro tem um capítulo intitulado “Anti Anti-Relativismo”. Diante das duas atitudes dominantes na antropologia _defesa de um relativismo quase absoluto e defesa de uma moral ou “natureza humana anterior a qualquer análise antropológica”, onde exatamente o sr. se situa?
Como eu disse, sou um anti anti-relativista, mas acredito que essa posição seja mais comum aqui nos Estados Unidos do que imagino que seja no Brasil, embora eu não tenha certeza. Aqui nos EUA faz parte do movimento neoconservador puxar a carta do relativismo contra, bem, essencialmente contra a esquerda, contra liberais etc. O que dizem é que, a menos que você se agarre a certas verdades absolutas, de certo tipo, você não pode acreditar em nada, não pode fazer nada, agir etc., e eu obviamente me oponho a essa visão. Acho que é possível agir sob a incerteza, é possível agir sob o indeterminável, porque este é o modo como todos nós vivemos.
Qual é a sua perspectiva quanto aos rumos atuais da globalização, essa moda de globalização que está tomando conta do mundo? Como isso afeta as culturas?
Nos últimos capítulos do meu livro eu falo sobre o que é o padrão, ao menos o que acredito que seja um padrão. Ao mesmo tempo em que há muita comunicação e integração em nível mundial e uma ordem neoliberal geral, simultaneamente ocorre uma reação contra isso, que busca aumentar auto-expressões culturais. Acho que devemos usar esse paradoxo para entender exatamente o que acontece. Não me parece que nem a idéia de o mundo inteiro estar meio que subsumido em uma única hegemonia nem a noção de “cada um é seu próprio eu” se imporão. Não sei bem o que dizer sobre a globalização como processo, a globalização é um fato, está ocorrendo, o gado atravessa o mundo, há muita comunicação etc., mas não acho que isso ocorra sem paralelos, sem outros movimentos em direções opostas.
Então o sr. não concorda que a globalização seja um movimento avassalador de culturas “menores”?
Não, na verdade, não concordo. Bem, não sei como tudo isso terminará quem é que sabe isso? Mas o que eu sinto é que essas culturas são realmente fortes e, em certo grau, são estimuladas pela própria globalização a se tornarem ainda mais fortes. Não creio que elas serão esmagadas, embora muita gente ache que sim.
O sr. tem uma visão otimista do futuro…
Não diria que é uma visão otimista, mas que ao menos esse tipo de pessimismo não é o meu. Tenho meu próprio tipo de pessimismo, que não é esse.
E qual é o seu tipo de pessimismo?
Eu não tenho, estava brincando. Eu não acho que o mundo esteja prestes a se tornar, por completo, um tipo de hegemonia neoliberal baseada nos Estados Unidos. Há certamente pessoas que querem isso e alguns cientistas em alguns lugares que dizem que isso acontecerá, mas creio que há vários motivos para questionar isso. Não acredito que o neoliberalismo vá subjugar todo o mundo. Bem, temos que ver, temos que esperar a história
e ver.
Existe algum episódio de seu trabalho de campo que o sr. recorde como particularmente interessante?
Fiz muito trabalho de campo e sempre me diverti muito com ele. O primeiro de todos, ir por dois anos e meio a Java, foi bem excitante. Depois fui para Bali por um ano e depois para o Marrocos por vários anos. E então estive de volta a Java, a Bali, ao Marrocos… O trabalho de campo foi seguramente um dos pontos altos da minha vida.

