O que é o ato de criação e os novos Universos de referência do Gilles Deleuze e do Félix Guattari

“O melhor é a criação; a invenção de novos Universos de referência…” Félix GuattariCaosmose. SP: Ed. 34, 1992, p. 15

“O que é ter uma ideia? Ter uma ideia não é alguma coisa de geral… Uma ideia já é destinada a tal ou qual domínio.

Quero dizer que uma ideia em pintura, uma ideia em romance, uma ideia em filosofia, uma ideia em ciencia – e evidentemente uma pessoa não pode ter todas elas… se vocês querem as ideias é preciso tratá-las como potências, potenciais já comprometidos com tal o qual modo de expressão. Em função das técnicas que eu conheço, eu posso ter uma ideia em tal domínio, seja em cinema ou em filosofia.

O que é ter uma ideia ‘em’ alguma coisa? Os conceitos, é preciso fabricá-los (…) E é preciso que se tenha uma necessidade, caso contrário, não se tem nada. Uma necessidade, que é uma coisa bastante complexa, se ela existe, faz com que o sujeito se proponha a inventar, criar conceitos.

Não há distância nisso entre a criação em ciência ou em arte.

Assim digo que não se trata de dizer se a ideia é verdadeira ou falsa. A questão é saber se ela é importante, é interessante, é bela…” ” (O que é o ato de criação do Gilles Deleuze da Andrea Paula)

9/6 e 11/6 – Aulas 4 e 5

9/6 – Aula 4

Esse memorial de uma aula de CTS dialoga com a de Identidade e Cultura e pode interessar a alguns estudantes mais curiosos:

Apresentamos, nesta aula, para reflexão e ligação com as temáticas de pesquisas dos blogs, o conceito de cultura, do antropólogo estadunidente, professor do MIT, Michael Fischer, cujos capítulos 1 e 2 de seu livro estão disponíveis em nossa Biblioteca, para leitura:

“Cultura é aquele todo relacional, complexo, cujas partes não podem ser modificadas sem afetar as outras partes, mediado por formas simbólicas potentes e poderosas, cujas multiplicidades e cujo caráter performativamente negociado, são transformados por posições alternativas, formas organizacionais e o alavancamento de sistemas simbólicos , assim como pelas novas e emergentes tecnociências, meios de comunicação e relações biotécnicas.

Futuros Antropológicos: Redefinindo a cultura na era tecnológica. RJ: Zahar Ed., 2011, p. 19.

Essa definição de cultura, que é também repleta de hibridismos e interculturalidades, ressalta o impacto das tecnociências em nossa cultura, modificando não apenas nossas formas organizacionais, simbólicas e de comunicação, mas a própria configuração do que entendemos por formas de vida, sem que consigamos mensurar boa parte das consequências das tecnociências em franca aplicação sem reflexão crítica nas nossas sociedades disciplinares/sociedades de controle, conforme tratamos em aulas anteriores, ao falarmos do diálogo entre Gilles Deleuze com as ideias de Michel Foucault. Daí a necessidade da mudança da nossa postura frente aos fundamentos que apontamos no início para que, como estudantes, educadores, cientistas, futuros profissionais de todas as áreas de conhecimento, possamos sempre pensar, criticar e transformar os próprios conhecimentos científicos e tecnologias com os quais temos que trabalhar, com vistas a aprender a reconhecer nossas responsabilidades frente aos impactos das tecnociências.

Também problematizamos o senso comum, já criticado há muito tempo de que as ciências e as tecnologias são neutras. Demos exemplos de como a partir do pós-guerra, na segunda metade do século vinte, houve uma crítica radical quanto aos limites da ciência e da tecnologia por conta da enorme destruição e morte que só foi possível graças aos conhecimentos e práticas científicas e tecnológicas produzidos pelas Ciências Modernas que, infelizmente, serviram de justificativa para um determinado tipo de racionalidade e de usos mortíferos e letais das tecnologias contra seres humanos. Um autor que citamos foi o famoso historiador Eric Hobsbawn e, especificamente, seu livro que é um clássico, uma leitura obrigatória para aqueles que querem entender um pouco da realidade contemporânea, A era dos Extremos: o breve século XX (1914-1991):

