9/6 e 11/6 – Aulas 4 e 5

9/6 – Aula 4

Esse memorial de uma aula de CTS dialoga com a de Identidade e Cultura e pode interessar a alguns estudantes mais curiosos:

Apresentamos, nesta aula, para reflexão e ligação com as temáticas de pesquisas dos blogs, o conceito de cultura, do antropólogo estadunidente, professor do MIT, Michael Fischer, cujos capítulos 1 e 2 de seu livro estão disponíveis em nossa Biblioteca, para leitura:

“Cultura é aquele todo relacional, complexo, cujas partes não podem ser modificadas sem afetar as outras partes, mediado por formas simbólicas potentes e poderosas, cujas multiplicidades e cujo caráter performativamente negociado, são transformados por posições alternativas, formas organizacionais e o alavancamento de sistemas simbólicos , assim como pelas novas e emergentes tecnociências, meios de comunicação e relações biotécnicas.

Futuros Antropológicos: Redefinindo a cultura na era tecnológica. RJ: Zahar Ed., 2011, p. 19.

Essa definição de cultura, que é também repleta de hibridismos e interculturalidades, ressalta o impacto das tecnociências em nossa cultura, modificando não apenas nossas formas organizacionais, simbólicas e de comunicação, mas a própria configuração do que entendemos por formas de vida, sem que consigamos mensurar boa parte das consequências das tecnociências em franca aplicação sem reflexão crítica nas nossas sociedades disciplinares/sociedades de controle, conforme tratamos em aulas anteriores, ao falarmos do diálogo entre Gilles Deleuze com as ideias de Michel Foucault. Daí a necessidade da mudança da nossa postura frente aos fundamentos que apontamos no início para que, como estudantes, educadores, cientistas, futuros profissionais de todas as áreas de conhecimento, possamos sempre pensar, criticar e transformar os próprios conhecimentos científicos e tecnologias com os quais temos que trabalhar, com vistas a aprender a reconhecer nossas responsabilidades frente aos impactos das tecnociências.

Também problematizamos o senso comum, já criticado há muito tempo de que as ciências e as tecnologias são neutras. Demos exemplos de como a partir do pós-guerra, na segunda metade do século vinte, houve uma crítica radical quanto aos limites da ciência e da tecnologia por conta da enorme destruição e morte que só foi possível graças aos conhecimentos e práticas científicas e tecnológicas produzidos pelas Ciências Modernas que, infelizmente, serviram de justificativa para um determinado tipo de racionalidade e de usos mortíferos e letais das tecnologias contra seres humanos. Um autor que citamos foi o famoso historiador Eric Hobsbawn e, especificamente, seu livro que é um clássico, uma leitura obrigatória para aqueles que querem entender um pouco da realidade contemporânea, A era dos Extremos: o breve século XX (1914-1991):

“(…) a estranha democratização da guerra. Os conflitos totais viraram ‘guerras populares’, tanto porque os civis e a vida civil se tornaram os alvos estratégicos certos, e às vezes principais, quanto porque em guerras democráticas, como na política democrática, os adversários são naturalmente demonizados para fazê-los devidamente odiosos ou pelo menos desprezíveis. As guerras, [são] conduzidas de ambos os lados por profissionais, e especialistas… (…) …a nova impessoalidade da guerra, que tornava o matar e estropiar uma consequência remota de apertar um botão ou virar uma alavanca. A tecnologia tornava suas vítimas invisíveis…” (pp. 56-57)

Falamos de como a racionalidade científica foi utilizada para criar os campos de concentração, um dos símbolos máximos da barbárie no século vinte, e que teve sua idealização no coração da Europa, onde a Ciência Moderna surgiu e foi glorificada como a rainha que levaria sempre ao progresso da humanidade. Essa mesma racionalidade Ciência Moderna serviu de base aos médicos alemães que torturaram e mataram pessoas presas nos campos de concentração, justificando suas atitudes como “experimento científico”.

