25/6 e 30/6 – Aula 10 e 11: Cultura Visual, cultura digital, inter/transdisciplinaridades

cultura digital

Cultura visual e cultura digital

O que se denomina como cultura visual? Por que alguns estudiosos, educadores, artistas, cientistas consideram a cultura visual como típica do nosso tempo? Por que boa parte das pesquisas sobre cultura visual é desenvolvida no campo dos Estudos Culturais, da Semiótica, da Artemídia?

Seguem algumas definições de cultura visual que interessam para se debater fundamentos e temas em Ciência, Tecnologia e Sociedade; Arte, Ciência e Tecnologia e Arte/Educação. Uma definição é mais abrangente: ressalta a diversidade do mundo de imagens, processos de visualização e de modelos de visualidade. Destaca a importância dos modos de ver e da experiência visual como paradigma da nossa época e aborda as representações como práticas de significação. São imagens e mediações que tornam a sociedade possível.

Outra definição é mais restrita: enfatiza a cultura de tempos recentes marcados pela imagem digital e virtual sob domínio da tecnologia. Marca a centralidade do olhar na cultura ocidental e revela o ocularcentrismo como base do pensamento científico ocidental. A visualidade é tratada como ponte entre representação e poder cultural na era da globalização.

Cultura visual, Estudos Visuais, História Visual… destacam que os sentidos/significados não estão investidos nos objetos, mas sim nas relações humanas. A cultura visual é uma produção social e o olhar uma construção cultural. Há interesse nos processos e práticas cotidianas de olhar, de exposição, de significação para além do estudo das imagens (produção, circulação, apropriação). E compreende-se que a experiência visual não se realiza de modo isolado, e a representação visual é parte de um conjunto entrelaçado de práticas e discursos que envolvem outros sentidos da percepção.

Por tudo isso, como podemos notar, seria muito difícil tratar de fundamentos e temáticas em Ciência, Tecnologia e Sociedade sem estudarmos e reconhecermos características básicas do que se denomina de cultura visual.

Por outro lado, hoje vivemos o tempo da cultura digital, que transforma percepções, cognições, representações do real, sociabilidade, modos de vida, culturas, práticas e expressões artísticas e culturais. Mas o que é isso? A cultura digital constituiu-se numa ampla e complexa rede de representações e formas de sociabilidade produzidas em linguagens múltiplas (visual, audiovisual, oral, musical, escrita) que convergem, se misturam, se entrelaçam em redes digitais por meio de tecnologias de informação e comunicação. A expressão mais visível da cultura digital em nosso cotidiano é a internet, porém ela vai muito além, para alguns estudiosos, configurando uma nova maneira de se estabelecer as relações entre sujeitos e grupos sociais, chamada de sociedade em rede, por Manuel Castells.

Os estudos acerca da cultura digital são muito importantes para se pensar fundamentos e temáticas em Ciência, Tecnologia e Sociedade pois, ao conectar tantas pessoas em contextos de diversidade cultural, abrem possibilidades de acesso a informações, de trabalho e de diálogos impensáveis até bem pouco tempo atrás.

O que destacamos, sobretudo, é que a cultura digital favorece para que muita gente possa produzir e não apenas consumir arte e cultura, problematizando as relações e os processos de produção científicos, artísticos e culturais advindos das instituições tradicionais. Esta delimitava fronteiras claras entre cientistas, artistas, outros profissionais (os que criam) e consumidores (os que recebem), relações hierarquizadas que podemos trazer para o campo educacional quando pensávamos em professores como os que ensinam conteúdos, e alunos como os que assimilam conteúdos, por exemplo. Debates importantes para nós incluem as seguintes questões: a cultura digital favorece a criatividade ou a passividade? Ou ambas? A cultura digital permite que tipo de produções e circulações/apropriações de representações, conhecimentos, tecnologias? Como cientistas, artistas, pesquisadores, educadores podem ser produtores e mediadores de conhecimentos no contexto da cultura digital? A cultura digital transforma a cognição e o que é a própria configuração do ser humano, colocando em pauta o chamado pós-humano? Essas questões estão em aberto e nos provocam, porque trazem e trarão muitas reflexões e propostas de trabalho interessantes nos próximos tempos…

Interdisciplinaridade e Transdisciplinaridade

A ciência moderna construiu muitos conhecimentos por meio das áreas disciplinares. Podemos atribuir grande parte do desenvolvimento da sociedade capitalista ao trabalho feito nas especialidades, por cientistas, pesquisadores, artistas, estudiosos.