“(…) a estranha democratização da guerra. Os conflitos totais viraram ‘guerras populares’, tanto porque os civis e a vida civil se tornaram os alvos estratégicos certos, e às vezes principais, quanto porque em guerras democráticas, como na política democrática, os adversários são naturalmente demonizados para fazê-los devidamente odiosos ou pelo menos desprezíveis. As guerras, [são] conduzidas de ambos os lados por profissionais, e especialistas… (…) …a nova impessoalidade da guerra, que tornava o matar e estropiar uma consequência remota de apertar um botão ou virar uma alavanca. A tecnologia tornava suas vítimas invisíveis…” (pp. 56-57)

Falamos de como a racionalidade científica foi utilizada para criar os campos de concentração, um dos símbolos máximos da barbárie no século vinte, e que teve sua idealização no coração da Europa, onde a Ciência Moderna surgiu e foi glorificada como a rainha que levaria sempre ao progresso da humanidade. Essa mesma racionalidade Ciência Moderna serviu de base aos médicos alemães que torturaram e mataram pessoas presas nos campos de concentração, justificando suas atitudes como “experimento científico”.

Foi assim que expliquei que meu legado, como historiadora, talvez uma “cientista” das humanidades, é fazer a crítica da suposta democratização e neutralidade de certos conhecimentos e práticas ditas científicas e tecnológicas. Nós, mulheres cientistas como eu, a brasileira Lúcia Santaella, e as estadunidenses Sandra Harding e Donna Haraway, sabemos que certos padrões de conhecimento e de ignorância criados pelas Ciências Modernas atingem e conformam objetiva e subjetivamente, e de forma desigual, a vida de homens e mulheres de diferentes regiões e culturas de todo o planeta, beneficiando determinados grupos e excluindo ou eliminando outros, e pondo em questão a própria ideia que temos do que é o humano, a natureza e a ciência como um discurso sobre ambos. De acordo com o sociólogo brasileiro Laymert Garcia dos Santos, vivemos já num contexto demasiadamente pós-humano, sem ao menos nos darmos conta de como as tecnologias são altamente politizadas, com sérios impactos sócio-técnicos da informação digital e genética em nossa vida cotidiana.

Contudo, quero pensar também – de forma quase otimista-pessimista – que a partir do momento no qual vocês, estudantes e futuros profissionais. entram em contato com esses conhecimentos críticos, esse legado crítico também é de vocês e poderá ter grande impacto se souberem relacioná-lo às suas vidas cotidiana e profissional, problematizando suas próprias identidades e subjetividades

Falei da necessidade desse otimismo-pessimista que nos move na sociedade em rede, de Manuel Castells:

“A sociedade em rede, em termos simples, é uma estrutura social baseada em redes operadas por tecnologias de comunicação e informação fundamentadas na microelectrónica e em redes digitais de computadores que geram, processam e distribuem informação a partir de conhecimento acumulado nos nós dessas redes. A rede é a estrutura formal (vide Monge e Contractor, 2004). É um sistema de nós interligados. E os nós são, em linguagem formal, os pontos onde a curva se intersecta a si própria. As redes são estruturas abertas que evoluem acrescentando ou removendo nós de acordo com as mudanças necessárias dos programas que conseguem atingir os objectivos de performance para a rede. Estes programas são decididos socialmente fora da rede mas a partir do momento em que são inscritos na lógica da rede, a rede vai seguir eficientemente essas instruções, acrescentando, apagando e reconfigurando, até que um novo programa substitua ou modifique os códigos que comandam esse sistema operativo.
O que a sociedade em rede é actualmente não pode ser decidido fora da observação empírica da organização social e das práticas que dão corpo à lógica da rede. Assim, irei resumir a essência daquilo que a investigação académica (isto é, a produção de conhecimento reconhecida como tal pela comunidade científica) já descobriu em vários contextos sociais.”
Castells, Manuel. A sociedade em rede: do conhecimento à ação política., p. 20.