Foi assim que expliquei que meu legado, como historiadora, talvez uma “cientista” das humanidades, é fazer a crítica da suposta democratização e neutralidade de certos conhecimentos e práticas ditas científicas e tecnológicas. Nós, mulheres cientistas como eu, a brasileira Lúcia Santaella, e as estadunidenses Sandra Harding e Donna Haraway, sabemos que certos padrões de conhecimento e de ignorância criados pelas Ciências Modernas atingem e conformam objetiva e subjetivamente, e de forma desigual, a vida de homens e mulheres de diferentes regiões e culturas de todo o planeta, beneficiando determinados grupos e excluindo ou eliminando outros, e pondo em questão a própria ideia que temos do que é o humano, a natureza e a ciência como um discurso sobre ambos. De acordo com o sociólogo brasileiro Laymert Garcia dos Santos, vivemos já num contexto demasiadamente pós-humano, sem ao menos nos darmos conta de como as tecnologias são altamente politizadas, com sérios impactos sócio-técnicos da informação digital e genética em nossa vida cotidiana.

Contudo, quero pensar também – de forma quase otimista-pessimista – que a partir do momento no qual vocês, estudantes e futuros profissionais. entram em contato com esses conhecimentos críticos, esse legado crítico também é de vocês e poderá ter grande impacto se souberem relacioná-lo às suas vidas cotidiana e profissional, problematizando suas próprias identidades e subjetividades

Falei da necessidade desse otimismo-pessimista que nos move na sociedade em rede, de Manuel Castells:

“A sociedade em rede, em termos simples, é uma estrutura social baseada em redes operadas por tecnologias de comunicação e informação fundamentadas na microelectrónica e em redes digitais de computadores que geram, processam e distribuem informação a partir de conhecimento acumulado nos nós dessas redes. A rede é a estrutura formal (vide Monge e Contractor, 2004). É um sistema de nós interligados. E os nós são, em linguagem formal, os pontos onde a curva se intersecta a si própria. As redes são estruturas abertas que evoluem acrescentando ou removendo nós de acordo com as mudanças necessárias dos programas que conseguem atingir os objectivos de performance para a rede. Estes programas são decididos socialmente fora da rede mas a partir do momento em que são inscritos na lógica da rede, a rede vai seguir eficientemente essas instruções, acrescentando, apagando e reconfigurando, até que um novo programa substitua ou modifique os códigos que comandam esse sistema operativo.
O que a sociedade em rede é actualmente não pode ser decidido fora da observação empírica da organização social e das práticas que dão corpo à lógica da rede. Assim, irei resumir a essência daquilo que a investigação académica (isto é, a produção de conhecimento reconhecida como tal pela comunidade científica) já descobriu em vários contextos sociais.”
Castells, Manuel. A sociedade em rede: do conhecimento à ação política., p. 20.

Todos vivemos na sociedade em rede, queiramos ou não, conectados ou não, pois a lógica da vida contemporânea é definida por ela e pelos que têm poder para organizá-la, queiramos ou não. Tratamos das ideias de Castells sobre a necessidade de reformar o Estado e refundar a educação, para que a organização da sociedade em rede seja democrática. E nos perguntamos? Isso é possível? Como os conhecimentos científicos e as tecnologias que criamos e usamos no contexto de uma cultura visual e de uma cultura digital podem ter relação com isso?

E falamos também do capitalismo-esquizofrenia, que aprendi com o psicanalista Félix Guattari ( As três ecologias e Da produção de subjetividade In: Caosmose ), de emergência crítica de visões de ciência que alguns denominam, ora de forma elogiosa ora de forma pejorativa como, de Ciências Pós-Modernas, num panorama em torno da complexidade do pensar o que possa vir a ser o fazer de uma Ciência com Consciência, como diria o filósofo e sociólogo Edgar Morin ou de crítica doparadigma dominante  de um certo discurso sobre as ciências como, à sua maneira, fez o sociólogo Boaventura de Souza Santos, preocupado com a ciência que põe a sociedade em risco. Atualmente, podemos escolher entre tantas visões críticas e, se quisermos, conhecer a existência de outras noções sobre o que é a ciência se a entendermos como um dos discursos possíveis sobre o mundo em que vivemos. E também ficarmos atentos às várias definições do termo “tecnologias”, que está em disputa e em processo de pluralização: tecnologias científicas,tecnologias culturais, tecnologias sociais, tecnologias de comunicação e informação.