Gostaria que o sr. contasse um caso específico, uma história anedótica…
Escrevi sobre praticamente todos os eventos anedóticos que me aconteceram, é difícil me lembrar de algum específico agora. O trabalho, depois de feito, quando olhamos para ele, é semi-autobiográfico, ao menos em parte. E no meu trabalho eu já contei uma série de histórias, coisas que me aconteceram: ter sido surpreendido em plena guerra civil na Sumatra, ter-me envolvido com certas pessoas no Marrocos…
Até que ponto a sociedade a que se pertence e aquela na qual se faz o trabalho de campo influem no trabalho dos antropólogos?
Não há dúvida quanto a isso, todos nós somos, como se diz hoje, “observadores situados”. A única coisa que se pode fazer a respeito é ter a maior consciência possível desse fato e pensar nisso, não assumir que o modo como vemos as coisas é o modo como as coisas simplesmente são, mas entender. Sim, obviamente, um antropólogo norte-americano ou um brasileiro ou um francês verão as coisas de uma maneira algo diferente, e uma das razões é o contexto cultural do qual eles vêm, do qual extraem suas percepções e seus princípios.
Não há nada de errado nisso, é inevitável, o erro ocorre quando as pessoas não se conscientizam disso e simplesmente assumem que qualquer sensação que têm não precisa ser confrontada com a realidade. Claro, não há nada semelhante a um observador totalmente neutro e abstrato. Isso não é tão fatal quanto pode soar, só significa que é preciso pensar sobre de onde as pessoas vêm, onde elas estão trabalhando etc.
E o que o sr. pensa a respeito do atual movimento chamado “pós-moderno” na antropologia?
Freqüentemente não se sabe bem de que se trata quando se fala em pós-moderno. Não me considero um pós-moderno no sentido estrito, mas acredito que os pós-modernos estão apresentando questões interessantes que precisam ser confrontadas até por aqueles de nós que possivelmente não estão muito enamorados das respostas dadas por eles quanto poderiam estar. Mas as questões que eles trazem e as preocupações que eles têm são todas bem reais, e essas questões e preocupações exigem algum tipo de resposta. Se a resposta que é usualmente associada ao pós-modernismo, que é uma visão descentrada e altamente relativa das coisas, é a resposta ideal, eu não tenho certeza, mas acho que os pós-modernos devem ser tomados como positivos para a construção da teoria antropológica. Eles contribuíram muito, criticamente, fizeram com que algumas posições e argumentos se mostrassem simples demais para serem mantidos e também trouxeram o tipo de pergunta
que você fez momentos atrás sobre a influência da sociedade de alguém na percepção desse alguém etc. Foi esse tipo de coisa, entre outras, que nos foi trazido pelos pós-modernos. Um monte de outros problemas com relação à escrita, com relação à retórica, com relação à questão da prova etc., como nas ciências naturais, tudo isso vem à tona, ao menos em parte, devido à crítica pós-moderna. Então, como crítica, acredito que tenha tido
um valor significativo, mas, como força positiva e construtiva, sou um pouco mais cético.
Quais são os seus planos para o futuro? O sr. pensa em escrever mais um livro?
Não sei, não estou escrevendo um agora, tenho que escrever alguns ensaios e tenho que dar algumas palestras, mas tenho 74 anos, então… Você sabe, nesta altura a gente pensa no futuro de um modo diferente. Não sei, talvez escreva algo, mas no momento não estou trabalhando em um livro, estou trabalhando _bem, escrevo resenhas, tenho que falar com algumas pessoas no mês que vem e coisas do gênero. Tenho que tentar cumprir algumas promessas que fiz antes e não pude cumprir enquanto estava escrevendo livros. Mas eu posso eventualmente voltar a escrever. Veremos. Quando se toca de ouvido, quem sabe?