Todos vivemos na sociedade em rede, queiramos ou não, conectados ou não, pois a lógica da vida contemporânea é definida por ela e pelos que têm poder para organizá-la, queiramos ou não. Tratamos das ideias de Castells sobre a necessidade de reformar o Estado e refundar a educação, para que a organização da sociedade em rede seja democrática. E nos perguntamos? Isso é possível? Como os conhecimentos científicos e as tecnologias que criamos e usamos no contexto de uma cultura visual e de uma cultura digital podem ter relação com isso?

E falamos também do capitalismo-esquizofrenia, que aprendi com o psicanalista Félix Guattari ( As três ecologias e Da produção de subjetividade In: Caosmose ), de emergência crítica de visões de ciência que alguns denominam, ora de forma elogiosa ora de forma pejorativa como, de Ciências Pós-Modernas, num panorama em torno da complexidade do pensar o que possa vir a ser o fazer de uma Ciência com Consciência, como diria o filósofo e sociólogo Edgar Morin ou de crítica doparadigma dominante  de um certo discurso sobre as ciências como, à sua maneira, fez o sociólogo Boaventura de Souza Santos, preocupado com a ciência que põe a sociedade em risco. Atualmente, podemos escolher entre tantas visões críticas e, se quisermos, conhecer a existência de outras noções sobre o que é a ciência se a entendermos como um dos discursos possíveis sobre o mundo em que vivemos. E também ficarmos atentos às várias definições do termo “tecnologias”, que está em disputa e em processo de pluralização: tecnologias científicas,tecnologias culturais, tecnologias sociais, tecnologias de comunicação e informação.

Diante de tantas plurais e híbridas referências que elenquei nesta aula, como bem criticou o famoso antropólogo Bruno Latour, posso até considerar que, ao invés disso parecer uma crítica eficaz às mazelas da nossa sociedade tecnocientífica, essa reflexão reforce mais ainda um certo discurso cético de que nossa vida intelectual é decididamente mal construída. Ainda mais se for na base da interdisciplinaridade do fast-food-talk-show que nós dá a possibilidade de tratar das vastas temáticas dessas aulas, em poucas horas de um mísero quadrimestre. No entanto, como hoje estou tentando tratar de tudo e mais um pouco que me interessa como pesquisadora num tom de ambiguidade crítica relativamente otimista-pessimista (e não pessimista-otimista!) – para alguns muito pós-estruturalista, para outros de desconstrução (quem me dera!)- torço, ingenuamente e bem iluminista, para que vocês leiam essas ideias e referências linkadas como fonte de questões a serem relacionadas com suas experiências, observações e temas de pesquisa em seus blogs, fazendo novas (des)construções sobre as temáticas que abordamos. Pois, afinal, como educadora no século vinte e um (ou como uma Pandora que apresenta seu post-caixa com novos mitos no seu discurso que não se conforma com os velhos discursos e os usos sociais das ciências, ainda tão em voga nas universidades) tenho o privilégio de poder decidir que a responsabilidade por organizar sua autonomia e seu ritmo para essas leituras em diálogos comigo e com o que você pode pensar, criticar, criar e fazer é totalmente sua.

Tento aprender e fazer aqui a minha parte de criar uma pequena sistematização, como um memorial que pedi a vocês e, quem sabe, consigamos assim ter uma medida do que podem ser as dificuldades e as vantagens incomensuráveis de um “aprender a aprender” e  “aprender a fazer”, mencionados como fundamentos básicos da educação contemporânea no início desse texto… Já o “aprender a ser” e o “aprender a compreender e cooperar” dependerá do que cada um que está envolvido nesse processo vai pensar e criar a partir dessas camadas de palavras apresentadas a vocês: mais uma vez, bom trabalho!

caixa de pandora

http://cienciastecnologiassociedades.wordpress.com/

11/6 – Aula 5

Continuação da Aula 4, memorial acima