Sem áreas específicas de saber, como as Artes, a História, as Ciências Sociais, a Medicina, a Matemática, a Química, a Física, a Biologia, por exemplo, talvez não tivéssemos criado tantos conhecimentos que possuem aplicabilidade na vida cotidiana no mundo ocidental.

Porém, esse mesmo desenvolvimento social na modernidade, tornou mais complexa a vida e a organização da sociedade.

Com o tempo, as pessoas formadas em áreas de conhecimento específicas passam a perceber a urgência de se criar ligações entre saberes específicos para conseguir compreender e atuar sobre os problemas do mundo.

Surgem perspectivas interdisciplinares, que buscam tratar temáticas com a contribuição de várias áreas de conhecimento disciplinar, postas lado a lado. As Artes, as Humanidades, as Ciências Naturais e Exatas caminham juntas em projetos de pesquisa, novas formulações teóricas e criações de novos conhecimentos e saberes.

Das práticas interdisciplinares surgem perspectivas transdisciplinares, ou seja, da mistura de saberes especializados criam-se outros novos saberes e campos de conhecimento, que buscam pluralizar pontos de vista, teorias, propostas de estudo, e não aceitam mais hierarquizações que dizem qual ou tal área é mais importante para estudar um tema.

Um exemplo de novo campo de saber que tornou-se área de conhecimento recente são os Estudos Culturais, e alguns acreditam que Arte/Educação e Arte, Ciência e Tecnologia também se configuram de forma transdisciplinar – sem contar inúmeras outras novas áreas de conhecimento no campo das Ciências Exatas e Naturais – como espaço de produções de saberes antes inexistentes, talvez sem condições de serem gerados em uma ou outra especialidade.

Em novas áreas como essas, as Artes, as Humanidades e as Ciências podem então atuar tanto lado a lado quanto atravessar temáticas, questionando fronteiras entre as ciências e seus objetos de estudo. Afinal, artistas podem ser cientistas, educadores, técnicos ou tecnólogos e vice-versa, como sabemos. Mais do que isso, o olhar trazido pelas artes pode trazer outras visões, problemas, dilemas, soluções onde observadores de outras áreas não enxergavam nada ou muito pouco…

Em tais perspectivas de trabalho transdisciplinares, o conhecimento e a compreensão da diversidade cultural é uma das temáticas mais destacadas, com ênfase no reconhecimento de conflitos entre culturas, e na multiplicidade de tecnologias culturais e artísticas que cada sujeito e/ou grupo social cria e utiliza para viver e lidar cotidianamente.

30/6 – Aula 11

O texto distribuído e comentado na aula de hoje no Espaço de Vivência foi:

Toxicômanos de identidade, de Suely Rolnik

Toxicômanos de identidade

Também falamos do famoso livro de Marc Augé (quem achar em pdf, por favor, compartilhe!),

marcaugé

NAO LUGARES

INTRODUÇAO A UMA ANTROPOLOGIA DASUPERMODERNIDADE

E também do livro de Nestor Garcia Canclini, Consumidores e Cidadãos (se achar em pdf em português, idem!), do qual compartilhamos um capítulo do original em espanhol da nossa Biblioteca:

– Capítulo de livro:  Consumidores y ciudadanos. Conflictos multiculturales de la globalización. México, Grijalbo, 1995, pp. 41-55

“El consumo sirve para pensar”

garcia_canclini._el_consumo_sirve_para_pensar

canclini consumidorescidadaos

Discutimos como identidades e subjetividades constroem e desconstroem territórios. Falamos de como, no contexto da globalização, as identidades são oferecidas como perfis-padrão para serem consumidos e descartados, além de abordar como os estímulos gerados no mundo contemporâneo pela propraganda e todo tipo de mídia são agenciados por nossas subjetividades em crise, em processos complexos.

No que estas questões, e as propostas pelos textos das aulas anteriores, podem se relacionar com o seu trabalho individual e do seu grupo? Façam suas postagens e tragam seus temas em cartazes e intervenções na próxima sexta-feira, para uma primeira rodada de contribuição, crítica e intervenção!