Diante de tantas plurais e híbridas referências que elenquei nesta aula, como bem criticou o famoso antropólogo Bruno Latour, posso até considerar que, ao invés disso parecer uma crítica eficaz às mazelas da nossa sociedade tecnocientífica, essa reflexão reforce mais ainda um certo discurso cético de que nossa vida intelectual é decididamente mal construída. Ainda mais se for na base da interdisciplinaridade do fast-food-talk-show que nós dá a possibilidade de tratar das vastas temáticas dessas aulas, em poucas horas de um mísero quadrimestre. No entanto, como hoje estou tentando tratar de tudo e mais um pouco que me interessa como pesquisadora num tom de ambiguidade crítica relativamente otimista-pessimista (e não pessimista-otimista!) – para alguns muito pós-estruturalista, para outros de desconstrução (quem me dera!)- torço, ingenuamente e bem iluminista, para que vocês leiam essas ideias e referências linkadas como fonte de questões a serem relacionadas com suas experiências, observações e temas de pesquisa em seus blogs, fazendo novas (des)construções sobre as temáticas que abordamos. Pois, afinal, como educadora no século vinte e um (ou como uma Pandora que apresenta seu post-caixa com novos mitos no seu discurso que não se conforma com os velhos discursos e os usos sociais das ciências, ainda tão em voga nas universidades) tenho o privilégio de poder decidir que a responsabilidade por organizar sua autonomia e seu ritmo para essas leituras em diálogos comigo e com o que você pode pensar, criticar, criar e fazer é totalmente sua.

Tento aprender e fazer aqui a minha parte de criar uma pequena sistematização, como um memorial que pedi a vocês e, quem sabe, consigamos assim ter uma medida do que podem ser as dificuldades e as vantagens incomensuráveis de um “aprender a aprender” e  “aprender a fazer”, mencionados como fundamentos básicos da educação contemporânea no início desse texto… Já o “aprender a ser” e o “aprender a compreender e cooperar” dependerá do que cada um que está envolvido nesse processo vai pensar e criar a partir dessas camadas de palavras apresentadas a vocês: mais uma vez, bom trabalho!

caixa de pandora

http://cienciastecnologiassociedades.wordpress.com/

11/6 – Aula 5

Continuação da Aula 4, memorial acima

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A vida em um dia: tecnologias e cotidiano

O último sábado, 24 de julho, já entrou para a história, mesmo que nada demais tenha acontecido ao longo do dia. O motivo é a escolha da data pelo cineasta Kevin MacDonald para servir de retrato vivo do nosso tempo, no documentário Life in a Day.

O projeto tem bênção do YouTube, que patrocina e oferece todo o suporte tecnológico necessário para a realização do documentário. O processo vai funcionar assim: usuários do YouTube tinham 24 horas para filmar seu cotidiano no sábado – vale tudo, desde crianças brincando no quintal até buzinaço no engarrafamento. O que importa são as diferentes perspectivas que devem dar coesão ao registro.

O prazo para envio dos vídeos vai até o dia 31 de julho, mas não adianta tentar enganar o sistema: somente gravações feitas no dia 24 de julho terão validade para o documentário. O envio é feito dentro do próprio canal do filme, em youtube.com e os 20 usuários com as melhores imagens selecionadas ganharão uma viagem a os Estados Unidos, para assistir à estreia do filme no Festival de Sundance.

Todas as colaborações selecionadas para o corte final do filme garantem o crédito de codiretor, e o material que não for aproveitado no longa-metragem será exibido no canal oficial do filme. O canal, aliás, já conta com vídeo-tutoriais para ajudar os cineastas amadores a obterem melhores resultados com suas câmeras, além de entrevistas com o diretor Kevin MacDonald e o produtor Ridley Scott.

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Para catalogar todo material bruto enviado, o cineasta conta com uma equipe de 15 pessoas onde todos falam diferentes línguas. As imagens serão então listadas de acordo com o conteúdo exibido – de forma não muito diferente de como funcionam as tags no próprio YouTube.

“É um novo tipo de documentário”, afirmou MacDonald. “Sabemos que será um filme experimental, mas a experiência está apenas começando.” O cineasta terá o trabalho de dar uma ordem lógica e um sentido ao grande volume de material bruto esperado – cerca de 20 horas de vídeos são disponibilizadas no YouTube a cada minuto.

“Espero não estar sendo presunçoso, mas imagino que teremos alguns milhares de horas filmadas para trabalhar”, disse
MacDonald. “É um tipo de projeto que só se tornou possível graças à internet.” A ideia é que o resultado final seja um documento sobre “como era um dia na vida do mundo em 2010”. MacDonald ainda espera que as imagens sejam “íntimas e honestas”, pedindo que as pessoas não tentem atuar, que apenas “abram suas vidas e segredos”.