Fonte: Rever – Revista de Estudos da Religião, No 3 / 2001 / pp. 126-133 (PUC-SP)

http://www.google.com/url?sa=t&source=web&cd=10&ved=0CFEQFjAJ&url=http%3A%2F%2Fwww.pucsp.br%2Frever%2Frv3_2001%2Fp_geertz.pdf&rct=j&q=clifford%20geertz&ei=l4wPTpWdNeS40AHzrq2lDg&usg=AFQjCNGwdLzRguwCs0u6UaAvWMDTaXaZcQ&sig2=kSBJGZmm-01u01cfuLtOtw&cad=rja

versão em pdf:

A mitologia de um antropólogo, Entrevista com Clifford Geertz

Exemplos de vídeos com pesquisas de campo que interpretam culturas de maneira única, mostrando influências, contradições, permanências, transformações…

Em 1971, Jean Rouch aceitou o convite para filmar uma cerimônia de possessão em Simiri, no Níger; era o mesmo vilarejo e o mesmo ritual que ele havia filmado 20 anos antes em “Yenendi, os homens que fazem chover”. Apesar dos esforços do sacerdote e do uso de dois tambores especiais – tourou e bitti -, ao longo de três dias ninguém foi possuído. No quarto dia, depois de horas e horas de espera, Rouch decidiu filmar assim mesmo. Se os espíritos não se manifestavam, ele pelo menos registraria um pouco da bela música daqueles tambores arcaicos, em risco de desaparecimento.
Ligou a câmera e caminhou por entre os participantes até chegar aos tambores. Quando estava a ponto de cortar, as possessões começaram. Assim foi feito Os tambores do passado, curta-metragem em um único plano no qual a própria câmera toma parte da cerimônia e se evidencia como elemento catalisador do ritual. É um ótimo exemplo do que Rouch batizaria de “cine-transe”.

Murilo Santos filmou o tambor de crioula do Maranhão em 1979 (os dois primeiros vídeos) e o Canal Futura recentemente (os três últimos vídeos). É interessante e importante observar e analisar as mudanças e as continuidades entre as duas interpretações audiovisuais dessa prática cultural.

E, por fim, seguem vídeos de uma série que fiz em 2009, na cidade de Antonina (PR), talvez como uma “descrição densa” pós-moderna, sobre uma manifestação da cultura paranaense. O Fandango do Grupo Mandicuera incorporou esses registros na sua página na internet (http://www.mandicuera.com/video_cat.php?c=5) e hoje, para minha alegria e satisfação, eles também servem de representação/interpretação de culturas compartilhadas com aqueles que se permitiram filmar.

Baile de Fandango no Festival de Antonina, Paraná, em 2009. O grupo Mandicuera, de Paranaguá, se apresenta anualmente a convite do Grupo Boi Barroso, de Antonina. Nós, fandangueiros e fãs da cultura popular brasileira e paranaense, agradecemos dançando a noite inteira! Mãe ca Fia é a pinga com melaço que é feita pela Associação Mandicuera e vendida no baile para animar o povo e arrecadar recursos para que os fandangueiros continuem a fazer belas festas como essa!
Esse vídeo faz parte de uma sequência que buscou criar um olhar artístico-histórico-antropológico, enfim interdisciplinar, sobre uma prática cultural que se tornou oficialmente, em 2011, patrimônio imaterial. Não tem legendas, nem narração, nem roteiro editado por princípio e inspiração. Não significa que não contenha uma narrativa e um olhar atento sobre os músicos, os dançarinos e os espectadores… 🙂

Para mais, leia:

O audiovisual como documento histórico: questões acerca de seu estudo e produção

por Andrea Paula dos Santos

O artigo trata do audiovisual como documento histórico, discutindo questões acerca de seu estudo e produção. Aborda filmes e vídeos como documentos históricos a partir de algumas reflexões de Walter Benjamin, Marc Ferro, Ismail Xavier, Roger Chartier. Procura levantar pontos a serem considerados na produção e pesquisa audiovisual, sobretudo de documentários, em diálogo entre História Cultural e Antropologia Visual, e busca problematizar olhares interdisciplinar das Artes e das Humanidades sobre as possibilidades de trabalho com documentos audiovisuais.

Disponível em:

O audiovisual como documento histórico: questões acerca de seu estudo e produção

ou download em pdf:

O audiovisual como documento histórico: questões acerca de seu estudo e produção