IMAGENS DE TRABALHO EM GRUPO DE 2014 NO ESPAÇO DE VIVÊNCIA

Cultura visual e cultura digital / Interdisciplinaridade e Transdisciplinaridade

cultura digital

Cultura visual e cultura digital

O que se denomina como cultura visual? Por que alguns estudiosos, educadores, artistas, cientistas consideram a cultura visual como típica do nosso tempo? Por que boa parte das pesquisas sobre cultura visual é desenvolvida no campo dos Estudos Culturais, da Semiótica, da Artemídia?

Seguem algumas definições de cultura visual que interessam para se debater fundamentos e temas em Ciência, Tecnologia e Sociedade; Arte, Ciência e Tecnologia e Arte/Educação. Uma definição é mais abrangente: ressalta a diversidade do mundo de imagens, processos de visualização e de modelos de visualidade. Destaca a importância dos modos de ver e da experiência visual como paradigma da nossa época e aborda as representações como práticas de significação. São imagens e mediações que tornam a sociedade possível.

Outra definição é mais restrita: enfatiza a cultura de tempos recentes marcados pela imagem digital e virtual sob domínio da tecnologia. Marca a centralidade do olhar na cultura ocidental e revela o ocularcentrismo como base do pensamento científico ocidental. A visualidade é tratada como ponte entre representação e poder cultural na era da globalização.

Cultura visual, Estudos Visuais, História Visual… destacam que os sentidos/significados não estão investidos nos objetos, mas sim nas relações humanas. A cultura visual é uma produção social e o olhar uma construção cultural. Há interesse nos processos e práticas cotidianas de olhar, de exposição, de significação para além do estudo das imagens (produção, circulação, apropriação). E compreende-se que a experiência visual não se realiza de modo isolado, e a representação visual é parte de um conjunto entrelaçado de práticas e discursos que envolvem outros sentidos da percepção.

Por tudo isso, como podemos notar, seria muito difícil tratar de fundamentos e temáticas em Ciência, Tecnologia e Sociedade sem estudarmos e reconhecermos características básicas do que se denomina de cultura visual.

Por outro lado, hoje vivemos o tempo da cultura digital, que transforma percepções, cognições, representações do real, sociabilidade, modos de vida, culturas, práticas e expressões artísticas e culturais. Mas o que é isso? A cultura digital constituiu-se numa ampla e complexa rede de representações e formas de sociabilidade produzidas em linguagens múltiplas (visual, audiovisual, oral, musical, escrita) que convergem, se misturam, se entrelaçam em redes digitais por meio de tecnologias de informação e comunicação. A expressão mais visível da cultura digital em nosso cotidiano é a internet, porém ela vai muito além, para alguns estudiosos, configurando uma nova maneira de se estabelecer as relações entre sujeitos e grupos sociais, chamada de sociedade em rede, por Manuel Castells.

Os estudos acerca da cultura digital são muito importantes para se pensar fundamentos e temáticas em Ciência, Tecnologia e Sociedade pois, ao conectar tantas pessoas em contextos de diversidade cultural, abrem possibilidades de acesso a informações, de trabalho e de diálogos impensáveis até bem pouco tempo atrás.

O que destacamos, sobretudo, é que a cultura digital favorece para que muita gente possa produzir e não apenas consumir arte e cultura, problematizando as relações e os processos de produção científicos, artísticos e culturais advindos das instituições tradicionais. Esta delimitava fronteiras claras entre cientistas, artistas, outros profissionais (os que criam) e consumidores (os que recebem), relações hierarquizadas que podemos trazer para o campo educacional quando pensávamos em professores como os que ensinam conteúdos, e alunos como os que assimilam conteúdos, por exemplo. Debates importantes para nós incluem as seguintes questões: a cultura digital favorece a criatividade ou a passividade? Ou ambas? A cultura digital permite que tipo de produções e circulações/apropriações de representações, conhecimentos, tecnologias? Como cientistas, artistas, pesquisadores, educadores podem ser produtores e mediadores de conhecimentos no contexto da cultura digital? A cultura digital transforma a cognição e o que é a própria configuração do ser humano, colocando em pauta o chamado pós-humano? Essas questões estão em aberto e nos provocam, porque trazem e trarão muitas reflexões e propostas de trabalho interessantes nos próximos tempos…

Interdisciplinaridade e Transdisciplinaridade

A ciência moderna construiu muitos conhecimentos por meio das áreas disciplinares. Podemos atribuir grande parte do desenvolvimento da sociedade capitalista ao trabalho feito nas especialidades, por cientistas, pesquisadores, artistas, estudiosos.