Parte da inspiração estética de Life in a Day vem de três documentários (ver abaixo), tendo em comum uma forte dose de experimentalismo e liberdade formal. O filme não tem verba de grandes estúdios, apenas produção da empresa Scott Free (dos irmãos cineastas Ridley e Tony Scott) e patrocínio do Google.
“É libertador poder criar sem imperativos comerciais”, diz
MacDonald. Seria o retorno do mecenato? “Certamente, o patrocínio está fazendo um retorno”, disse.

Life in a Day terá trilha sonora do produtor Matthew Herbert e promete estrear em janeiro o primeiro mosaico colaborativo do século 21 no cinema.

Fonte de inspiração

ANNA: 6 AOS 18
DIRETOR: Nikita Mikhalkov
PAÍS: Rússia/França
DATA: 1993
SINOPSE: Documento da passagem do tempo na Rússia através da perspectiva da menina Anna, que responde às mesmas perguntas todo ano

LISTEN TO BRITAIN
DIRETOR: Humphrey Jennings e Stewart McAllister
PAÍS: Reino Unido
DATA: 1942
SINOPSE: A vida na Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial em documentário pontuado pelo som ambiente

KOYAANISQATSI
DIRETOR: Godfrey Reggio
PAÍS: Estados Unidos
DATA: 1982
SINOPSE: Documentário experimental musicado por Philip Glass que apresenta a passagem do tempo através de imagens em time-lapse

Fonte:

http://blogs.estadao.com.br/link/a-vida-em-um-dia/

Olhem quanta coisa legal pode ser feita por pessoas que vivem tão distantes uma da outra, graças à tecnologia! Será que pessoas que convivem tão perto não podem fazer algo parecido ou ainda mais interessante, como forma de expressão e de criação de novos significados que mudem a realidade para melhor? bjs

Corpos e tecnologias ciberativistas: breve artigo em andamento para convidar para Iniciação Científica e Grupo de Pesquisa

Então, pessoal. Sei que está todo mundo ferrado com o fim do quadrimestre, mas… como temos prazos para inscrição de interessados em Iniciação Científica, aqui vai um convite, contendo um texto em primeira versão, cuja escritura está em andamento para apresentação numa reunião científica. Quem se interessar pela temática, por favor, entre em contato!

Corpos e tecnologias ciberativistas: pesquisa estética em estudos de performances no universo cibercultural entre arte, ciência e política

Andrea Paula dos Santo – UFABC
Rodrigo Garcez – UNICAMP

O objetivo deste artigo é apresentar reflexões advindas de pesquisas e estudos sobre corpos e tecnologias que constituem performances ciberativistas no âmbito do universo cibercultural, a partir de um cruzamento de referenciais metodológicos vindos tanto do campo dos estudos de performance quanto da performance art. Com isso busca-se ampliar a compreensão do ciberativismo como prática política em que corpos e tecnologias propõem, em termos ciberculturais, velhos e novos comportamentos expressivos, artísticos ou não. Investigamos até que ponto algumas práticas ciberativistas problematizam ou endossam o estado de passividade, conflito e crise do corpo contemporâneo, em sua experiência cotidiana com uma profusão de tecnologias que, sem dúvida, afetam sua construção histórica. Como se constroem possíveis relações em rede entre corpos e tecnologias em performances ciberativistas abrangendo, por exemplo, criações e usos artísticos ou não da internet? Essas práticas questionam e/ou inventam percepções e rotinas que podem reconfigurar efetivamente processos de produção e consumo de informações e de lazer, bem como relações de poder subjacentes, políticas públicas e estratégias de controle de corpos e tecnologias vigentes na sociedade contemporânea?