Sem áreas específicas de saber, como as Artes, a História, as Ciências Sociais, a Medicina, a Matemática, a Química, a Física, a Biologia, por exemplo, talvez não tivéssemos criado tantos conhecimentos que possuem aplicabilidade na vida cotidiana no mundo ocidental.

Porém, esse mesmo desenvolvimento social na modernidade, tornou mais complexa a vida e a organização da sociedade.

Com o tempo, as pessoas formadas em áreas de conhecimento específicas passam a perceber a urgência de se criar ligações entre saberes específicos para conseguir compreender e atuar sobre os problemas do mundo.

Surgem perspectivas interdisciplinares, que buscam tratar temáticas com a contribuição de várias áreas de conhecimento disciplinar, postas lado a lado. As Artes, as Humanidades, as Ciências Naturais e Exatas caminham juntas em projetos de pesquisa, novas formulações teóricas e criações de novos conhecimentos e saberes.

Das práticas interdisciplinares surgem perspectivas transdisciplinares, ou seja, da mistura de saberes especializados criam-se outros novos saberes e campos de conhecimento, que buscam pluralizar pontos de vista, teorias, propostas de estudo, e não aceitam mais hierarquizações que dizem qual ou tal área é mais importante para estudar um tema.

Um exemplo de novo campo de saber que tornou-se área de conhecimento recente são os Estudos Culturais, e alguns acreditam que Arte/Educação e Arte, Ciência e Tecnologia também se configuram de forma transdisciplinar – sem contar inúmeras outras novas áreas de conhecimento no campo das Ciências Exatas e Naturais – como espaço de produções de saberes antes inexistentes, talvez sem condições de serem gerados em uma ou outra especialidade.

Em novas áreas como essas, as Artes, as Humanidades e as Ciências podem então atuar tanto lado a lado quanto atravessar temáticas, questionando fronteiras entre as ciências e seus objetos de estudo. Afinal, artistas podem ser cientistas, educadores, técnicos ou tecnólogos e vice-versa, como sabemos. Mais do que isso, o olhar trazido pelas artes pode trazer outras visões, problemas, dilemas, soluções onde observadores de outras áreas não enxergavam nada ou muito pouco…

Em tais perspectivas de trabalho transdisciplinares, o conhecimento e a compreensão da diversidade cultural é uma das temáticas mais destacadas, com ênfase no reconhecimento de conflitos entre culturas, e na multiplicidade de tecnologias culturais e artísticas que cada sujeito e/ou grupo social cria e utiliza para viver e lidar cotidianamente.

Algumas definições resumidas e básicas em torno de práticas de pesquisas e produção de conhecimentos


Seguem definições resumidas que foram debatidas nas últimas aulas para que vocês possam pensar e expor nos blogs-projetos com quais delas vocês podem ter mais afinidades para o desenvolvimento das idéias e dos trabalhos de EDS:

Multidisciplinaridade

– Várias áreas lado a lado para trabalhar uma mesma temática.
– Cada área dá a contribuição a partir dos conhecimentos disciplinares.
– Justaposição de conhecimentos.

Interdisciplinaridade

– Várias áreas convergem para trabalhar uma mesma temática.
– Escolhem e/ou constroem teorias, conceitos, metodologias em comum.
– Entrelaçamentos de conhecimentos e possibilidade de produção de novos conhecimentos.

Transdisciplinaridade

– Novas áreas que trabalham temáticas cujos conhecimentos de quaisquer áreas podem ser acionados e entrelaçados.
– Novas teorias, conceitos, metodologias.
– Produção de novos conhecimentos, de novas temáticas, de novas áreas e de novas disciplinas.

Epistemologias:

São reflexões gerais em torno da natureza, etapas e limites do conhecimento humano, especialmente nas relações que se estabelecem entre o sujeito e o objeto. Podem ser compreendidas como dimensões teóricas que refletem sobre o próprio sentido do conhecimento, como estudos da história, princípios, práticas, conclusões e métodos dos diferentes ramos do saber científico. As epistemologias analisam seus paradigmas, ou seja, os modelos de interpretação, que cada área de conhecimento constrói para legitimar suas explicações. Atualmente, muitos pesquisadores afirmam que as dimensões epistemológicas de várias ciências são bastante frágeis e problemáticas, pois é consenso que muitos objetos de estudo nunca poderão ser conhecidos plenamente, objetivamente, como estes pretenderam por muito tempo. Por outro lado, não caberia mais às ciências essa pretensão, propondo-se outros sentidos, com o favorecimento da pluralidade de visões sobre os objetos de estudo, os conhecimentos e os saberes da sociedade. A mudança de uma perspectiva para outra, considerando as subjetividades para a produção do conhecimento científico, configura-se como um exemplo das transformações da própria dimensão epistemológica das ciências.

Metodologias:

Podem ser definidas como modos de fazer, procedimentos ou técnicas. Estes são estabelecidos para realizar pesquisas, conduzindo à construção de conhecimentos. Com o surgimento da ciência moderna, pressupunha-se que os métodos científicos utilizados garantiriam o sucesso de uma investigação rumo ao estabelecimento de uma única verdade sobre cada assunto. Porém, essa visão foi questionada, pois os seres humanos criaram inúmeros métodos de estudo e de pesquisa que poderiam levar a uma enorme diversidade de resultados, mesmo quando o objeto investigado era o mesmo. Atualmente, graças às reflexões do filósofo Edgar Morin (em Ciência com consciência [2005], por exemplo), considera-se que a utilização de qualquer metodologia precisa se conjugar com uma atitude intelectual que busque a integração das múltiplas ciências e de seus procedimentos de construção de conhecimentos diversificados e complexos. Em todas as áreas do saber são inúmeras as metodologias que os pesquisadores podem escolher para realizar suas pesquisas e todos concordam que – ao contrário do que se defendia em épocas anteriores – nunca nenhuma delas estabelecerá uma única e definitiva explicação sobre qualquer assunto que seja. A defesa da livre escolha e combinação de diferentes metodologias é o reconhecimento de que metodologias são instrumentos importantes para aceitar e ao mesmo tempo contribuir para a diversidade e a complexidade de interpretações possíveis da realidade. Assim, objetividade e subjetividade fazem parte da construção do conhecimento científico, cultural, artístico. Dessa forma, os pesquisadores oferecerem alternativas de compreensão para que as pessoas escolham democraticamente como e quais conhecimentos construídos podem vir a contribuir com a melhoria de suas vidas.

Ideologias

São conjuntos ordenados de idéias, crenças, representações, normas e regras interdependentes, sustentadas pelos grupos sociais de qualquer natureza ou dimensão, as quais refletem, racionalizam e defendem os próprios interesses e compromissos institucionais, sejam estes morais, religiosos, políticos ou econômicos ou culturais. Nenhum indivíduo ou grupo social é desprovido de crenças e valores, portanto, a ideologia é parte inerente da vida humana e das manifestações objetivas e subjetivas do pensamento e do conhecimento criados por nós para nos posicionarmos e entendermos o mundo. Dessa forma, mesmo que alguém não queira se posicionar ideologicamente e mesmo que não tenha consciência de qual é sua ideologia, ela não deixa de existir. Por muito tempo, para desmerecer alguns trabalhos de pesquisa, dizia-se destes que eram “ideológicos”, como se não fossem “objetivos”, “científicos”, como se as ciências, as culturas, as artes, as tecnologias pudessem ser neutras. Porém, atualmente compreende-se que não cabe aos pesquisadores decidirem se terão ou não uma ideologia, mas sim se assumirão ou não quais são as suas, expondo suas subjetividades em seus trabalhos, para que aqueles que os leiam possam ter uma visão crítica do conhecimento ali produzido.

Logo, cabe perguntar:

PARA QUEM É A PESQUISA?

toda pesquisa produzida é destinada a alguém e foi feita por alguém (que partiu de pressupostos epistemológicos, escolhas metodológicas e posicionamentos ideológicos), mesmo que não tenha consciência do que significam todos as dimensões envolvidas na produção de qualquer conhecimento.