Partimos do pressuposto de que as artes são produzidas em interface direta com as ciências, e em ligação estreita com novas tecnologias, sobretudo as de informação e comunicação. Conhecer como arte, ciência e tecnologia aportam tais processos pode ser uma das principais tarefas inter e/ou transdisciplinares de sujeitos e grupos na contemporaneidade, sobretudo de pesquisadores da cibercultura e de ciberativistas. O campo das artes propôs, desde meados do século XX, formas de expressar que só foram possíveis de se desenvolverem e se ampliarem com o desenvolvimento da convergência de tecnologias de informação e comunicação que constituíram a chamada cibercultura, como campo de relações sociais e culturais que existe a partir da aproximação e convivência de sujeitos e grupos por essas mediações tecnológicas pela internet, que possibilitou o surgimento de novas interações e espaços virtuais, que prescindem da noção consagrada de materialidade física de sujeitos e grupos. A chamada arte eletrônica foi reconhecida como aberta e interativa, trazendo, usando e criando linguagens – tais como música eletrônica, e-mail art, body art, webart, entre outras expressões artísticas e estéticas tecnológicas – que rompem fronteiras tradicionais entre autores-artistas e públicos-espectadores. Todos, em princípio, podem interagir por meio dessas linguagens das artes com criação, recombinação, colagem, plágio, citação, crítica de informações visuais, audiovisuais, musicais, escritas, em formas hipertextuais, com ou sem linearidades discursivas, em complexos processos fragmentários e múltiplos, que se conectam e coexistem em rede, paralelos e/ou entrecruzados. Estar em rede, navegar, interagir, simular, hibridizar linguagens, percepções e informações configuram-se como formas artísticas de expressão, reposicionando em novos termos a realidade da comunicação e da informação cotidiana, e seus comportamentos expressivos mediados por tecnologias ligadas ao campo da micro-eletrônica.

Foram postas em cheque concepções tradicionais de relações entre arte, ciência e tecnologia no contexto contemporâneo que subestimaram ligações entre estética e política, principalmente quando tratamos das novas tecnologias de informação e comunicação. Ciberativistas ou não, somos sujeitos de novas culturas políticas virtuais, musicais, visuais e audiovisuais, em que se apresentam convergências de linguagens numa cultura digital, repleta de hibridismos, com novas percepções sobre realidades mistas. Não se distinguem separações nítidas entre práticas políticas, éticas e estéticas tecnológicas. Simulacros, simulações, mídias e políticas confundem e relacionam realidades multifacetadas. Os estudos de performance e política colocam corpo, política, arte, ciência e tecnologias no mesmo patamar, analisando transformações cognitivas, relações de poder, estratégias de controle e políticas publicas que extrapolam ciberculturas e ciberativismos e reconfiguram o panorama da vida em sociedade no século XXI.

Dentro ou fora do universo cibercultural, os registros de memórias implicam em atos de lembrar em contextos de criação de diálogos entre sujeitos e grupos que se dispõe a falar, com seus corpos, sobre suas lembranças, que se estendem para além dos limites corporais, abrangendo objetos, imagens, paisagens, tecnologias, que são apropriados e se tornam documentos e vestígios de subjetividades e de experiências sociais em determinadas comunidades em nossa sociedade. A partir de algumas noções clássicas de memória, corpo, tecnologia, subjetividade, documento – e do panorama crítico-analítico em torno delas na contemporaneidade – a pesquisa, em andamento, objetiva registrar e analisar experiências e relações entre grupos ciberativistas, diante do próprio impacto de reconstrução constante do universo cibercultural. As práticas ciberativistas e os registros de suas memórias são feitos de forma colaborativa pelos sujeitos desses grupos? Como sujeitos e grupos ciberativistas utilizam várias tecnologias de comunicação e informação (vídeo, scanner, banco de dados, câmeras fotográficas, webcams, sites, blogs…) relacionadas ao uso do computador e da internet para construírem comportamentos expressivos? Tais práticas políticas dialogam com as artes e as ciências? Proporcionam ou não problematizar usos dessas tecnologias para esses grupos e para outros? Consideram as formas como seus corpos e subjetividades se reconfiguram em processos de criação de memórias e corporeidades em espaços presenciais e virtuais? Ressignificam sujeitos, grupos, antigas e novas comunidades e paisagens na rede?