(texto adaptado de SANTOS, Andrea Paula dos; RIBEIRO, Suzana Lopes Salgado. Produção do Conhecimento Histórico. Ponta Grossa, PR: Ed. UEPG, 2008, por sua vez inspirado no livro de Keith Jenkins, A história repensada. São Paulo: Contexto, 2005.)

textos básicos para a próxima aula – 03/03/2010

Pessoal:

seguem links para os textos básicos da próxima aula:

Perspectivas teóricas e metodológicas de pesquisa em ciência, tecnologia e humanidades.

. noções de multidisciplinaridade, interdisciplinaridade, transdisciplinaridade;

. construção de linhas e temáticas de pesquisa;

. metodologias de pesquisa.

Cabe a vocês lerem, pensarem e exporem em seus blogs como incorporar esses debates na construção e defesa dos projetos em desenvolvimento sobre estruturas e dinâmicas sociais contemporâneas. Portanto, lembro que esta temática consta da disciplina porque dá os subsídios para o processo de avaliação dos trabalhos individuais e coletivos exigidos aqui em EDS. Bom trabalho!

Teixeira, Olívio Alberto. “Interdisciplinaridade: problemas e desafios”. R B P G . R e v i s t a B r a s i l e i r a d e P ó s – G r a d u a ç ã o. n ú m e r o 1 – j u l h o – 2 0 0 4, pp. 57-69.

http://www2.capes.gov.br/rbpg/images/stories/downloads/RBPG/Vol.1_1_jul2004_/57_69_interdisciplinaridade_problemas_desafios.pdf

Resumo

O objetivo deste trabalho é discutir as relações entre a interdisciplinaridade e a pesquisa, debatendo seus principais problemas e desafios, segundo os termos presentes, em período recente, no debate francês. Para tanto, inicialmente procede-se a uma revisão dos principais fundamentos da interdisciplinaridade, assim como do contexto em que esta questão emerge na discussão da pesquisa internacional.

Em seguida, procura-se demonstrar, por meio da Sociologia das Ciências, a constituição de um campo de pesquisas interdisciplinares. Por fim, intenta-se debater as diferentes classes de problemas e desafios que são enfrentados pela prática interdisciplinar de pesquisa. São assim recorrentes os desafios de organização e coordenação de um coletivo de pesquisa; de comunicação entre pesquisadores; de ordem científica e epistemológica; e, também, de definição dos critérios da certificação científica. Estes problemas e desafios constituem, em última análise, uma grade de leitura que pode colaborar com o marco teórico da interdisciplinaridade na pesquisa e na pós-graduação brasileira.

Palavras-chave: interdisciplinaridade; práticas de pesquisa; Sociologia da Pesquisa

Jupiassu, Hilton. “O espírito interdisciplinar”. Cadernos EBAPE.BR. FGV. Volume IV – Número 3 – Outubro 2006, pp. 1-9.

http://www.ebape.fgv.br/cadernosebape/arq/Jupiassu.pdf

O grande desafio lançado à educação neste início de século é a contradição entre, de um lado, os problemas cada vez mais globais, interdependentes e planetários, e do outro, a persistência de um modo de conhecimento que privilegia os saberes fragmentados, parcelados e compartimentados. Por isso, há urgência de uma reforma da educação, de valorizarmos os conhecimentos interdisciplinares ou, pelo menos, promovermos o desenvolvimento no ensino e na pesquisa de um espírito ou mentalidade propriamente transdisciplinar.

Creio que pode ser aplicado à educação o que dizia Péguy quanto à poesia: “quando a poesia está em crise, a solução não consiste em decapitar os poetas, mas em renovar as fontes de inspiração”.

O que podemos fazer quando tomar consciência de nossos conhecimentos atuais revela uma tremenda incapacidade de pensar o mundo globalmente e em suas partes? O que devemos fazer quando constatamos que nosso pensamento está preso às cegueiras e miopias que caracterizam nossas universidades divididas em departamentos sem comunicação?