No campo dos estudos da performance, como pesquisa ética e estética de comportamentos expressivos, fratura-se e expõe-se o corpo, mostrando como se agenciam, se constroem e se descontroem diversas linhas de força de rituais cotidianos que todos participamos, sejam políticos, religiosos, científicos, econômicos… Os comportamentos expressivos dos sujeitos e seus grupos são criticados e desmontados para possibilitar novas visões, que os desnaturalizarem, e assim permitam desmistificar noções de corporeidade “pura”, de sujeitos e comunidades em esquemas binários, entre o bem e o mal, cujos corpos são representados como distantes ou sem tecnologias que, ao contrário, ativamente nos constituem e nos tornam performers e sujeitos da política. Por meio dessa pesquisa, analisamos como muitas perspectivas e práticas ciberativistas que se colocam como revolucionárias acabam por reiterar velhas práticas e visões políticas, ignorando processos de transformações científicas, tecnológicas e artísticas que atualmente têm poderoso impacto nas percepções de sujeitos e grupos sociais.

Ainda perguntamos: o ciberativismo pode ir além de reproduzir visões conservadoras de como nos tornamos sujeitos da política? Passeatas virtuais, abaixo-assinados, cartas e manifestos de protesto em caixas de entrada de e-mails, jornalismo alternativo e comentários em sites e/ou macro/
micro blogs, levam ou não a repetir performances rotineiras e relações passivas de controle de corpos e tecnologias, que reafirmam papéis distintos de produtores e receptores de informações – e de políticas – no universo cibercultural? Há grupos ciberativistas que questionam as estruturas dessas formas de comunicação no universo cibercultural e fazem novas proposições em torno delas? Qual é o espaço da arte nas práticas e performances ciberativistas? Corpos e tecnologias de sujeitos ciberativistas apresentam ou não estados pós-traumáticos de fragmentação e mutilação pelo choque com tecnologias usadas como opressão? Ou os corpos ciberativistas aparecem em versões conservadoras, intocadas, de pureza idealizada, a serem conquistados e/ou preservados nas visões utópicas das representações de espaços futuros da política, tal como eram os paraísos realistas socialistas ou nazi-fascistas, construídos por grupos políticos autoritários para legitimar práticas políticas tão criticadas no século XX? Os ciberativismos naturalizam ou desnaturalizam as mediações tecnológicas dos corpos na cibercultura, pautada pelas noções de presença, mobilidade, ubiquidade e virtualidade?

Pensar os corpos ciberativistas para além de sua materialidade física é um dos focos principais dessa pesquisa, já que nos debruçamos sobre a questão complexa da memória social em função de práticas de descarte e reciclagem de memórias, usos e tecnologias. Nesse sentido, ao problematizar as noções de corpo e tecnologia nas práticas ciberativistas, consideramos a memória como uma das noções mais mobilizadoras da diversidade de sujeitos e grupos em rede, já que traz possibilidades de legitimação simbólica ao reivindicar o ato de lembrar e a evocação de lembranças como fontes para a construção e/ou apropriação de fontes históricas e de versões da história em disputa na contemporaneidade. Estudamos processos de legitimação de idéias e práticas em torno de corpos, subjetividades e ambientes por meio de construções e/ou interpretações por grupos ciberativistas de velhos e novos documentos, arquivos, centros de memória, museus, entre outras formas e instituições que se propõem a fazer guarda e/ou divulgação dos vestígios produzidos pelos sujeitos e grupos. Como decidir o que deve ser lembrado ou esquecido pelas sociedades, para que o esquecimento não seja a tônica da dinâmica social imediata e futura?

Propomos, portanto, a partir de olhares que emergem dos campos de performance art e dos estudos de performance, reflexões sobre disputas em torno das noções de corpo e tecnologia em circulação nos ciberativismos e no universo cibercultural, bem como sobre outras noções, como a de memória, que informam e dão sustentação a essas disputas, e que se encontram igualmente em linha de fogo. Adoções e usos de certas tecnologias trazem possibilidades de novos corpos ou usos dos corpos ciberativistas, e também novas criações documentais e análises críticas de como sujeitos e grupos lidam com corporeidade por meio de múltiplos sentidos do conceito de memória, de cibercultura, de ciberativismo. Investigamos performances que coloquem em debate muitas das visões teóricas e práticas cotidianas, quase naturalizadas e legadas ao senso-comum, de grupos ciberativistas ou não, que têm materializado e desmaterializado corpos, tecnologias, documentos em rede, refletindo sobre o que é feito e o que podemos fazer diante dos excessos e dissoluções de corpos, tecnologias, arquivos, vistos como pontos privilegiados das práticas políticas e sociabilidades humanas, fontes de vestígios a serem legados ou não às futuras gerações.