(início do artigo. vide a integra no link indicado)

Guattari, Félix. Fundamentos ético-políticos da interdisciplinaridade. F Guattari – Revista Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1992 – caosmose.net

vide em word (para download em http://www.caosmose.net/candido/unisinos/textos/textos/guattari.doc.) ou em html:

http://74.125.155.132/scholar?q=cache:9SeyBhkd_ygJ:scholar.google.com/+pesquisa+interdisciplinar&hl=pt-BR&as_sdt=2000



A transdisciplinaridade, como movimento interno de transformação das ciências, aberta para o social, o estético e o ético, não nascerá espontaneamente. A vida científica internacional fica, freqüentemente, presa a rituais formais, numa interdisciplinaridade de fachada. Seu aprofundamento implica numa permanente “pesquisa sobre a pesquisa”, uma experimentação de novas vias de constituição de agrupamentos coletivos de enunciação. Não apenas equipes pluridisciplinares devem funcionar, se necessário por períodos às vezes longos, ou de acordo com ritmos temporais apropriados, como a questão de sua implantação, de seus campos de investigação, da integração de sua atividade com o meio ambiente humano será freqüentemente discutida. Por exemplo, no domínio da cooperação com os países em via de desenvolvimento, os especialistas freqüentemente caíram de pára-quedas em terrenos sociais que não estavam preparados para recebê-los e que eles não estavam preparados para encontrar. Sob este aspecto, a análise dos fracassos seria bastante enriquecedora. O saber agrônomo, médico, ecológico, da arquitetura, deve ser, de alguma forma, reinventado a cada situação concreta. Daí, como corolário, a importância de se prepararem monografias traçando o percurso inicial de uma experiência, suas fases positivas e negativas, as bifurcações que caracterizam a formação do que chamei de agenciamentos coletivos de enunciação.

Não existe uma pedagogia geral com relação à constituição de uma transdisciplinaridade viva. Deve-se levar em conta a iniciativa, o gosto pelo risco, a fuga de esquemas pré-estabelecidos, a maturidade da personalidade (mesmo tratando-se de pessoas muito jovens). Ainda uma vez, teremos mais a ganhar ao nos referirmos neste depoimento ao processo de criação estética do que às visões padronizadas, planificadas, burocratizadas que reinam freqüentemente nos centros de pesquisas científicas, nos laboratórios e nas universidades.


Morin, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina, 2006, pp. 1-16.

http://novosolhos.com.br/site/arq_material/6528_7156.pdf

(…) O conhecimento científico também foi durante muito tempo e com freqüência ainda continua sendo concebido como tendo por missão dissipar a aparente complexidade dos fenômenos a fim de revelar a ordem simples a que eles obedecem.

Mas se resulta que os modos simplificadores de conhecimento mutilam mais do que exprimem as realidades ou os fenômenos de que tratam, torna-se evidente que eles produzem mais cegueira do que elucidação, então surge o problema: como considerar a complexidade de modo não simplificador? Este problema, entretanto, não pode se impor de imediato. Ele deve provar sua legitimidade, porque a palavra complexidade não tem por trás de si uma nobre herança filosófica, científica ou epistemológica. (…)

A complexidade é uma palavra-problema e não uma palavra-solução. (…)

Será preciso, enfim, ver se há um modo de pensar, ou um método capaz de responder ao

desafio da complexidade. Não se trata de retomar a ambição do pensamento simples que é a de controlar e dominar o real. Trata-se de exercer um pensamento capaz de lidar com o real, de com ele dialogar e negociar. (…)

O pensamento complexo também é animado por uma tensão permanente entre a aspiração

a um saber não fragmentado, não compartimentado, não redutor, e o reconhecimento do inacabado e da incompletude de qualquer conhecimento.

Esta tensão animou toda a minha vida.

Em toda a minha vida, jamais pude me resignar ao saber fragmentado, pude isolar um objeto de estudo de seu contexto, de seus antecedentes, de seu devenir. Sempre aspirei a um pensamento

multidimensional. Jamais pude eliminar a contradição interna. Sempre senti que verdades profundas, antagônicas umas às outras, eram para mim complementares, sem deixarem de ser antagônicas. Jamais quis reduzir à força a incerteza e a ambigüidade.

(trechos do prefácio do livro de Edgar Morin citado acima. íntegra em pdf no link indicado)

Para os que gostaram, vide livros do mesmo autor: Os sete saberes necessários para a educação do futuro (São Paulo: Cortez, 2000) e A religação dos saberes: o desafio do século XXI (Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002), entre tantos outros títulos disponíveis.

(resumos e citações exaustivamente disponíveis na internet)

http://www.youtube.com/v/3i9MmdQLqMQ&hl=pt_BR&fs=1&